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Setenta e sete minutos bastam para que um cinegrafista aceite o emprego errado, conheça um homem que deveria ter abandonado nos primeiros dez minutos e descubra, tarde demais, que a boa educação às vezes é um instinto perigosíssimo. “Creep” termina quando alguns épicos contemporâneos ainda estariam apresentando personagens, e talvez haja nisso uma pequena lição para um cinema que passou a tratar duração como sinônimo de importância.

Não é. Há histórias que precisam de três horas e outras que começariam a murchar se ganhassem vinte minutos a mais. Alex Lehmann consegue colocar dois antigos amantes diante de tudo o que não viveram; Antoine Fuqua encerra Jake Gyllenhaal numa central telefônica e dali praticamente não sai; Patrice Laliberté transforma um encontro de sobrevivencialistas numa experiência sobre a facilidade com que homens ditos preparados perdem o controle quando acontece alguma coisa para a qual, claro, não estavam preparados. Nenhum deles necessita alongar artificialmente o caminho.

Talvez seja esse o encanto de filmes curtos quando sabem exatamente aonde querem chegar. Entram logo na parte que interessa, permitem-se uma ou outra digressão, mas não confundem solenidade com profundidade. Quando os créditos sobem, ainda sobra noite — e às vezes até disposição para um segundo filme.

01

Creep

Terror; Suspense Direção de Patrick Brice

A boa educação já colocou muita gente em situações das quais deveria ter saído correndo. Aaron, um cinegrafista à procura de trabalho, aceita passar um dia numa casa afastada gravando Josef, homem que afirma estar com uma doença terminal e deseja deixar um vídeo para o filho que ainda vai nascer. A justificativa é comovente o bastante para que certas esquisitices pareçam apenas excentricidades de alguém diante da morte. Não são. Patrick Brice, também intérprete de Aaron, deixa que Mark Duplass invada pouco a pouco o espaço do outro, primeiro com brincadeiras, depois com confidências e enfim com atitudes diante das quais nenhuma regra de civilidade deveria sobreviver. O registro de câmera encontrada torna tudo ainda mais incômodo porque Aaron insiste em filmar quando seu corpo já entendeu o perigo muito antes de sua cabeça. Em 77 minutos, a história prova que não são necessários monstros, casas assombradas ou grandes efeitos quando existe um homem sorrindo por tempo demais diante de você.

Por que assistir

Mark Duplass constrói um dos tipos mais desconcertantes do terror independente recente sem depender de maquiagem, monstros ou explicações sobrenaturais. Patrick Brice usa a câmera encontrada para eliminar a distância entre personagem e espectador, e a duração enxuta impede qualquer alívio. O desconforto cresce justamente porque quase tudo começa parecendo apenas socialmente inadequado.

02

Blue Jay

Drama; Romance Direção de Alex Lehmann

Encontrar alguém que conheceu uma versão de nós já desaparecida pode ser uma experiência mais desestabilizadora que topar com um estranho. Jim volta à cidade onde cresceu e encontra Amanda entre as gôndolas de um supermercado. Eles foram namorados quando ainda tinham pela frente todas as vidas possíveis, e agora, adultos, tentam disfarçar o espanto com conversa miúda, café e algum constrangimento. Mark Duplass e Sarah Paulson transformam esse reencontro numa dança em que nostalgia e mágoa se alternam sem aviso. Alex Lehmann filma em preto e branco, mas evita transformar o passado numa fotografia bonita demais. Enquanto os dois percorrem lugares conhecidos, recuperam piadas, músicas e gestos da adolescência, também se aproximam do acontecimento que os separou e que nenhum deles parece ter deixado verdadeiramente para trás. Os breves oitenta minutos bastam para desmanchar a fantasia confortável do “e se?”. Às vezes a vida que não tivemos parece maravilhosa justamente porque nunca precisou enfrentar uma segunda-feira.

Por que assistir

Sarah Paulson e Mark Duplass sustentam quase tudo apenas com conversa, pausas e mudanças mínimas de expressão. Alex Lehmann usa o preto e branco sem transformar nostalgia em enfeite e encontra na duração curta a medida exata para um reencontro que poderia facilmente tornar-se melodramático. É pequeno no orçamento e enorme no desconforto emocional.

03

O Declínio

Ação; Thriller Direção de Patrice Laliberté

Preparar-se para o fim do mundo pode ser uma boa maneira de antecipá-lo. Antoine acompanha vídeos sobre sobrevivência, estoca recursos e chega à propriedade isolada de Alain para participar de um treinamento intensivo ao lado de outros adeptos da chamada cultura prepper. Ali aprendem a manejar armas, produzir energia, conservar alimentos e imaginar todos os cenários em que a civilização teria desaparecido e cada um precisaria contar apenas consigo mesmo. Patrice Laliberté parece divertir-se com a segurança daquele grupo até que um acidente grave transforma teoria em realidade. A partir daí, regras de convivência, responsabilidade e simples decência passam a ser tratadas como inconvenientes por pessoas que se julgavam preparadas para tudo. Guillaume Laurin e Réal Bossé encabeçam um suspense seco, levado quase sem gordura narrativa ao longo de 83 minutos. O isolamento ajuda, as armas também, mas o ponto mais inquietante está em perceber como certos homens começam a desejar o colapso justamente porque imaginam que, depois dele, ninguém poderá lhes dizer o que fazer.

Por que assistir

Patrice Laliberté pega uma subcultura curiosa e evita transformá-la em caricatura fácil. A mudança do treinamento para a situação real é rápida e brutal, e o filme trabalha muito bem o contraste entre gente preparada tecnicamente para uma catástrofe e absolutamente despreparada para lidar com responsabilidade, medo e interesses conflitantes.

04

O Culpado

Crime; Drama; Thriller Direção de Antoine Fuqua

É curioso como uma voz ao telefone pode preencher uma sala com gente que nunca vemos. Joe Baylor, policial temporariamente afastado das ruas, atende chamadas de emergência em Los Angeles quando recebe o telefonema de uma mulher que dá sinais de ter sido sequestrada pelo ex-marido. Preso à central, ele começa a montar a história com sons, fragmentos de conversa, consultas ao sistema e chamadas para colegas que estão lá fora, onde incêndios deixam a cidade ainda mais caótica. Jake Gyllenhaal quase não precisa sair da cadeira para transformar ansiedade em ação, e Antoine Fuqua compreende que o confinamento do personagem é também moral. Joe acredita saber exatamente o que está acontecendo e passa a agir segundo essa certeza, até que novas informações tornam tudo menos simples. Em cerca de noventa minutos, o filme faz o espectador enxergar estradas, casas e pessoas que a câmera nunca mostra, ao mesmo tempo que obriga seu protagonista a encarar uma ocorrência da qual vinha tentando fugir havia muito mais tempo.

Por que assistir

Jake Gyllenhaal transforma telefone, respiração e silêncio em ação cinematográfica, e Antoine Fuqua aceita o desafio de deixar quase todo o mundo importante fora do quadro. A imaginação do espectador completa o que a câmera recusa mostrar. A economia de espaço torna cada nova informação mais poderosa e cada certeza do protagonista mais suspeita.

05

The Perfection

Drama; Terror; Suspense Direção de Richard Shepard

Nada fica muito tempo no lugar nesse suspense que começa como rivalidade entre duas violoncelistas e logo decide que uma única loucura seria pouco. Charlotte abandonara uma escola de música de prestígio para cuidar da mãe e retorna anos mais tarde encontrando Lizzie no posto de prodígio que um dia foi seu. Allison Williams e Logan Browning estabelecem uma aproximação feita de admiração, desejo e ressentimento, até que uma viagem produz sintomas grotescos e a trama muda de direção com tamanho descaramento que qualquer tentativa de classificá-la acaba parecendo inútil. Richard Shepard brinca com a percepção da audiência, revelando informações em parcelas e voltando a acontecimentos que pareciam encerrados. Debaixo da ostentação técnica da música clássica, vêm à superfície disciplina, controle, abuso e vingança, cada qual mais desagradável que o anterior. São noventa minutos de um filme disposto a trapacear o espectador e assumir a culpa sem nenhum remorso. Elegância e horror raramente dividiram a mesma estante de maneira tão desavergonhada.

Por que assistir

Richard Shepard muda as regras várias vezes e faz dessa deslealdade com o espectador parte da diversão. Allison Williams e Logan Browning atravessam romance, competição, horror corporal e vingança sem que a narrativa pare para pedir licença. A montagem é decisiva para reorganizar fatos conhecidos e transformar cenas anteriores depois que novas informações aparecem.

06

Já não me sinto em casa nesse mundo

Comédia; Crime; Drama Direção de Macon Blair

Há dias em que um pequeno desaforo parece confirmar que a civilização inteira deu errado. Ruth trabalha como auxiliar de enfermagem e está cansada da falta de consideração que encontra em toda parte. Quando sua casa é invadida e objetos pessoais são roubados, a aparente indiferença da polícia funciona como a última gota. Ela decide procurar os responsáveis por conta própria e recebe ajuda de Tony, vizinho excêntrico, solitário e entusiasmado demais com a oportunidade de enfrentar criminosos. Melanie Lynskey e Elijah Wood formam uma parceria estranha, ao mesmo tempo cômica e melancólica, num mundo em que quase ninguém parece saber como agir corretamente. Em 93 minutos, a comédia de humor negro começa como reação ao egoísmo cotidiano e incorpora crime e violência, transformando a busca por justiça numa história sobre frustração, pertencimento e os limites de pessoas comuns quando resolvem reagir. O problema é que o mundo, quando provocado, também costuma reagir.

Por que assistir

Melanie Lynskey e Elijah Wood formam uma dupla cuja inadequação é muito mais interessante que qualquer heroísmo convencional. Macon Blair começa numa irritação reconhecível com pequenas grosserias cotidianas e vai empurrando a história para o crime, o absurdo e a violência. O humor negro funciona porque ninguém ali parece realmente preparado para a aventura que escolheu viver.

07

The Fundamentals of Caring

Comédia; Drama Direção de Rob Burnett

Gente ferida reconhece gente ferida, embora quase nunca admita de imediato. Ben deixou para trás a carreira de escritor e carrega uma tragédia familiar quando começa a trabalhar como cuidador de Trevor, adolescente com distrofia muscular e uma língua suficientemente afiada para dispensar qualquer tratamento condescendente. Paul Rudd e Craig Roberts transformam provocações em cumplicidade, e Rob Burnett põe os dois na estrada numa viagem para conhecer atrações absurdas que o garoto coleciona pela televisão. Pelo caminho aparecem Dot, uma jovem que tenta chegar a Denver, e Peaches, grávida abandonada às vésperas do parto, formando uma pequena caravana de pessoas que não parecem ter muita certeza sobre onde deveriam estar. O filme sabe que histórias assim correm o risco de afundar em mensagens edificantes e foge delas sempre que consegue. Em 97 minutos, ninguém é milagrosamente curado, os mortos não voltam e limitações físicas continuam existindo. O que muda é a disposição de continuar vivendo apesar disso.

Por que assistir

Paul Rudd e Craig Roberts encontram graça numa relação que poderia facilmente cair na condescendência. Rob Burnett prefere sarcasmo a discursos inspiradores e usa a viagem de carro para aproximar personagens sem fingir que seus problemas desapareceram. O resultado tem leveza, mas não transforma doença, luto ou solidão em atalhos fáceis para comover.

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