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Famílias têm uma contabilidade própria, mantida em livros invisíveis nos quais irmãos registram durante décadas quem telefonou mais, quem visitou menos, quem ficou ao lado dos pais quando adoeceram, quem saiu de casa, quem prosperou, quem recebeu privilégios, quem sacrificou a vida e, principalmente, quem acha que fez muito mais que os outros. A morte costuma exigir o fechamento dessas contas, quase sempre numa hora péssima. Em “As Três Filhas”, Azazel Jacobs encerra Katie, Christina e Rachel num pequeno apartamento de Nova York enquanto Vincent, o pai, agoniza num quarto, e deixa que o inventário sentimental comece. A proximidade com dramas familiares do corpus em que a finitude apenas desencadeia ressentimentos muito anteriores é evidente, mas Jacobs encontra uma dicção inteiramente própria.

Katie chega querendo organizar. Carrie Coon lhe empresta a eficiência agressiva de quem suspeita que, se parar de fazer alguma coisa por cinco minutos, terá de sentir. É ela quem verifica papéis, comida, regras do apartamento e tudo mais que possa ser transformado em tarefa. Christina, vivida por Elizabeth Olsen, escolhe a via oposta: respira, fala baixo, tenta contemporizar, menciona a filha e o marido que deixou temporariamente para acompanhar os últimos dias do pai. Rachel está no sofá. Fuma maconha, aposta em esportes, sai à rua para continuar fumando quando a irmã reclama e parece, aos olhos de Katie, a grande irresponsável da família.

Esse julgamento dura pouco para quem presta atenção. Rachel já morava ali. Foi ela quem viu Vincent definhar, quem aprendeu seus novos hábitos, quem administrou a lenta redução de um homem à dependência. O detalhe aparentemente ridículo de haver quase apenas maçãs na geladeira ganha uma dimensão devastadora quando se sabe que era o que o pai ainda aceitava comer. Enquanto as outras chegam para morrer junto com ele durante alguns dias, Rachel já estava vivendo aquela morte havia muito.

O luto começa antes da morte

Natasha Lyonne faz talvez o trabalho mais delicado do trio justamente porque parece estar fazendo menos. Rachel fala como quem não pretende disputar a palavra, deixa acusações passarem, refugia-se no banco diante do prédio e estabelece com a rua uma intimidade que as irmãs, visitantes em sua própria casa de infância, já perderam. Jacobs escreveu o papel pensando em Lyonne, e sua voz rouca, seu corpo largado no sofá e aquele olhar de quem enxerga a discussão antes mesmo que ela comece poderiam facilmente transformar Rachel numa caricatura de nova-iorquina maconheira. O filme escapa porque a atriz encontra debaixo da indolência uma tristeza antiga, protegida por uma resignação quase profissional.

O apartamento torna-se uma quarta personagem. Os corredores estreitos obrigam as mulheres a esbarrarem umas nas outras; a sala é pequena demais para três formas tão distintas de sofrer; o quarto de Vincent permanece quase interditado, um território onde a morte acontece enquanto as filhas discutem do lado de fora sobre o significado daquela vida. Jacobs flerta com o teatro, sem dúvida, mas a clausura não soa artificial. Quem já acompanhou uma morte doméstica sabe que, nessas horas, alguns metros quadrados conseguem se transformar num país inteiro.

E então surge o detalhe mais venenoso. Rachel não é filha biológica de Vincent. Ele se casou com sua mãe quando ela era criança e tornou-se o único pai que conheceu. A informação, trivial enquanto todos conseguem manter a civilidade, converte-se em arma quando Katie perde o controle e sugere que existe uma diferença entre elas. Não há talvez crueldade familiar mais eficiente que aquela que encontra precisamente a insegurança que o outro passou a vida escondendo.

Três irmãs, três maneiras de desabar

Elizabeth Olsen tem a ingrata função de impedir que o conflito vire uma luta de duas contra uma. Christina tenta pacificar, ensaia uma serenidade quase terapêutica, fala da família que construiu e preserva uma delicadeza que parece autêntica. Até que não consegue mais. Este é um dos movimentos mais inteligentes do roteiro: ninguém permanece confinado ao papel que desempenhava no início. Katie não é apenas autoritária; Rachel não é somente a injustiçada; Christina não nasceu para apaziguar o planeta. São três mulheres cansadas diante de uma situação que não oferece vitória.

Jacobs tem ainda a inteligência de permitir que o humor infiltre-se no velório antecipado. Funcionários de cuidados paliativos repetem fórmulas, as irmãs discutem o obituário, pequenas vulgaridades continuam acontecendo porque a morte, por mais solene que pareça nos romances, precisa coexistir com comida, cigarro, documentação, vizinhos e gente precisando ir ao banheiro. Esse rebaixamento do trágico é o que salva “As Três Filhas” do melodrama.

Carrie Coon, Elizabeth Olsen e Natasha Lyonne não competem pelo filme; cada uma ilumina a fraqueza da outra. E quando finalmente se torna impossível sustentar as velhas versões da história familiar, compreende-se que Vincent não é somente o homem que está morrendo no quarto. Ele é também o último argumento que mantinha aquelas três mulheres ligadas. A pergunta de Jacobs nunca foi se elas conseguirão despedir-se do pai. Disso a natureza cuida. O difícil é descobrir se, depois dele, ainda saberão chamar umas às outras de irmãs.


Filme: As Três Filhas
Diretor: Azazel Jacobs
Ano: 2024
Gênero: Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
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