A casa é talvez a mais eficiente das ilusões humanas. Passamos anos enchendo cômodos de móveis, fotografias, livros, eletrodomésticos e pequenas inutilidades que nos convencem de que ali dentro existe alguma espécie de proteção contra o imprevisto, até que uma porta emperra, acaba a luz ou alguém adoece e percebemos o quão frágil era aquele nosso principado. “A Última Casa” começa justamente quando Louis Leterrier resolve transformar o refúgio numa armadilha. Ann e Jason despertam para uma realidade absurda. Portas e janelas foram seladas por uma força que ninguém consegue explicar, os vizinhos enfrentam o mesmo problema e, do lado de fora, uma chuva interminável esconde vultos cuja natureza só será esclarecida muito mais tarde. Greta Lee e Wagner Moura conduzem essa família de quatro pessoas por 112 minutos de ficção científica, suspense e horror doméstico.
O melhor de “A Última Casa” acontece antes que o filme decida contar o que está acontecendo. Matthew Robinson escreve com inteligência a primeira etapa do confinamento, durante a qual o apocalipse ainda precisa dividir espaço com questões bem menos nobres. Há comida para quantos dias? O que se pode aproveitar? Como entreter duas crianças quando não existe mais internet? O que fazer com um cachorro encerrado entre quatro paredes? Leterrier entende que uma catástrofe só se torna verdadeiramente assustadora depois que começa a interferir no vulgar, e vai deteriorando o cotidiano dos Delgado devagar, fazendo desaparecer os vizinhos das janelas, diminuindo os mantimentos e impondo escolhas cada vez menos civilizadas.
A sobrevivência começa dentro das paredes
Jason tenta responder ao caos com método. Engenheiro, ele desmonta a casa para mantê-la de pé, reaproveita objetos, inventa mecanismos, encontra na chaminé a única passagem possível para o exterior e transforma o imóvel num organismo improvisado de sobrevivência. Ann cuida da comida, dos filhos e daquele pouco de normalidade que ainda pode ser preservado. O filme então dá seu salto mais ousado. Meses viram anos, e mais de cinco anos de confinamento passam pelo corpo dos personagens e pela própria residência, progressivamente saqueada por seus habitantes em nome da sobrevivência. Paredes, móveis, roupas e utensílios deixam de ser coisas e tornam-se matéria-prima.
É nesse movimento que Wagner Moura apropria-se do filme. Jason poderia facilmente virar o pai heroico de catálogo, o homem providencial que sempre sabe onde está o alicate e o que fazer diante do fim do mundo, mas Moura injeta-lhe uma inquietação crescente, uma espécie de irritação produzida por anos de responsabilidade compulsória. Há algo de bonito e terrível nesse sujeito que ama a família sobretudo tentando consertar tudo, inclusive aquilo que não admite conserto. Greta Lee trabalha num registro diferente. Sua Ann é menos expansiva, quase sempre compelida a reter o pânico para que os filhos não desmoronem, e essa oposição entre os dois atores preserva o drama familiar quando o roteiro ameaça escapar para lugares menos interessantes. Leterrier filmou praticamente toda a história dentro da mesma casa, cuja transformação física acompanha a erosão psicológica dos personagens, uma façanha cenográfica que às vezes diz mais que os diálogos.
Quando explicar passa a ser o problema
Ruth, a filha, torna-se pouco a pouco a peça estranha desse mecanismo. Enquanto os adultos só conseguem pensar na ameaça através da lógica mais antiga possível — identificar, compreender, dominar, destruir —, ela observa. É uma solução algo conveniente, mas funciona enquanto Robinson não resolve pôr todas as cartas na mesa. E aí está a grande fraqueza de “A Última Casa”. O mistério que parecia maior que os personagens vai encolhendo à medida que ganha explicações. Os vultos na chuva são criaturas ancestrais dos oceanos, habitantes da Terra muito anteriores ao homem, que reagem à degradação ambiental provocada pela humanidade. O que se anunciava como um horror acerca do desconhecido transforma-se numa parábola ecológica bastante mais comportada, na qual somos lembrados de que consumimos demais, poluímos demais e talvez tenhamos confundido domínio com propriedade.
Leterrier nunca perde completamente o controle. O terceiro ato tem água, correria, mergulhos, criaturas e uma residência convertida quase num aquário, mas o espetáculo interessa menos que a pequena guerra doméstica travada antes. O homem que dirigiu “Truque de Mestre” e “Velozes & Furiosos 10” parece mais à vontade quando não dispõe de carros voando ou exércitos digitais, mas apenas de quatro pessoas sem poder sair pela porta. “A Última Casa” teria sido um filme melhor se resistisse à tentação de explicar seu pesadelo até o fim. Ainda assim, quando Jason olha para aqueles cômodos devastados e percebe que sua engenhosidade jamais fora suficiente para salvar ninguém sozinho, Moura devolve ao enredo uma humanidade que monstros, dilúvios e parábolas quase haviam levado embora. O fim do mundo pode esperar.orta. “A Última Casa” teria sido um filme melhor se resistisse à tentação de explicar seu pesadelo até o fim. Ainda assim, quando Jason olha para aqueles cômodos devastados e percebe que sua engenhosidade jamais fora suficiente para salvar ninguém sozinho, Moura devolve ao enredo uma humanidade que monstros, dilúvios e parábolas quase haviam levado embora. O fim do mundo pode esperar.

