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Há médicos que tratam doenças e há médicos que, ao menos no cinema, parecem existir para corrigir o mundo. Michiko Daimon pertence à segunda categoria. A cirurgia é apenas a arena mais visível de uma personagem que há doze anos transforma a própria excelência numa forma de insubordinação, recusando hierarquias, reverências, pequenas negociações de corredor e todas as cerimônias com que instituições costumam proteger muito mais a si mesmas que aqueles a quem deveriam servir. “Doctor X: O Filme” entende perfeitamente que seria inútil tentar reinventá-la na despedida. Naoki Tamura prefere descobrir o que existe debaixo daquela segurança quase insolente, e é aí que o longa deixa de ser somente uma versão ampliada da série para se tornar, com todos os excessos que isso implica, uma espécie de acerto de contas com Michiko. O filme encerra uma história televisiva iniciada em 2012 e recupera grande parte de seus personagens, ao mesmo tempo que introduz Shota Sometani num papel duplo fundamental para o conflito final.

Quando a encontramos, Michiko está fora do Japão, salvando a vida do presidente de um país estrangeiro como se operar um chefe de Estado fosse apenas mais uma terça-feira. Enquanto isso, o Hospital Universitário Totei experimenta sua própria revolução. Hiroto Kozu assume a direção disposto a arrancar dali tudo quanto considere improdutivo, antiquado ou dispendioso, e sua chegada traz consigo o vocabulário asséptico da administração contemporânea: eficiência, racionalização, resultados. Médicos e enfermeiros começam a ser dispensados e a medicina converte-se, muito rapidamente, numa planilha. Seu irmão gêmeo, Takato, comanda uma empresa de tecnologia médica e fornece o dinheiro que torna essa nova ordem possível. Sometani faz dos dois mais que um truque de escalação. Um encarna o poder dentro do hospital; o outro, o poder que vem do dinheiro. No meio deles, Michiko continua sendo uma inconveniência impossível de enquadrar.

Michiko diante da nova ordem

O reencontro entre ela e Hiroto começa curiosamente bem. Os dois reconhecem no outro uma competência que dispensa salamaleques, e esse breve entendimento é mais interessante que a hostilidade previsível que virá depois. Miho Nakazono sabe que Michiko nunca foi uma rebelde por esporte. Ela despreza a burocracia porque a considera uma interferência entre o médico e o paciente, e Hiroto, a princípio, parece falar a mesma língua. O problema surge quando Akira Kanbara entra em cena. A simples visão do velho mentor transforma o novo diretor, e então a história abandona aos poucos a sátira administrativa e se volta para o passado.

É a melhor decisão do filme e também aquela que mais o aproxima de um melodrama assumido. Hikaru Morimoto parte para Kure, em Hiroshima, atrás de respostas sobre Michiko, e as descobertas conduzem à juventude da cirurgiã, a Akihiko Kono e aos acontecimentos que ajudaram a produzir aquela mulher que atravessa hospitais de salto alto e jamais admite a possibilidade do fracasso. Há um perigo evidente nessa operação: explicar demais uma personagem cuja graça sempre dependeu justamente da aura de mistério. Tamura chega perto de cair na armadilha, mas Ryoko Yonekura o salva.

Yonekura compreende que Michiko não poderia subitamente ganhar longos monólogos confessionais, cair aos prantos e explicar para a plateia cada cicatriz da alma. A atriz conserva nela a economia de sempre, porém abre pequenas rachaduras no aço. Um olhar dura um pouco mais; a respiração pesa; a velha frase sobre nunca falhar começa a soar menos como arrogância e mais como uma disciplina construída para não permitir que o medo interfira no trabalho. É uma mudança discreta, e por isso mesmo eficaz. O filme deseja comover às vezes com uma insistência desnecessária, mas sua protagonista não colabora com o sentimentalismo fácil.

Quando a infalibilidade começa a rachar

A inevitável cirurgia impossível chega carregada de todas as hipérboles que uma despedida dessa natureza exige. Existe risco profissional, há a possibilidade de Michiko perder a licença e está em jogo uma operação que o próprio filme trata como uma transgressão médica extrema. Tamura faz desse trecho uma síntese de tudo quanto a franquia sempre ofereceu: salas cirúrgicas convertidas em arenas, médicos em choque, superiores incapazes de impedir a mulher que decidiram contratar e uma paciente certeza de que, quando todos os protocolos já fracassaram, resta alguém disposto a assumir a responsabilidade pelo que fizer.

“Doctor X: O Filme” certamente será mais generoso com quem acompanhou aquelas sete temporadas. Há reaparições, pequenas reverências e um evidente sentimento de reunião de família, inclusive na presença de Toshiyuki Nishida, que interpreta Shigekatsu Hiruma e para quem este foi o último filme. Para quem chega sem essa memória afetiva, alguns personagens entram e saem como convidados de uma festa da qual não se conhece o anfitrião. Ainda assim, a força de Michiko resiste ao contexto. Ryoko Yonekura transforma a despedida de uma cirurgiã infalível em algo mais interessante que a celebração de seus sucessos. Pela primeira vez, talvez se compreenda que ela nunca precisou acreditar que não falharia. Precisava apenas não aceitar o fracasso enquanto ainda houvesse alguém sobre a mesa.


Filme: Doctor X: O Filme
Diretor: Naoki Tamura
Ano: 2024
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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