Tom Farrell (Kevin Costner), oficial da Marinha dos Estados Unidos, assume um cargo no Pentágono, em Washington, durante a Guerra Fria. O trabalho o aproxima do secretário de Defesa David Brice (Gene Hackman), mas também o coloca no centro de uma investigação perigosa. Após a morte de Susan Atwell (Sean Young), amante dos dois homens, Tom recebe a missão de procurar um suposto espião soviético. O problema é que as pistas avançam na direção dele.
Lançado em 1987 e dirigido por Roger Donaldson, “Sem Saída” mistura suspense político, romance, espionagem e ação em uma história na qual o investigador também precisa fugir da investigação. O roteiro transforma salas, computadores, arquivos e corredores do Pentágono em partes fundamentais de uma perseguição sustentada por interesses particulares. Quem controla a informação possui mais poder do que quem conhece os fatos.
Um romance cercado por segredos
Tom conhece Susan durante uma recepção em Washington. A atração cresce e os dois iniciam um relacionamento marcado por encontros intensos, viagens e algumas informações cuidadosamente escondidas. Susan é espontânea, provocadora e dona de uma independência que chama a atenção do oficial. Sean Young oferece energia à personagem e impede que ela seja vista apenas como a mulher situada entre dois homens importantes.
Tom demora a descobrir que Susan também mantém um caso com David Brice. O secretário de Defesa é casado, ocupa um dos cargos mais poderosos do governo norte-americano e usa sua posição para manter a relação longe dos olhos públicos. Gene Hackman interpreta Brice com uma mistura de autoridade, ciúme e insegurança. Ele pode tomar decisões que envolvem todo o país, mas perde a serenidade quando sua vida particular ameaça escapar de seu domínio.
Ao saber do envolvimento de Susan com Brice, Tom poderia encerrar o romance. Ele prefere continuar, mesmo reconhecendo o tamanho do perigo. A escolha coloca os três personagens em uma situação delicada. Susan passa a administrar dois relacionamentos. Brice teme ser traído e exposto. Tom precisa esconder do próprio chefe que ocupa o lugar do rival que ele procura.
Uma morte dentro do poder
A morte de Susan muda o rumo da história. Brice precisa impedir que sua ligação com ela chegue à imprensa e comprometa seu cargo. Scott Pritchard (Will Patton), assessor fiel do secretário, assume a tarefa de proteger o chefe. Frio e obcecado pela reputação de Brice, ele ajuda a construir uma versão capaz de afastar as suspeitas do gabinete.
O homem que frequentava a casa de Susan passa a ser apresentado como um possível espião da KGB conhecido pelo codinome Yuri. A acusação é conveniente porque transforma um escândalo íntimo em assunto de segurança nacional. Em plena Guerra Fria, poucas palavras despertariam tanta pressa dentro do Pentágono quanto “agente soviético”. A estratégia libera funcionários, dinheiro e acesso a arquivos para localizar um suspeito cuja existência ninguém consegue comprovar.
Tom recebe a missão de comandar a procura. A ironia é excelente e cruel. Ele precisa descobrir quem provocou a morte de Susan enquanto procura a si mesmo em documentos, depoimentos e registros. Qualquer pista deixada pelo amante desconhecido poderá identificá-lo. Se abandonar o trabalho, despertará desconfiança. Se avançar demais, entregará aos superiores tudo o que eles precisam para prendê-lo.
Kevin Costner interpreta esse impasse com sobriedade. Seu Tom Farrell não possui a arrogância habitual dos heróis de ação. Ele demonstra medo, comete erros e depende do conhecimento que acumulou sobre a rotina militar. Seu uniforme abre portas, mas também o mantém cercado por pessoas autorizadas a acompanhar seus movimentos.
Uma fotografia contra o relógio
Entre os materiais recolhidos na casa de Susan está o negativo de uma fotografia Polaroid. A imagem ainda não permite reconhecer o homem retratado, por isso os técnicos iniciam um lento trabalho de recuperação no computador. Aos poucos, o rosto ficará visível. Tom sabe que aparecerá na foto e passa a contar as horas antes que sua identidade seja revelada.
Esse detalhe sustenta boa parte da tensão de “Sem Saída”. A tecnologia de 1987 exige um processamento demorado, algo que hoje seria resolvido em poucos instantes. Donaldson aproveita essa espera para estabelecer um prazo compreensível. Enquanto o computador completa a imagem, Tom procura provas que relacionem Brice a Susan e tenta descobrir quais pessoas podem ajudá-lo.
Sam Hesselman (George Dzundza), amigo de Tom e responsável por uma área de informática do Pentágono, torna-se uma peça valiosa. Ele possui acesso ao computador e pode interferir no andamento do trabalho. Tom, porém, não consegue revelar tudo o que sabe sem colocar Sam em risco. Cada pedido estranho aumenta a curiosidade do amigo e deixa o oficial mais perto de ser desmascarado.
A fotografia também resume a crueldade da situação. Susan registrou um momento particular, sem imaginar que a imagem seria tratada como prova de espionagem. Pritchard aproveita o material para sustentar a história do agente soviético. Tom precisa impedir que um retrato afetivo se transforme em sentença antes de reunir elementos contra homens protegidos pelo governo.
O investigador vira alvo
A procura se espalha pelos corredores e salas do Pentágono. Testemunhas são chamadas, funcionários consultam registros e agentes militares recebem ordens para localizar o amante de Susan. Tom acompanha tudo de dentro. Ele sabe quais informações já chegaram aos investigadores e quais ainda podem ser escondidas, mas sua margem diminui sempre que uma nova pessoa confirma algum detalhe.
As sequências de ação surgem dessa pressão. Tom atravessa áreas restritas, procura rotas alternativas e tenta permanecer alguns passos à frente dos agentes. Donaldson usa a arquitetura do prédio para criar sensação de aprisionamento. O Pentágono oferece incontáveis corredores e escritórios, porém todos dependem de autorizações, crachás e controles. Há muitas portas, mas poucas levam à liberdade.
O suspense ganha força porque Tom não procura somente uma saída física. Ele precisa encontrar uma prova capaz de enfrentar a autoridade de Brice. Conhecer a verdade tem pouco valor quando o adversário controla os arquivos, os investigadores e a versão oficial. Pritchard pode transformar dúvidas em ordens, enquanto Tom precisa trabalhar com documentos incompletos e pessoas que talvez não estejam dispostas a desafiar o secretário.
Um suspense político ainda afiado
“Sem Saída” preserva interesse por unir o drama amoroso à disputa dentro do governo. O relacionamento com Susan não aparece como enfeite antes da ação. É ele que coloca Tom no Pentágono sob suspeita e torna cada descoberta pessoalmente dolorosa. A investigação avança porque Brice deseja proteger o cargo, Pritchard quer proteger Brice e Tom precisa salvar a própria vida.
Gene Hackman faz do secretário um homem acostumado a mandar, embora pouco preparado para lidar com as consequências de seus atos. Will Patton entrega uma atuação inquietante como Pritchard, cuja devoção ultrapassa o dever profissional. Sean Young traz leveza e personalidade a Susan, enquanto Kevin Costner sustenta a ansiedade de alguém obrigado a parecer sereno diante dos homens que o caçam.
Roger Donaldson mantém o enredo compreensível mesmo com documentos, versões falsas e interesses políticos cruzados. A graça sombria está na tarefa entregue a Tom. Ele precisa localizar um homem que os investigadores não conhecem, mas que ele vê todas as manhãs diante do espelho. Enquanto o computador recupera a fotografia, seu rosto surge aos poucos e o tempo disponível dentro do Pentágono desaparece.

