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Os anos se sucedem, a humanidade faz alguns progressos, comete outros tantos deslizes, mas uma pergunta não deixa de reverberar ao longo dos anos: até onde pode ir a insensibilidade e a insensatez humanas? O expediente de subjugar pessoas a fim de impor uma determinada moral é uma constante nas sociedades de qualquer país, a despeito da época que se deseje considerar. No mundo ideal, crianças só nasceriam depois de cumpridas algumas etapas, mas na vida como ela é, o Estado precisa intermediar equívocos e o remorso de pessoas adultas, a fim de reparar um mal maior, argumento destrinchado em “Disque Jane”. Phyllis Nagy volta à Chicago do fim dos anos 1960 para acompanhar uma dona de casa cuja gravidez coloca sua vida em risco. A partir daí, a diretora elenca um rol de circunstâncias que levam essa mulher a transformar fragilidade em força e se engajar no movimento clandestino que levou à legalização do aborto nos Estados Unidos, antes do assunto virar palanque para demagogos de todas as cores ideológicas possíveis.

Público e privado

Em agosto de 1968, Joy e seu marido, Will, preparam-se para ser pais mais uma vez. Charlotte, a filha adolescente, não dá trabalho, mas o mundo tem se mostrado um lugar caótico e hostil, balançado por reviravoltas sociais um tanto herméticas para o cotidiano da família. Hayley Schore e Roshan Sethi enchem o roteiro de menções à permanente efervescência desse tempo estranho de revoluções que incluíam só os homens e relegavam às mulheres o silêncio. Nem todas se conformaram, por óbvio. Esse é o gancho de que a diretora vale-se para chegar ao leito da narrativa. Um exame atesta que Joy desenvolveu uma insuficiência cardíaca e tem 50% de chance de morrer no parto, enfrentando uma série de desmaios e convulsões até lá. O protocolo indica a “interrupção terapêutica” da gravidez, mas a junta médica do hospital veta a cirurgia. Cautelosa, Nagy conduz o público pela jornada pessoal da protagonista, buscando atendimento junto a carniceiros em salas claustrofóbicas e encardidas, até deparar-se com o anúncio sobre uma certa Jane, não uma pessoa, mas o coletivo que oferece aborto humanizado a pacientes como Joy. Esse segmento é, claro, o coração da história, e Elizabeth Banks capta a urgência de se travar esse debate a sério.


Filme: Disque Jane
Diretor: Phyllis Nagy
Ano: 2022
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
Giancarlo Galdino

Depois de sonhos frustrados com uma carreira de correspondente de guerra à Winston Churchill e Ernest Hemingway, Giancarlo Galdino aceitou o limão da vida e por quinze anos trabalhou com o azedume da assessoria de políticos e burocratas em geral. Graduado em jornalismo e com alguns cursos de especialização em cinema na bagagem, desde 1º de junho de 2021, entretanto, consegue valer-se deste espaço para expressar seus conhecimentos sobre filmes, literatura, comportamento e, por que não?, política, tudo mediado por sua grande paixão, a filosofia, a ciência das ciências. Que Deus conserve.

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