Quando o dinheiro perde valor, a esperança costuma desvalorizar antes. Em “Tempo de Caça”, Yoon Sung-hyun imagina uma Coreia do Sul arruinada, tomada por uma crise econômica tão funda que ruas, lojas e edifícios parecem sobreviver aos próprios habitantes. Não há ali o brilho tecnológico que o país exportou como símbolo de modernidade, tampouco jovens preocupados com carreira, apartamento ou futuro. Jun-seok sai da prisão e encontra os amigos praticamente no mesmo lugar onde os deixara, só que mais pobres, mais cansados e sem qualquer razão para acreditar que trabalhar honestamente vá lhes oferecer alguma coisa. A saída que imaginam é criminosa, evidentemente, mas o filme não demora a sugerir que o verdadeiro delito talvez tenha ocorrido muito antes de eles resolverem assaltar um cassino.
Lee Je-hoon imprime a Jun-seok aquela confiança desesperada de quem precisa convencer os outros antes de convencer a si mesmo. Ele sonha com uma vida longe dali, perto do mar, num lugar onde ainda seja possível respirar sem pedir licença, e arrasta Jang-ho, Ki-hoon e Sang-soo para um plano que parece simples na matemática insensata dos jovens sem nada a perder. A arma, o dinheiro e o cassino transformam-se rapidamente em objetos secundários. O que interessa a Yoon é a ilusão de que um golpe bem-sucedido poderia devolver àqueles rapazes a chance de começar outra vez.
O assalto abre a porta
Durante algum tempo, “Tempo de Caça” comporta-se como um filme de assalto. Há preparação, armas, máscaras, vigilância e aquele suspense conhecido de produções em que o espectador começa a torcer por criminosos porque já passou tempo suficiente com eles. Yoon domina essa gramática e não tenta reinventá-la. O pulo do gato vem depois, quando Han entra no encalço do grupo e o filme muda de natureza. Park Hae-soo transforma o perseguidor numa espécie de entidade, um homem que parece sempre chegar antes de suas vítimas e cuja tranquilidade é infinitamente mais ameaçadora que qualquer acesso de fúria. A partir daí, o dinheiro roubado quase deixa de importar. O assalto era a porta; a caçada é o filme.
Choi Woo-shik e Ahn Jae-hong ajudam a dar carne a uma amizade que poderia facilmente desaparecer sob tiros, corridas e corredores escuros. Há algo de infantil naquele grupo, não no sentido de ingenuidade, mas na forma como ainda acreditam que permanecer juntos seja uma defesa suficiente contra o mundo. Yoon já havia tratado de amizades masculinas feridas em “Bleak Night”, seu longa de estreia, e demorou cerca de uma década para realizar o segundo filme. A mudança de escala é brutal: do drama íntimo para uma distopia de assalto e perseguição, sem abandonar o interesse por rapazes que descobrem tarde demais o custo de suas lealdades. “Tempo de Caça” foi apresentado na Berlinale Special Gala de 2020, antes de chegar à Netflix.
A cidade vira uma armadilha
O diretor usa a cidade como uma extensão do medo. Prédios vazios, estacionamentos, hospitais, corredores e ruas quase desertas deixam de ser cenário e passam a funcionar como armadilhas. Quanto mais espaço existe, menos saída parece haver. A perseguição de Han tem alguma coisa de videogame e muito do terror, principalmente quando Yoon percebe que mostrar menos o predador faz com que ele pareça estar em todo lugar. O som de passos, um disparo distante ou uma sombra bastam para que a narrativa aperte o pescoço do espectador.
Nem tudo funciona com a mesma precisão. A longa perseguição insiste algumas vezes em situações que já haviam cumprido seu papel, e Han ameaça tornar-se abstrato demais, mais mecanismo que personagem. O diretor, contudo, parece consciente desse exagero e faz dele parte da experiência. Jun-seok e os amigos não estão sendo perseguidos apenas por um assassino; estão tentando fugir de um mundo no qual todas as portas se fecharam antes mesmo de eles chegarem.
É por isso que o título ganha força aos poucos. Caçar pressupõe alguma possibilidade de fuga, alguma vantagem ocasional para a presa, e Yoon diverte-se cruelmente com esse princípio. Jun-seok corre porque ainda acredita naquele paraíso imaginado, naquela praia distante onde os amigos poderiam gastar o dinheiro e esquecer tudo. Mas “Tempo de Caça” nunca foi um filme sobre enriquecer. É sobre jovens que já começaram pobres demais até para sonhar e cometem a imprudência de imaginar que basta correr para deixar a ruína para trás. O futuro os espera, sim. Só não há nenhuma garantia de que seja melhor que o lugar de onde vieram.

