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Uma mulher sente as pernas cederem, os dedos deixarem de obedecer e o próprio corpo transformar-se, minuto a minuto, numa armadilha da qual não existe porta de saída. Brian Netto e Adam Schindler partem dessa agonia elementar em “Não Se Mexa”, lembrando que o confinamento no cinema nem sempre exige quatro paredes. Às vezes basta perder o domínio sobre si mesmo. Em outras, como sabem os infelizes de “O Poço”, é preciso apenas acordar no andar errado.

O cinema descobriu cedo que pouca coisa incomoda tanto quanto a impossibilidade de fugir. Alexandre Aja encerra Mélanie Laurent numa cápsula em “Oxigênio”; Albert Pintó joga uma mulher grávida dentro de um contêiner no oceano; Alfonso Cuarón dispõe de todo o espaço sideral e, paradoxalmente, não deixa Sandra Bullock ir a lugar nenhum. Muda a paisagem, não a sensação. Quanto maior parece o mundo ao redor, mais cruel se torna saber que ele está fora de alcance.

Até uma casa oferecida como recomeço pode revelar-se outra espécie de cela, como acontece em “O Que Ficou Para Trás”, e um hospital, esse lugar a que se recorre na esperança de sair inteiro, adquire em “Fratura” a geometria desagradável de um labirinto. Em histórias assim, paredes, corredores, oceano ou vazio importam menos que aquele instante preciso em que alguém compreende que escapar deixou de depender apenas de encontrar uma porta.

01

Não Se Mexa

Terror; Suspense Direção de Adam Schindler e Brian Netto

Iris já não encontra grande motivo para continuar viva desde a morte do filho, e é justamente à beira do precipício onde pretende pôr fim ao sofrimento que Richard aparece, gentil, compreensivo, dono das palavras certas para convencê-la a desistir. Kelsey Asbille e Finn Wittrock estabelecem em poucos minutos uma intimidade que os diretores Adam Schindler e Brian Netto tratam de destruir com particular crueldade. O desconhecido revela-se um predador, injeta na mulher uma substância paralisante e avisa que em pouco tempo seu corpo deixará de obedecê-la. A partir daí, pernas, braços e voz vão se apagando enquanto Iris tenta fugir por uma floresta quase deserta, escondendo-se de um homem que sabe exatamente quanto tempo ainda lhe resta. O suspense transforma a progressiva imobilidade numa contagem regressiva e faz do próprio corpo da protagonista uma prisão, justamente quando ela redescobre, da maneira mais brutal possível, o desejo de permanecer viva.

Por que assistir

O grande achado de Schindler e Netto é retirar pouco a pouco da protagonista as ferramentas usuais de qualquer filme de fuga. Kelsey Asbille precisa sustentar a tensão com movimentos mínimos, respiração e olhar, enquanto Finn Wittrock explora a cordialidade de Richard como outra forma de violência. A paralisia física acaba conferindo ao suspense uma claustrofobia especialmente perversa.

02

O Poço

Ficção Científica; Suspense Direção de Galder Gaztelu-Urrutia

Uma plataforma de comida que desce de andar em andar é uma ideia tão simples que chega a espantar ninguém ter imaginado antes uma forma tão literal de representar a desigualdade. Goreng desperta numa cela de concreto ao lado de outro homem e fica sabendo que está numa prisão vertical: os ocupantes dos níveis superiores banquetear-se-ão primeiro; os demais comerão o que sobrar. Se sobrar. Galder Gaztelu-Urrutia faz dessa arquitetura brutal uma experiência social em que solidariedade parece evidente para quem está embaixo e absolutamente dispensável quando a sorte o manda para cima. Ivan Massagué atravessa diferentes níveis e companheiros, assistindo à civilidade evaporar à medida que a fome cresce. De tempos em tempos, os internos acordam em outro andar, recurso que impede até os privilegiados de fingirem para sempre que o sofrimento alheio não lhes diz respeito. O confinamento é físico, mas a prisão verdadeiramente assustadora está numa ideia velha como a humanidade: quase todo mundo defende justiça até a hora em que precisa repartir o jantar.

Por que assistir

A grande força está numa ideia visual de compreensão imediata: quem está acima come primeiro. Galder Gaztelu-Urrutia transforma arquitetura em argumento e usa o confinamento para retirar das personagens qualquer distância confortável da desigualdade que as organiza. A violência impressiona, mas é a facilidade com que privilégios mudam convicções que permanece depois do fim.

03

Oxigênio

Ficção Científica; Thriller Direção de Alexandre Aja

Poucas coisas são mais aterradoras que acordar sem saber quem se é e descobrir logo depois que também não há ar suficiente para pensar no assunto com calma. Liz abre os olhos dentro de uma cápsula criogênica, presa por cintas e cercada por instrumentos que reconhece apenas parcialmente. Uma inteligência artificial informa que o oxigênio está acabando, mas obedece a protocolos que impedem justamente algumas das ações que poderiam salvá-la. Alexandre Aja reduz o mundo de Mélanie Laurent a centímetros de metal e transforma porcentagens numa contagem regressiva tão eficiente quanto qualquer bomba. A personagem procura pistas sobre a própria identidade, acessa registros, tenta estabelecer contato com o exterior e vai reconstruindo uma realidade que se modifica a cada descoberta. Não há por onde correr, tampouco alguém com quem dividir fisicamente o medo. O corpo inteiro torna-se a cela. E quando o filme começa a explicar por que ela está ali, a urgência de respirar já parece apenas a primeira de suas aflições.

Por que assistir

Mélanie Laurent sustenta praticamente sozinha uma narrativa que cabe dentro de uma cápsula. Alexandre Aja faz do oxigênio restante um relógio dramático e encontra variações suficientes de enquadramento e informação para que o espaço mínimo nunca pareça cinematograficamente pobre. A ficção científica funciona porque o mistério da identidade cresce junto com uma ameaça rigorosamente física.

04

Gravidade

Drama; Ficção Científica; Suspense Direção de Alfonso Cuarón

O espaço é infinito, mas Ryan Stone nunca teve tão pouco lugar para ir. Em sua primeira missão fora da Terra, a engenheira participa de uma operação comandada pelo experiente Matt Kowalski quando destroços atravessam a região em alta velocidade e pulverizam a tranquilidade científica da viagem. Separada da nave, ela começa a girar no vazio, presa apenas às reservas limitadas de oxigênio e a conhecimentos que até minutos antes pareciam suficientes. Sandra Bullock carrega boa parte da narrativa quase sozinha, enquanto Alfonso Cuarón transforma a imensidão numa cela sem paredes. Cada estação distante é uma possível salvação; cada movimento errado, uma sentença. George Clooney empresta a Kowalski a fleuma necessária para que o desespero da companheira adquira ainda mais força. Mais que uma aventura espacial, o filme é uma história sobre alguém a quem a vida já havia arrancado o desejo de permanecer nela. No espaço, ironicamente, sobreviver torna-se a única coisa que importa.

Por que assistir

Alfonso Cuarón realiza o paradoxo de transformar o espaço infinito num dos ambientes mais claustrofóbicos do cinema recente. A câmera flutua junto de Sandra Bullock, elimina referências estáveis e faz cada movimento adquirir peso dramático. O espetáculo técnico nunca encobre a dimensão íntima da história, sustentada por uma personagem que precisa redescobrir vontade de sobreviver.

05

Destinos à Deriva

Drama; Thriller Direção de Albert Pintó

Um contêiner feito para transportar mercadorias vira casa, maternidade, prisão e embarcação improvisada para Mia, jovem grávida que tenta escapar de um regime autoritário junto do marido. Os dois são separados durante a fuga, e ela acaba lançada ao mar dentro daquela caixa de metal, sem saber se alguém conhece sua localização ou mesmo se existe busca em andamento. Anna Castillo passa grande parte do filme sozinha, transformando cada objeto encontrado no interior da carga em possível instrumento de sobrevivência. Albert Pintó explora o absurdo da situação sem abandonar sua dimensão física: entra água, acaba comida, o corpo pede descanso e a gravidez avança numa circunstância em que parir já seria difícil mesmo num hospital. O oceano ao redor promete liberdade e ao mesmo tempo impede qualquer fuga. Não existem monstros, psicopatas ou demônios, apenas água demais do lado de fora e recursos de menos do lado de dentro. Algumas prisões não precisam sequer de carcereiro.

Por que assistir

Anna Castillo enfrenta o desafio de manter o espectador interessado quase sem companhia e num cenário praticamente imóvel. Albert Pintó trabalha bem a materialidade da sobrevivência: água, comida, ferimentos, ferramentas e passagem do tempo têm consequências concretas. O confinamento ganha força adicional porque, a poucos centímetros das paredes, existe um oceano inteiro que não oferece saída alguma.

06

O Que Ficou Para Trás

Drama; Terror Direção de Remi Weekes

Bol e Rial atravessaram uma guerra, o mar e uma perda sobre a qual prefeririam nunca falar, mas é na aparente segurança de uma casa inglesa que o passado resolve cobrar sua parte. Refugiados do Sudão do Sul, recebem autorização provisória para permanecer no Reino Unido e são instalados numa moradia decadente, sob a condição de seguir regras rígidas e provar que conseguem adaptar-se à nova vida. Bol abraça essa obrigação quase com fervor; Rial começa a ouvir e enxergar coisas dentro das paredes. Remi Weekes usa o terror sobrenatural para tocar numa culpa que não se resolve com documentos, móveis novos ou o esforço de imitar costumes britânicos. Sope Dirisu e Wunmi Mosaku encarnam formas opostas de sobreviver ao trauma, e a casa passa a separar os dois justamente quando deveria protegê-los. Fugir dali pode colocar em risco o asilo; ficar parece cada vez menos suportável. Fantasmas, afinal, não costumam respeitar fronteiras.

Por que assistir

Remi Weekes faz da casa assombrada uma extensão concreta do trauma, sem usar a experiência dos refugiados apenas como pano de fundo prestigioso para o horror. Sope Dirisu e Wunmi Mosaku defendem respostas opostas à culpa e ao deslocamento, enquanto paredes, corredores e ruídos tornam a tentativa de recomeçar tão ameaçadora quanto aquilo de que escaparam.

07

Fratura

Mistério; Suspense Direção de Brad Anderson

Hospitais são lugares nos quais entregamos a desconhecidos até o que temos de mais precioso, quase sempre porque não há outra escolha. Ray leva a esposa e a filha para atendimento depois de um acidente numa parada de estrada. Joanne acompanha a menina para exames, ele adormece na recepção e, quando desperta, ninguém parece saber do que está falando. Não há registro das duas, funcionários negam que tenham descido para qualquer procedimento e sua insistência passa rapidamente a ser tratada como comportamento de um homem perturbado. Sam Worthington conduz a paranoia com a exasperação adequada a alguém obrigado a provar que a própria família existe. Brad Anderson transforma corredores, elevadores, fichas médicas e respostas burocráticas em peças de uma conspiração que pode estar no hospital ou apenas na cabeça do protagonista. Quanto mais Ray procura a verdade, mais suspeito se torna. E o espectador, já preso à percepção dele, precisa decidir até onde convém confiar num homem que talvez seja a única pessoa ali dizendo a verdade.

Por que assistir

Brad Anderson sabe transformar a rotina impessoal de um hospital em matéria de paranoia. Sam Worthington conduz o espectador por uma percepção cada vez menos confiável, e burocracia, corredores e portas restritas passam a funcionar como ameaças. O mérito está em manter por bastante tempo duas explicações incompatíveis igualmente possíveis, sem abandonar a angústia do protagonista.

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