O crime organizado tem uma curiosa obsessão com palavras domésticas. Chefes tornam-se pais, subordinados viram irmãos, juramentos de sangue ocupam o lugar dos vínculos que a natureza não providenciou, e uma organização dedicada a atividades que ninguém apresentaria à mãe no almoço de domingo passa a atender pelo nome respeitável de família. Michihito Fujii leva essa contradição às últimas consequências em “Família Yakuza”, acompanhando durante duas décadas Kenji Yamamoto, um rapaz sem rumo que encontra na máfia japonesa o pai, a casa e a identidade que lhe faltavam. O diretor não está interessado em transformar seus homens em samurais de terno escuro, tampouco em fingir que a violência deixa de ser violência porque obedece a códigos. O que lhe interessa é algo mais incômodo: descobrir o que sobra de um homem quando até a família errada deixa de querê-lo.
Depois da morte do pai, Kenji atravessa a juventude com aquela mistura especialmente perigosa de raiva e ausência de propósito. Go Ayano dá ao personagem uma impetuosidade quase infantil nos primeiros movimentos do filme, como se toda provocação exigisse uma resposta e cada resposta tivesse de ser maior que a ofensa. É nesse estágio que ele cruza o caminho de Hiroshi Shibasaki, veterano chefe de uma organização yakuza que o socorre quando as coisas apertam e, pouco a pouco, ocupa o espaço deixado vazio dentro dele. Hiroshi Tachi não precisa recorrer ao tipo espalhafatoso do mafioso cinematográfico; Shibasaki fala baixo, observa, protege os seus e cultiva aquela autoridade que dispensa demonstrações constantes. Kenji aceita o abrigo, participa do ritual que sela sua entrada no grupo e começa a subir na hierarquia. Fujii sabe muito bem que é aí que mora o perigo de sua história: para alguém que nunca teve nada, pertencer a alguma coisa pode parecer uma forma de salvação.
O Japão fecha as portas
O filme avança em três períodos, e o tempo não funciona apenas como recurso narrativo. Ele é o antagonista mais eficiente de Kenji. A cada salto, Fujii mostra um Japão que se moderniza enquanto a yakuza vai perdendo o terreno simbólico e material sobre o qual construíra sua mitologia. O que antes podia ser apresentado como uma irmandade obscura, mas tolerada nas franjas do tecido social, começa a ser empurrado para fora de bancos, contratos, negócios e relações corriqueiras. Desde a entrada em vigor da legislação específica contra os boryokudan, como são oficialmente definidos esses grupos, o Estado japonês aprofundou medidas para cortar suas fontes de financiamento e excluí-los de transações econômicas e da vida comunitária. Em “Família Yakuza”, essa mudança deixa de ser abstração jurídica quando Kenji percebe que não basta querer abandonar o crime: sua antiga identidade o segue como uma tatuagem que roupa nenhuma consegue esconder.
É nesse ponto que o longa se distancia dos filmes tradicionais sobre mafiosos e ganha uma tristeza particular. O espectador já viu Kenji bater, ameaçar, jurar fidelidade e aceitar o paternalismo de Shibasaki; Fujii não pede que se esqueça de nada disso. Entretanto, quando aquele mundo começa a definhar, o diretor desloca o foco do criminoso para o pária. A sociedade que deseja o fim da yakuza não está necessariamente disposta a aceitar de volta quem viveu dentro dela. O paradoxo é cruel e dramaticamente fértil. Se Kenji permanece no grupo, não há futuro; se sai, o passado continua a interditá-lo. O personagem de Ayano começa então a parecer muito mais velho que sua idade, como se os anos de cadeia, violência e obediência tivessem passado não sobre ele, mas por dentro dele. A performance cresce justamente porque o ator vai reduzindo o rapaz explosivo do começo até restar um homem que já não sabe onde colocar as mãos.
O preço de tentar sair
Machiko Ono entra nessa equação como Yuka, uma possibilidade de vida que Kenji vislumbra tarde demais, e Fujii evita fazer dela um prêmio para o bandido arrependido. Há afeto, mas também o peso de tudo quanto foi interrompido. É uma decisão importante porque “Família Yakuza” poderia facilmente desandar num melodrama de redenção, desses em que um filho, uma mulher e um trabalho honesto bastam para apagar vinte anos de escolhas ruins. Fujii é sentimental, às vezes mais do que deveria, mas não é tão ingênuo. Sua câmera prefere demorar-se nas consequências, nos reencontros desconfortáveis, na vergonha, na dificuldade de conversar com gente que continuou vivendo enquanto Kenji permanecia preso a uma ideia de honra que o mundo já havia descartado. O sentimentalismo que incomodou parte da crítica japonesa está lá, sem dúvida, porém há algo de genuíno na insistência do diretor em enxergar humanidade justamente onde seria mais fácil distribuir condenações.
Ao cabo dos 136 minutos, percebe-se que Shibasaki dera a Kenji o que ele mais desejava e, talvez por isso mesmo, também aquilo que terminaria por destruí-lo. A família da yakuza acolheu um garoto sem pai, ofereceu-lhe sobrenome moral, proteção, irmãos e regras; depois cobrou tudo com juros. Go Ayano sustenta essa lenta transformação sem fazer de Kenji nem vítima, nem herói, enquanto Fujii acompanha a agonia de uma instituição criminosa sem cometer o disparate de lamentar seu desaparecimento. “Família Yakuza” fala menos sobre a morte da máfia japonesa que sobre homens incapazes de sobreviver à morte do único mundo que conheciam. Há famílias das quais se foge para continuar vivo. O desgraçado de Kenji só descobre isso quando já não sabe viver fora da sua.

