Há trabalhos em que fracassar significa perder dinheiro, prestígio ou uma promoção; em outros, o fracasso ganha rosto, nome, idade, e pode passar o resto da vida pagando por uma negligência que nem sequer foi sua. Steve sabe disso. Diretor de Stanton Wood, uma instituição britânica destinada a rapazes que já consumiram quase todas as oportunidades que os adultos estavam dispostos a lhes oferecer, ele passa os dias tentando convencer os outros — talvez a si próprio — de que ainda existe alguma saída. Tim Mielants concentra “Steve” em um único dia de 1996 e muda o eixo do romance “Shy”, de Max Porter: o adolescente que protagonizava o livro continua importante, mas é o educador vivido por Cillian Murphy quem agora carrega o fardo principal. A proximidade temática com dramas institucionais do corpus, em que homens à margem dependem de lugares já eles mesmos à beira do colapso, é particularmente fecunda aqui.
Stanton Wood funciona numa espécie de emergência permanente. Os garotos berram, brigam, desafiam professores, destroem o que encontram e, passada a explosão, voltam a parecer apenas meninos. Uma equipe de televisão chega para filmar um documentário sobre a escola no mesmo dia em que Steve descobre que a instituição está praticamente condenada ao fechamento. Mielants poderia ter feito disso um convencional panfleto sobre cortes no serviço público, com burocratas maus de um lado e abnegados educadores de outro, porém escapa da armadilha ao perceber que a ruína material é somente a parte visível de um desastre que já começou dentro das pessoas. Stanton Wood está quebrada; Steve também.
Quando quem salva também precisa ser salvo
Murphy evita a composição fácil do professor iluminado que transforma delinquentes com discursos inspiradores. Seu Steve não tem resposta para quase nada, perde a paciência, esconde-se, bebe, recorre a comprimidos e às vezes parece tão necessitado de supervisão quanto os rapazes sob seus cuidados. Há uma culpa antiga, relacionada a um acidente de carro no qual morreu uma criança, que ele vem anestesiando do modo mais primitivo possível. O acerto de Mielants está em não transformar essa informação numa chave que magicamente explica o personagem. Trauma nenhum é tão organizado. Steve continua trabalhando, discutindo orçamento, apartando brigas e tentando ouvir aqueles meninos ao passo que uma parcela dele já se desligou há muito do cotidiano.
É aí que Shy ganha outra dimensão. Jay Lycurgo interpreta o jovem como uma criatura que alterna uma vivacidade quase infantil e uma violência cuja origem parece anterior a qualquer lembrança disponível. Ele anda de fones, fuma maconha, dança, provoca, tenta fazer graça; pouco depois, está ao telefone implorando para que a mãe não rompa definitivamente o contato. Sabe-se também que atacou o padrasto. Nada disso autoriza Mielants a julgá-lo, e o diretor acerta justamente por admitir que pessoas podem ser ao mesmo tempo vítimas e responsáveis por estragos terríveis. Steve enxerga isso antes dos demais porque talvez reconheça no rapaz a mesma batalha que trava em silêncio.
Cillian Murphy sem a armadura do herói
Há uma desordem formal calculada no filme. A câmera parece às vezes não saber para onde olhar, as falas atropelam-se, alguém sempre irrompe no quadro enquanto outra conversa ainda não terminou. Isso pode cansar, e Mielants exagera em alguns momentos na vontade de fazer cada minuto parecer uma nova urgência. Contudo, o artifício encontra sentido naquele espaço. A escola não dispõe do luxo da contemplação. Amanda, interpretada por Tracey Ullman, e Shola, de Simbi Ajikawo, administram crises enquanto também engolem suas próprias humilhações. Não existe intervalo seguro entre salvar um aluno de si mesmo e impedir que outro esmurre alguém.
E há Cillian Murphy. Depois de personagens cuja inteligência ou crueldade dependem de controle absoluto, o ator parece interessado em homens que perderam justamente essa capacidade. Seu rosto vai se desfazendo durante o filme sem que seja necessária qualquer cena concebida para arrancar aplausos. Ele não transforma Steve num santo, nem o protege da acusação de que talvez já devesse ter pedido ajuda há bastante tempo. Faz algo mais difícil: convence-nos de que aquele sujeito pode ser excelente no que faz e, simultaneamente, um desastre consigo mesmo.
“Steve” não acredita muito na ideia reconfortante da segunda chance, porque sabe que algumas pessoas necessitam de uma terceira, uma quarta, uma vigésima. Talvez seja essa a radicalidade escondida num filme aparentemente simples sobre uma escola problemática: ensinar, cuidar ou apenas permanecer ao lado de alguém não garante salvação alguma. Às vezes garante somente que essa pessoa atravesse mais um dia. Para os garotos de Stanton Wood — e para Steve —, já é muito.

