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Uma fotografia prova muita coisa, mas quase nunca prova tudo. Pode mostrar um copo na mão, um sorriso fora de hora, um corpo largado num sofá, o rosto de alguém que já bebeu mais do que devia. Não mostra necessariamente o que aconteceu cinco minutos antes nem aquilo que virá depois, e é justamente nessa faixa de sombra que Wregas Bhanuteja constrói “As Fotos Vazadas”. Sur acorda depois de uma festa sem conseguir recompor direito a noite anterior e descobre que fotografias suas alcoolizada foram parar na internet. O estrago é imediato: a jovem perde a bolsa de estudos e, com ela, muito mais que dinheiro. Perde o direito à própria versão dos acontecimentos. Em sua estreia no longa-metragem, Bhanuteja transforma essa desproporção brutal entre imagem e verdade numa investigação sobre o que acontece quando uma instituição prefere uma evidência conveniente a uma pergunta inconveniente.

Sur estuda numa universidade e trabalha como web designer para um grupo de teatro, ambiente que o diretor explora com gosto porque quase tudo ali envolve representação. Personagens sobem ao palco, interpretam, constroem cenários, trocam máscaras, ao passo que fora dele adultos e estudantes também aprendem a desempenhar os papéis que melhor preservam seus interesses. A festa acontece depois de uma apresentação bem-sucedida da companhia. Sur bebe, dança e, na manhã seguinte, desperta atrasada para uma reunião decisiva sobre sua bolsa, sem saber exatamente como voltara para casa. O que para os outros é uma noite de excessos juvenis começa a assumir para ela a forma perturbadora de um buraco na memória.

Shenina Cinnamon faz muito bem o movimento de alguém que primeiro sente vergonha e, pouco a pouco, percebe que talvez esteja sentindo a emoção errada. Há uma diferença imensa entre arrepender-se do que se fez e não saber o que fizeram com você. Sur vai deixando de pedir desculpas para começar a formular perguntas, e “As Fotos Vazadas” melhora quanto mais acompanha essa mudança sem transformar a protagonista numa heroína infalível. Ela erra, desconfia das pessoas erradas, arrisca-se, invade espaços que não deveria e, sobretudo, percebe que verdade e prova não são sinônimos quando aqueles encarregados de reconhecer uma prova já escolheram a verdade que lhes convém.

Quando a vergonha vira investigação

Amin, o amigo de infância vivido por Chicco Kurniawan, trabalha numa copiadora do campus e torna-se o aliado natural dessa busca. É com sua ajuda que Sur começa a vasculhar os telefones de colegas e reconstruir os pedaços desaparecidos daquela noite. O expediente poderia lançar o filme num suspense juvenil de investigação, com pistas se encaixando até a revelação salvadora, mas Bhanuteja é mais desconfiado que isso. O que está em jogo não é somente descobrir quem fez o quê. É compreender por que uma garota precisa converter a própria intimidade numa espécie de inquérito forense para que alguém considere possível acreditar nela.

A fotocopiadora do título deixa então de ser apenas o lugar onde Amin trabalha. Cópias são imperfeitas, perdem detalhes, escurecem certas áreas e realçam outras, e o filme inteiro parece contaminado por essa ideia. Sur procura o original de uma experiência da qual possui apenas fragmentos. Fotografias, mensagens, registros digitais, lembranças truncadas e versões interessadas passam de mão em mão, e nenhuma delas sozinha basta. Bhanuteja não precisa fazer da tecnologia uma vilã; celulares e computadores são também as ferramentas pelas quais sua protagonista resiste. O problema continua sendo humano, antigo, bem anterior à internet.

Há momentos em que “As Fotos Vazadas” parece excessivamente interessado em fazer cada símbolo carregar um significado, sobretudo quando a linguagem do grupo teatral começa a invadir a investigação. A duração de 130 minutos também permite ao diretor algumas voltas que poderiam ser evitadas. Ainda assim, a morosidade não destrói a tensão porque Shenina Cinnamon sustenta a sensação de que Sur pode descobrir algo ainda pior a cada nova peça que encontra. Bhanuteja sabe que o medo mais eficaz não nasce de um perseguidor escondido no escuro, mas da possibilidade de chegar à verdade e constatar que ninguém suficientemente poderoso deseja ouvi-la.

Quando a instituição já escolheu sua verdade

Essa talvez seja a parte mais amarga do filme. Instituições gostam de procedimentos porque procedimentos lhes permitem parecer justas sem necessariamente praticar justiça. Quando Sur aparece diante daqueles que poderiam ajudá-la, sua conduta é examinada com muito mais rapidez que suas suspeitas. A fotografia da festa já produziu uma sentença; cabe a ela desmontá-la. É uma inversão cruel, e o diretor não precisa subir numa tribuna para fazê-la evidente.

“As Fotos Vazadas” chegou à estreia mundial na seção New Currents do Festival de Busan e depois conquistou doze prêmios no Festival de Cinema da Indonésia, incluindo melhor filme e direção, um reconhecimento incomum para uma estreia em longa-metragem. Mas sua força não depende do currículo. Está numa pergunta muito mais simples, e bastante mais incômoda: o que acontece quando todos viram a fotografia, mas só uma pessoa sabe que falta alguma coisa naquele retrato? Sur passa o filme procurando justamente o pedaço que ninguém quis enxergar.

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