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Um policial infiltrado dividindo confidências com o homem que precisa levar à prisão, dois vizinhos tentando encontrar algum sentido para a morte iminente, uma dramaturga que chega aos quarenta sem saber muito bem se ainda existe espaço para sua voz. Há filmes que parecem concebidos para desaparecer dentro do catálogo, soterrados por lançamentos milionários, franquias, estrelas mais barulhentas e aquela engrenagem que transforma algumas produções em fenômenos antes mesmo que se descubra se são boas. É uma pena, porque muitas vezes o cinema mais interessante está justamente alguns andares abaixo.

O streaming tornou esse paradoxo ainda mais curioso. Nunca se teve tanto à disposição e nunca foi tão fácil assistir sempre às mesmas coisas. Thomas M. Wright, Chaitanya Tamhane, Tamara Jenkins e Timo Tjahjanto não poderiam fazer filmes mais diferentes entre si, mas chegam por estradas distintas a personagens deslocados, obsessivos ou simplesmente vencidos por alguma circunstância que não sabem administrar. Em comum, há pouco além da capacidade de pegar uma situação aparentemente pequena e fazê-la crescer sem aquela afobação dos filmes que precisam demonstrar a cada cinco minutos por que custaram uma fortuna.

É nesse território meio clandestino da Netflix que ainda sobrevivem obras cuja maior surpresa não está necessariamente no que contam, mas no fato de terem permanecido tanto tempo fora do campo de visão de tanta gente.

01

O Desconhecido

Crime; Drama; Thriller Direção de Thomas M. Wright

Homens que vivem de esconder o que são acabam, mais cedo ou mais tarde, acreditando na própria mentira, e é nessa zona enevoada que Mark entra ao aproximar-se de Henry, sujeito fechado, desconfortável até quando parece tranquilo e sobre quem paira a suspeita de um crime terrível. Joel Edgerton é o policial infiltrado incumbido de ganhar a confiança desse homem, oferecendo-lhe trabalho numa organização criminosa que, na verdade, existe apenas para fazê-lo baixar a guarda. Sean Harris dá ao suspeito uma opacidade magnífica, deixando sempre a dúvida se está acuado ou apenas calculando o próximo movimento. Thomas M. Wright não tem pressa alguma e faz muito bem. Enquanto uma força-tarefa reúne evidências longe dos olhos de Henry, Mark vai comprometendo a própria estabilidade numa convivência em que cada silêncio pode esconder uma confissão. Baseado em acontecimentos reais, o suspense abre mão de perseguições espalhafatosas e põe dois homens frente a frente, cada qual esperando que o outro cometa o primeiro erro.

Por que assistir

Thomas M. Wright troca o ruído habitual dos thrillers policiais por silêncios, hesitações e uma proximidade cada vez mais incômoda. Joel Edgerton e Sean Harris fazem o suspense sobreviver quase sem gestos ostensivos, num duelo psicológico em que a ameaça está menos no que acontece diante da câmera que naquilo que ambos tentam esconder.

02

Paddleton

Comédia; Drama Direção de Alex Lehmann

Amizades verdadeiras talvez sejam aquelas em que ninguém precisa fingir que sabe o que dizer diante da morte. Michael e Andy moram no mesmo prédio, comem juntos, assistem a filmes de kung fu, inventam brincadeiras meio idiotas e construíram uma intimidade que dispensa explicações. Então Michael descobre que tem um câncer incurável e resolve morrer antes que a doença decida por ele. O pedido que faz ao amigo é simples apenas na aparência: quer que Andy o acompanhe na viagem em busca dos medicamentos que permitirão pôr fim à própria vida. Mark Duplass e Ray Romano escapam do sentimentalismo barato justamente porque seus personagens continuam sendo os mesmos sujeitos algo desajeitados de antes, até quando o fim já está sentado à mesa. Alex Lehmann sabe que grandes despedidas quase nunca acontecem como no cinema e encontra graça, desespero e ternura em homens que prefeririam discutir qualquer bobagem a admitir que um deles está prestes a desaparecer.

Por que assistir

Ray Romano encontra um registro dramático admiravelmente contido ao lado de Mark Duplass, e Alex Lehmann não transforma a amizade em chantagem emocional. A força vem justamente das conversas pequenas, do desconforto e do humor que insiste em sobreviver quando os personagens já sabem que não haverá solução capaz de agradar a ninguém.

03

Mais uma Chance

Comédia; Drama Direção de Tamara Jenkins

Há desejos que começam ocupando um cômodo da casa e terminam tomando a casa inteira. Rachel e Richard querem um filho, e o que deveria ser uma escolha íntima transforma-se numa sucessão de consultas, agulhas, exames, contas, esperanças que duram pouco e frustrações que parecem não acabar. Kathryn Hahn e Paul Giamatti fazem desse casal de intelectuais nova-iorquinos duas criaturas cada vez mais cansadas, embora incapazes de abandonar a ideia que já lhes custou tranquilidade, dinheiro e parte da própria relação. Tamara Jenkins observa a reprodução assistida sem santificar ninguém e encontra um humor particularmente amargo nos constrangimentos a que os dois se submetem. Quando Sadie, uma jovem parente que anda às turras com a própria vida, aproxima-se do casal e surge como possível doadora de óvulos, uma nova esperança também traz outras complicações. O resultado é uma crônica ferina sobre o que acontece quando um projeto de felicidade deixa de ser sonho e vira obrigação.

Por que assistir

Kathryn Hahn e Paul Giamatti tornam reconhecíveis as pequenas crueldades que o cansaço introduz num casamento. Tamara Jenkins encontra humor onde outro diretor buscaria apenas lágrimas e faz da infertilidade uma questão muito maior que a medicina, envolvendo dinheiro, intimidade, desejo, frustração e o desconforto de perceber que a felicidade também pode virar obsessão.

04

The Forty-Year-Old Version

Comédia; Drama Direção de Radha Blank

O fracasso costuma doer mais quando vem depois de alguma promessa de sucesso. Radha já foi apontada como dramaturga a ser observada, mas chega aos quarenta dando aulas para adolescentes, lutando para montar suas peças e ouvindo produtores explicar, com a delicadeza de um trator, que tipo de artista negra eles gostariam que ela fosse. Radha Blank dirige e interpreta essa versão ficcional de si mesma, transformando humilhações profissionais num relato tão engraçado quanto melancólico acerca de gente que passa tempo demais tentando caber no sonho dos outros. Quando o rap aparece como possibilidade de recuperar uma voz que o teatro institucional parece decidido a domesticar, ela inventa uma nova persona e mergulha em outro universo no qual também não se encaixa perfeitamente. O preto e branco confere algum ar clássico à confusão, mas o assunto é muito contemporâneo: sobreviver como artista quando talento, dinheiro, idade, reconhecimento e dignidade parecem querer seguir por ruas diferentes.

Por que assistir

Radha Blank sabe rir de um meio cultural que adora celebrar diversidade desde que consiga domesticá-la. O preto e branco, o hip-hop e os bastidores do teatro nova-iorquino convivem sem pose, enquanto a diretora constrói uma personagem irritada, vulnerável e engraçada demais para caber na embalagem edificante reservada a histórias de superação artística.

05

The Disciple

Drama Direção de Chaitanya Tamhane

Talento não é uma recompensa automática por esforço, e descobrir isso depois de dedicar a juventude inteira a uma arte pode ser uma forma particularmente refinada de tragédia. Sharad Nerulkar vive para o canto clássico indiano, submetendo corpo, dinheiro e afetos à disciplina ensinada por seu mestre e às gravações de uma cantora lendária cujas reflexões ele escuta como se fossem escrituras sagradas. O problema começa quando os anos avançam e a grandeza prometida continua sem aparecer. Chaitanya Tamhane acompanha esse homem sem tentar salvá-lo de si mesmo, registrando concursos, aulas, apresentações e pequenas derrotas que só parecem pequenas para quem nunca quis ser excepcional em alguma coisa. Aditya Modak encarna a obstinação de Sharad sem fazer dele um mártir, e essa é uma das delicadezas do filme. Aos poucos, tradição, vaidade e vocação confundem-se, até que resta uma pergunta desagradável: amar profundamente uma arte é suficiente quando a arte parece não amar você de volta?

Por que assistir

Chaitanya Tamhane desmonta uma fantasia muito cara ao cinema: a de que esforço e devoção inevitavelmente produzem grandeza. O ritmo paciente e a interpretação quase ascética de Aditya Modak transformam a trajetória de um músico numa reflexão incômoda sobre vocação, tradição e o momento em que persistência pode começar a se confundir com autoengano.

06

Calibre

Drama; Thriller Direção de Matt Palmer

Certas decisões levam poucos segundos e cobram a vida inteira. Vaughn e Marcus viajam para as Terras Altas da Escócia dispostos a passar um fim de semana entre amigos, bebendo, caçando e talvez recuperando alguma coisa da juventude que já começa a ficar para trás. Na mata, um disparo errado põe abaixo qualquer perspectiva de descanso, e o medo leva os dois a cometerem outro erro, depois mais um, todos aparentemente necessários para esconder o primeiro. Matt Palmer confina a dupla numa pequena comunidade em que forasteiros são percebidos de longe e uma mentira mal contada pode produzir efeitos muito mais perigosos que qualquer espingarda. Jack Lowden e Martin McCann vão deslocando a amizade para um território no qual lealdade e autopreservação já não significam a mesma coisa. O suspense cresce sem vilões convencionais, porque o verdadeiro inimigo está na certeza de que voltar atrás tornou-se impossível. Há florestas imensas em volta deles, mas nunca parece ter existido tão pouco espaço para fugir.

Por que assistir

Matt Palmer entende que culpa é matéria excelente para o suspense. A paisagem aberta das Terras Altas contrasta com a sensação crescente de aprisionamento, enquanto Jack Lowden e Martin McCann fazem uma amizade antiga apodrecer diante do espectador. O filme aperta o cerco sem precisar de truques mirabolantes e raramente oferece uma saída confortável.

07

The Night Comes for Us

Ação; Crime; Thriller Direção de Timo Tjahjanto

Homens acostumados a matar talvez só descubram que ainda guardam alguma humanidade quando recebem uma ordem que finalmente não conseguem cumprir. Ito é um executor de uma organização criminosa poderosíssima e rompe com seus superiores ao poupar uma menina durante o massacre de um vilarejo. Isso basta para que antigos companheiros convertam-se em carrascos e Jacarta vire campo de batalha. Timo Tjahjanto não economiza ossos quebrados, facas, tiros ou litros de sangue, mas seria injusto reduzir o filme à brutalidade que fez sua fama. Joe Taslim empresta ao protagonista um cansaço que torna crível sua tentativa tardia de redenção, enquanto Iko Uwais surge no outro extremo dessa engrenagem como um adversário que conhece suas fraquezas. A menina precisa sobreviver; Ito sabe que provavelmente não. Entre apartamentos destruídos, armazéns e corredores estreitos, cada confronto parece um pedaço de uma dívida vencida. Poucas histórias de ação conseguem ser tão excessivas e, ao mesmo tempo, tão simples em seu motivo fundamental.

Por que assistir

Timo Tjahjanto leva a coreografia de combate a uma violência quase absurda, mas mantém um motivo dramático simples o bastante para impedir que tudo vire apenas carnificina. Joe Taslim e Iko Uwais fazem do corpo a principal linguagem do filme, em confrontos longos, inventivos e fisicamente exaustivos que raramente aliviam a tensão.

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