Uma casa só é um abrigo enquanto se pode sair dela. Depois disso, portas, paredes, janelas, o sofá onde se dormiu centenas de tardes e a cozinha onde uma família celebrou aniversários tornam-se partes de outra coisa, uma prisão especialmente perversa porque conserva a aparência exata do lugar em que se costumava estar seguro. Louis Leterrier percebe esse deslocamento muito cedo em “A Última Casa” e faz dele o melhor de seu filme. Ann e Jason vivem com os filhos Graham e Ruth numa casa comum, numa rua comum, e a chuva que começa a cair pouco antes do Natal tampouco parece anunciar o fim de nada. Então a internet desaparece, os telefones calam-se, nenhuma janela abre e todas as portas estão seladas por uma força inexplicável. O mesmo acontece com os vizinhos. Não há comunicado oficial, sirenes, soldados, alienígenas descendo do céu. Há somente gente olhando pela vidraça para outras pessoas igualmente assustadas.
É nesse começo que Leterrier encontra um filme muito melhor do que aquele que decide fazer depois. O diretor, conhecido por espetáculos de movimento e excesso, precisa agora trabalhar com quatro pessoas dentro de alguns cômodos, e a restrição lhe faz bem. Matthew Robinson tira do confinamento as perguntas menos cinematográficas e, justamente por isso, mais perturbadoras. Quanto alimento existe na despensa? O que fazer quando acaba um remédio? Quanto tempo a água pode durar? E quem continua sendo pai, marido, mulher ou filho depois que desaparecem escola, trabalho, vizinhança, notícias, calendário e qualquer certeza de que ainda exista um mundo além da parede?
Jason assume a missão de resolver tudo. Wagner Moura dá a esse homem uma obstinação que começa como virtude e vai adquirindo algo de doença. Ele calcula, improvisa, desmonta a própria casa, reaproveita materiais, transforma o que era conforto em ferramenta e insiste em permanecer útil porque intui que, no instante em que parar, terá de pensar. Ann reage de outra forma. Greta Lee confere-lhe a energia menos vistosa de quem mantém a família funcionando enquanto a normalidade vai sendo triturada. Não há heroísmo tradicional em separar restos de alimento, cultivar o que ainda pode crescer e repetir rotinas para que duas crianças não percebam todos os dias que talvez tenham sido enterradas vivas. É precisamente essa banalidade que dá densidade ao primeiro segmento.
Cinco anos dentro da mesma casa
Os dias viram meses, os meses avançam até anos, e “A Última Casa” faz um salto de mais de cinco anos que muda tanto os personagens como o próprio espaço. A casa envelhece com os Delgado: paredes são arrancadas, móveis deixam de ser móveis, tubulações improvisadas percorrem os cômodos e uma abertura na chaminé passa a significar alimento, água e uma possibilidade minúscula de contato com o exterior. Leterrier tem boas ideias quando mostra essa engenharia da necessidade, porque cada objeto destruído conta duas histórias ao mesmo tempo. A família continua viva, mas a antiga vida desapareceu peça por peça.
Ruth é quem percebe primeiro que há alguma coisa errada na interpretação dos adultos sobre o fenômeno. Não porque possua poderes, mas porque crianças ainda conseguem observar sem a compulsão adulta de nomear imediatamente o que temem. Jason vê ameaça; ela enxerga comportamento. Essa diferença deveria ter sido suficiente para levar o filme até o fim. Robinson e Leterrier, porém, começam a explicar o inexplicável, e a atmosfera sufocante vai sendo substituída por uma ficção científica ecológica muito menos inquietante. As silhuetas na chuva ganham contornos, a água revela outra natureza, e aquilo que funcionava porque ninguém — dentro ou fora da casa — sabia o que estava acontecendo passa a depender de uma mitologia que não possui a mesma força.
O mistério perde força
Esse é o velho paradoxo dos monstros. Enquanto estão atrás da porta, podem ser qualquer coisa; quando entram na sala, precisam ser bons o bastante para sobreviver à luz. As criaturas de “A Última Casa” não são. Leterrier parece consciente desse risco e tenta conservá-las incompletas, mas o terceiro ato já está comprometido com respostas, efeitos visuais e uma explicação ambientalista segundo a qual aquilo que parecia uma invasão é, na verdade, uma reação de seres oceânicos muito anteriores ao homem contra a devastação do planeta. É uma ideia respeitável, talvez até interessante em outro filme, porém reduz o mistério justamente quando ele deveria chegar ao auge.
Moura sofre menos com essa virada porque Jason continua preso a seu melhor conflito: proteger pode ser também uma forma de não escutar. O homem capaz de desmontar uma casa inteira para salvar os filhos precisa admitir, afinal, que existe uma situação que não poderá vencer com ferramentas, armadilhas ou força bruta. Greta Lee acompanha-o nos momentos de maior desespero, embora Ann seja escrita com menos precisão e muitas vezes tenha de sustentar a carga emocional que o roteiro deveria ter construído.
Quando “A Última Casa” permanece fechada, é um bom filme. Quando resolve abrir as portas para explicar o mundo lá fora, torna-se menor. Isso não destrói o que veio antes. A transformação física da residência, a passagem brutal dos anos e sobretudo a família que continua sentando-se à mesa mesmo depois de já não existir mesa alguma dão ao filme uma melancolia que seus monstros nunca alcançam. Leterrier queria falar sobre o planeta e acabou sendo mais convincente quando falou de quatro pessoas. Às vezes o fim do mundo é grande demais para o cinema. Uma sala onde ninguém consegue abrir a porta já basta.

