A vida tem ritmo. O mundo é uma imensa pista de dança, onde milhares de sensações novas florescem todos os dias, todas em algum grau feitas da necessidade de colocar o que não serve mais no lixo, sempre atentando à música. Pensamos — uns mais, outros menos, mas todos, sem exceção — sobre se é possível voltarmos ao que fomos, se podemos ter de volta os desejos que eram nossa essência. Perdemos horas de sono, que costumam se derramar para o expediente de trabalho, elucubrando, tecendo digressões as mais loucas acerca de como teria sido nossa jornada se houvéssemos tomado essa ou aquela decisão a respeito de tal ou qual assunto, e enquanto isso o baile avança e o salão enche. Moondog não tem nenhuma dessas ridículas preocupações, contente em ser um vagabundo movido a sal e sol, a parte mais vistosa de “The Beach Bum: Levando a Vida Numa Boa”. Entretanto, quem não se precipita acaba vendo que a vida desse malandro não é um mar de rosas, e Harmony Korine saca uma a uma as explicações para essa imensa onda de mazelas.
O elogio da loucura
Viver em sociedade é uma luta entre o bem e o mal, raciocínio perigosamente maniqueísta, eivado de reducionismo e preconceitos. Mulheres e homens estão sempre envoltos em centenas de questões e milhares de problemas de que nunca se livram de todo, ou por não conseguirem ou por não quererem, e mesmo que não pareça, este é o caso de Moondog. Com jeito, Korine vai abrindo o leque das diversas faces de seu protagonista, e quase pode-se ver um sol que se põe por trás dele e prenuncia um tempo de mudanças involuntárias. Se na introdução, o casamento com Minnie, a perua milionária e ninfomaníaca de Isla Fisher, vai de vento em popa, não demora para que ele fique sem ela e tenha de provar que merece a parte na herança que ela lhe deixa. O diretor-roteirista prepara a metamorfose de Moondog equilibrando lances de humor escrachado com momentos mais cabeçudos ao longo dos quais o personagem central lembra Larry “Doc” Sportello, o escritor iconoclasta vivido por Joaquin Phoenix em “Vício Inerente” (2014), a adaptação de Paul Thomas Anderson para o romance homônimo publicado por Thomas Pynchon em 2009. O notório carisma de Matthew McConaughey, porém, confere frescor para um mote surrado, e, afinal, torcemos para que o hedonismo de Moondog não morra na praia.

