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Existe uma crueldade da qual histórias de superação costumam fugir: alguém pode estudar a vida inteira, renunciar ao dinheiro, ao prazer, ao conforto e às distrações, obedecer aos mestres, aperfeiçoar cada gesto e, no fim de tudo, descobrir que não nasceu para ser extraordinário. “O Discípulo” habita essa ferida. Chaitanya Tamhane acompanha Sharad Nerulkar, jovem cantor de música clássica hindustani que organiza toda a existência em torno da promessa de excelência, até que o tempo começa a formular uma pergunta que nenhuma disciplina consegue calar: e se o máximo de que ele é capaz for apenas ser razoavelmente bom? O filme, escrito, dirigido e montado por Tamhane, recebeu em Veneza os prêmios de roteiro e da crítica internacional.

Sharad não trata a música como profissão. Profissões toleram fins de semana, contas a pagar, algum pragmatismo; para ele, cantar implica uma ordem religiosa. Há um guru envelhecido, interpretado por Arun Dravid, ao qual o discípulo dedica uma devoção que ultrapassa a aula. Sharad o acompanha, o auxilia fisicamente, absorve-lhe os conselhos e continua obediente mesmo quando os resultados práticos de tanta entrega começam a rarear. A autoridade do mestre mistura-se à lembrança do pai, músico frustrado que transmitiu ao filho não apenas o amor pela tradição, mas talvez sua própria incapacidade de aceitar o anonimato.

Pairando acima dos dois está Maai, cantora lendária que nunca vemos e cuja voz chega a Sharad por antigas gravações. Sumitra Bhave confere a essa presença incorpórea uma solenidade quase sobrenatural. Nas belas sequências em que Sharad atravessa Mumbai de motocicleta durante a noite, as lições da mestra espalham-se pela cidade, pregando fome, solidão, sacrifício, honestidade interior. É sedutor. Também é perigoso. Toda doutrina que promete a perfeição mediante renúncia ilimitada acaba exigindo que alguém demonstre quanto sofrimento está disposto a suportar antes de admitir que talvez o altar estivesse vazio.

A fé artística começa a rachar

Tamhane conhece o risco de fazer um filme sobre música clássica para quem não distingue um raga de uma buzina. Em vez de oferecer uma aula, escolhe mostrar o que aquela música faz com Sharad. A câmera quase nunca corre em seu socorro. Permanece longe, imóvel, aguardando que um concerto termine, que uma nota encontre ou não o lugar devido, que o músico se confronte com o silêncio posterior. A demora é fundamental. O espectador começa a compartilhar da espera de quem passou anos imaginando que a grande revelação viria na próxima apresentação, no próximo ensinamento, depois de mais algumas horas de exercício.

Aditya Modak é decisivo porque não interpreta Sharad como um gênio incompreendido. Há nele alguma soberba, aquela arrogância defensiva tão comum em pessoas que conhecem profundamente seu campo e usam o conhecimento como substituto do talento que suspeitam não possuir. Sharad despreza músicos mais populares, desdenha carreiras comerciais e protege as gravações dos antigos como se preservasse relíquias. É fácil sentir simpatia por ele, mas é também possível perceber quanto dessa devoção serve para não encarar a possibilidade mais prosaica e terrível.

Quando disciplina não produz grandeza

Uma passagem em particular move o filme para um território desconfortável. Sharad ouve um especialista desmontar parte da mitologia construída em torno de Maai e do universo de mestres absolutos que ele venerara desde menino. É como se alguém entrasse numa igreja e não contestasse a existência de Deus, mas revelasse que os santos tinham vaidades, ressentimentos, interesses, protegidos e histórias muito mais terrenas do que os fiéis gostariam de admitir. A indignação do músico revela que sua fé sempre precisou de pureza. Arte, porém, é produzida por gente.

“O Discípulo” também deixa escapar uma boa dose de ironia ao confrontar esse universo de austeridade com programas televisivos de talentos, onde luzes, gritos e histórias emocionantes vendem em minutos aquilo que Sharad espera há décadas. Tamhane às vezes exagera nessa oposição e torna o mundo comercial fácil demais de desprezar, uma das poucas ocasiões em que o filme abandona sua ambiguidade refinada.

O tempo passa, Sharad envelhece, ensina, continua cantando, e o filme vai substituindo a pergunta sobre seu eventual sucesso por outra muito melhor: o que alguém deve fazer depois de descobrir os limites do próprio sonho? Poucos filmes tratam da mediocridade sem crueldade ou condescendência. Tamhane entende que não ser um mestre não equivale a ter desperdiçado a vida. Talvez a verdadeira maturidade de Sharad comece somente quando ele desconfia que a arte pode continuar sublime mesmo depois que deixamos de imaginar que fomos escolhidos para salvá-la.


Filme: O Discípulo
Diretor: Chaitanya Tamhane
Ano: 2020
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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