Há lugares cuja beleza chega a parecer uma provocação. A ilha de Jeju, no extremo sul da Coreia do Sul, com seu mar luminoso, suas estradas margeadas de verde e um horizonte que se abre sem esforço, seria o cenário perfeito para histórias em que gente cansada decide começar de novo. Park Hoon-jung faz exatamente o contrário em “Noite no Paraíso”. Leva para lá um homem que já gastou quase todas as chances e uma mulher que não dispõe sequer do consolo de imaginar o futuro, e os deixa juntos durante o intervalo curto em que a morte, ocupada com outras vítimas, parece esquecê-los. Depois volta para cobrar. Park escreveu e dirigiu o filme, protagonizado por Um Tae-goo, Jeon Yeo-been e Cha Seung-won.
Tae-gu vive de coisas que homens sensatos prefeririam não conhecer. Integrante de uma organização criminosa, ele sabe intimidar, negociar e matar, mas não conseguiu aprender a indiferença, requisito talvez mais importante para quem deseja envelhecer naquele ramo. A irmã está doente, a sobrinha ainda é criança, e é justamente pela família que seus inimigos encontram o ponto por onde atingir alguém habituado a se defender. Depois de uma tragédia, Tae-gu responde como seria de esperar de um sujeito cuja gramática moral foi escrita a tiros e precisa desaparecer. Jeju entra no filme quando Seul já ficou pequena para acomodar tanta vingança, e Park diminui a velocidade sem reduzir a ameaça. O gângster se refugia junto a Kuto, um negociante de armas vivido por Lee Ki-young, e conhece Jae-yeon, sua sobrinha. Ela não demonstra nenhum fascínio por aquele homem com cara de poucos amigos. Mal olha para ele.
Jeju, onde ninguém recomeça
Jae-yeon sabe manejar armas, dirige como se o automóvel lhe devesse alguma coisa e trata a própria morte com uma naturalidade que desarma Tae-gu mais facilmente que qualquer capanga. Está gravemente doente e não parece interessada na compaixão alheia. Jeon Yeo-been faz dessa jovem uma presença estranhamente solar no filme mais escuro de Park, não porque lhe confira alegria artificial, mas porque Jae-yeon já passou do estágio em que se necessita fingir que a vida obedece a algum princípio de justiça. O contraste é ótimo: ele matou muita gente e começa a temer morrer; ela provavelmente nunca matou ninguém e já não se espanta com a proximidade do fim. Enquanto comem juntos, passeiam de carro ou trocam provocações, “Noite no Paraíso” quase abandona o filme de gângster que vinha sendo até ali e insinua outra possibilidade, muito mais perigosa para Tae-gu: a de gostar novamente de estar vivo.
Park Hoon-jung conhece bem o noir sul-coreano. Antes de “Noite no Paraíso”, já havia escrito e dirigido “New World” e construído uma carreira em torno de homens para quem lealdade, poder e sobrevivência nunca cabem na mesma frase sem que alguém termine no chão. Aqui, contudo, há uma melancolia mais espessa. A violência não irrompe para libertar os personagens, tampouco funciona como simples recompensa para espectadores à espera do próximo corpo. Ela deixa resíduos. Um homem esfaqueado continua tentando respirar; outro corre mesmo sabendo que será alcançado; quem dispara não se transforma subitamente em herói porque acertou o sujeito certo. Park alonga confrontos, permite que o cansaço entre em quadro e faz com que a brutalidade perca qualquer aparência esportiva. “Noite no Paraíso” foi selecionado fora de competição para a 77ª Mostra de Veneza, em 2020, antes de chegar mundialmente à Netflix no ano seguinte.
A violência perde o glamour
É quando o chefe Ma aparece com mais força que essa lógica se torna particularmente saborosa. Cha Seung-won não precisa fazer dele um psicopata de manual. Ma conversa, negocia, compreende a utilidade de determinados acordos e chega a manifestar uma espécie de profissionalismo diante dos inimigos, como se todos fossem executivos de empresas concorrentes discutindo participação de mercado. A graça macabra está aí. Quanto mais civilizados parecem aqueles homens, mais absurda se torna a constatação de que, terminada a conversa, alguém pode ser retalhado. Park Ho-san, na pele de Yang, completa a fauna com outro tipo bastante reconhecível: o chefe que fala de honra enquanto calcula quanto vale a vida dos subordinados. Tae-gu demora a perceber que, naquele universo, confiança é apenas uma palavra empregada até deixar de ser conveniente.
Um Tae-goo não tenta embelezar o protagonista. Seu Tae-gu é pesado, taciturno, às vezes até meio lerdo para compreender o que outros já enxergaram, e essa falta de heroísmo convencional beneficia o filme. Perto de Jae-yeon, ele parece um sujeito que chegou tarde demais à própria vida. Há uma ternura malformada entre os dois, mantida no limite que a história permite, e Park tem juízo para não converter a aproximação num romance salvador. Nada os salvaria. Nem amor, nem dinheiro, nem uma ilha belíssima, nem a disposição de acertar as contas com os mortos.
Quando “Noite no Paraíso” finalmente abandona qualquer esperança de conciliação, Jeon Yeo-been assume o que restava do filme e muda a temperatura de tudo. O paraíso do título já não é Jeju, se algum dia foi. Talvez seja apenas aquele pequeno período em que duas pessoas condenadas conseguiram sentar-se à mesma mesa, comer alguma coisa e esquecer por alguns minutos que havia homens armados do lado de fora e uma doença trabalhando por dentro. Park Hoon-jung sabe que isso é pouco. Para Tae-gu e Jae-yeon, era quase tudo.

