Há tragédias que não terminam quando chega a ambulância. Começam ali. Um corpo estendido no asfalto pode significar sofrimento para uma família, trabalho para médicos, policiais e bombeiros, mas também dinheiro para advogados, seguradoras, falsos peritos e intermediários que aprenderam a viver daquilo que resta quando alguém bate o carro e perde tudo. É nesse submundo perfeitamente integrado à vida normal que Pablo Trapero enfia Ricardo Darín em “Abutres”, um thriller argentino áspero, noturno, quase sempre desagradável no melhor sentido da palavra. Sosa não rouba bancos nem aponta revólveres para velhinhas; especializou-se em acidentes de trânsito e percorre hospitais públicos, funerárias e ruas da periferia de Buenos Aires atrás de vítimas que possam virar clientes. Está prestes a recuperar a licença de advogado e trabalha para uma suposta fundação que, por baixo da respeitável fachada, integra um esquema de indenizações, testemunhas compradas e acertos com gente que deveria fiscalizar a engrenagem.
É uma profissão especialmente repugnante porque depende de que algo dê errado para alguém, e Sosa já parece ter-se acostumado à ideia. Trapero apresenta seu anti-herói com a discrição de quem sabe que tipos assim não precisam andar cobertos de sangue para causar arrepios. Ricardo Darín faz o resto. Há no personagem aquele cansaço melancólico que o ator argentino sabe transformar em charme, mas desta vez o encanto vem contaminado: Sosa conhece policiais, funcionários de hospitais, testemunhas profissionais e todos os atalhos que permitem transformar uma perna quebrada ou um cadáver numa quantia bastante concreta. Numa noite, ele se aproxima de mais um acidente e encontra Luján. Ela tenta impedir que um homem morra; ele quer saber se o acidentado ainda está lúcido o bastante para assinar alguma coisa. É uma apresentação amorosa que só poderia mesmo acontecer num filme em que até o afeto nasce no acostamento.
Luján também está moída. Médica recém-chegada do interior, divide-se entre ambulâncias, emergências e outros empregos, dormindo quando o corpo consente e recorrendo a expedientes cada vez menos inocentes para continuar funcionando. Martina Gusmán resiste bravamente à tentação de fazer da personagem a mocinha encarregada de salvar um homem corrompido. Não há ninguém verdadeiramente disponível para salvar ninguém em “Abutres”. Sosa gostaria de abandonar o trabalho de carniceiro; Luján gostaria apenas de sobreviver a seus plantões; os dois gostariam de experimentar por algumas horas a ilusão de que uma vida diferente continua ao alcance da mão. Trapero, que escreveu o roteiro com Alejandro Fadel, Martín Mauregui e Santiago Mitre, vai aproximando-os sem tirar de quadro a lama na qual ambos pisam.
O amor entre os destroços
O romance é o ponto em que o filme se afasta da investigação criminal convencional e fica mais interessante. Sosa e Luján não formam um casal improvável porque pertencem a mundos opostos. Pelo contrário: pertencem exatamente ao mesmo mundo, apenas ocupando posições diferentes na cadeia alimentar. Ela recebe a vítima quando ainda há alguma coisa a fazer; ele chega logo depois, quando o sofrimento já pode ser transformado em papel, procuração e porcentagem. A lembrança de “O Abutre”, de Dan Gilroy, vem naturalmente, não apenas pela coincidência zoológica dos títulos, mas pela maneira como os dois filmes descobrem uma economia perfeitamente racional instalada ao redor da desgraça. Lou Bloom vende imagens; Sosa vende reparação. Um precisa que o sangue renda audiência, o outro que renda indenização.
Trapero não chega a “Abutres” como um aventureiro. Um dos nomes centrais do chamado Novo Cinema Argentino, ele já havia levado “El Bonaerense” à mostra Un Certain Regard em Cannes e “Leonera” à competição oficial quando voltou ao festival, em 2010, justamente com este filme, novamente em Un Certain Regard. Essa experiência aparece na segurança com que transforma Buenos Aires numa cidade de luzes frias, corredores hospitalares, estacionamentos, escritórios sem graça e ruas onde o próximo estrondo parece estar sempre a poucos segundos. A fotografia de Julián Apezteguía não embeleza a podridão nem precisa mergulhar tudo numa escuridão expressionista para afirmar que se trata de noir. O que escurece o filme são as relações. Trapero, aliás, definiu-o como um thriller negro à maneira dos anos 1940 e 1950, fundido à vida privada de duas pessoas tentando existir num mundo em que um gesto banal pode desencadear consequências fatais.
Buenos Aires sob luzes frias
Darín é perfeito porque Sosa precisa parecer ao mesmo tempo culpado e cansado de sentir culpa. O ator não absolve o personagem, apenas o torna suficientemente humano para que sua tentativa de fuga daquele esquema não pareça uma conveniência do roteiro. Gusmán segue direção parecida, conferindo a Luján um desespero que vai ficando físico, visível no corpo exausto, nos movimentos quase automáticos, naquela necessidade de permanecer desperta apesar de tudo. Carlos Weber, por sua vez, ajuda Trapero a conservar a ameaça no plano terreno: não há chefões operísticos nem criminosos saídos de histórias em quadrinhos, só homens que sabem onde fica o dinheiro e têm pouquíssimo interesse em permitir que alguém lhes feche a torneira.
“Abutres” estreou em Cannes falando de uma Argentina em que acidentes de trânsito movimentavam uma indústria inteira, mas sua perversidade maior independe de estatísticas e fronteiras. Trapero não está particularmente interessado em provar que Sosa é mau, tampouco em convencer o espectador de que o amor purifica. O que há de mais desconfortável é perceber que o sistema funciona justamente porque cada participante consegue explicar para si mesmo que está apenas fazendo seu trabalho. Alguns salvam vidas. Outros preenchem formulários. Outros aparecem quando ainda há sangue quente no asfalto. O carancho, afinal, não provoca a morte. Basta-lhe saber esperar.

