Há cidades que crescem à custa da memória; Macondo prospera precisamente porque seus habitantes aprendem a esquecer. Na segunda parte de “Cem Anos de Solidão”, a aldeia fundada por José Arcadio Buendía já não conserva quase nada da aventura inocente dos primeiros tempos. As invenções dos ciganos perderam o espanto, as guerras converteram idealistas em carrascos e o progresso, recebido com a alegria de quem acredita enfim ter sido admitido no mundo, começa a cobrar sua parte em sangue. Laura Mora e Carlos Moreno conduzem a adaptação para o trecho mais sombrio do romance de Gabriel García Márquez, quando o realismo mágico deixa de parecer uma celebração da imaginação e assume sua verdadeira natureza, a de uma forma possível de contar horrores que a linguagem comum não suporta.
O coronel Aureliano Buendía volta da guerra sem realmente regressar a lugar algum. Claudio Cataño compreende que o homem diante de nós já não é o rapaz que fabricava peixinhos de ouro nem o comandante impetuoso que se insurgira contra os conservadores, mas um espectro encerrado na própria autoridade, incapaz de distinguir convicção de teimosia e coragem de orgulho. A assinatura do armistício deveria restituí-lo à família, porém apenas o devolve a uma solidão mais vasta, na qual os mortos, os filhos espalhados e os companheiros sacrificados pesam muito mais que qualquer derrota militar. Cataño não tenta tornar o coronel simpático. Deixa-o endurecer, diminuir por dentro, observar Macondo como se a cidade fosse mais uma frente de batalha que ele já não tem forças para defender.
Enquanto Aureliano se recolhe, outras gerações ocupam a casa dos Buendía, sempre repetindo gestos que imaginam inéditos. Aureliano Segundo e José Arcadio Segundo parecem nascer para desafiar a maldição da família, mas logo se deixam capturar por ela, cada um a sua maneira. Um entrega-se aos excessos, às mulheres e à ilusão de que a abundância pode mantê-lo a salvo do vazio; o outro aproxima-se dos manuscritos de Melquíades, das máquinas e da ideia perigosa de ligar Macondo ao resto do planeta. A ferrovia chega como uma serpente de ferro cuspindo fumaça, trazendo comerciantes, estrangeiros, divertimentos, mercadorias e a promessa de que o isolamento acabara. É nesse momento que a série realiza seu movimento mais inteligente. O milagre não é o trem existir, mas os moradores acreditarem que ele vem salvá-los.
A transformação de Macondo é conduzida sem a pressa que costuma arruinar adaptações de grandes romances. A cidade se enche, as ruas mudam, a casa de Úrsula torna-se uma espécie de organismo cansado, sempre acolhendo mais um filho, amante, forasteiro ou fantasma. Marleyda Soto sustenta essa passagem do tempo com uma atuação que prescinde de proclamações. Sua Úrsula envelhece como envelhecem certas árvores, retorcidas, quase secas, mas ainda responsáveis por impedir que o terreno inteiro desmorone. Ela sabe que os nomes repetidos não são homenagem, mas sentença; que cada Aureliano acabará buscando refúgio no pensamento e cada José Arcadio será empurrado para a carne, a violência ou a aventura. O tormento da personagem está em perceber tudo antes dos outros e, assim mesmo, não conseguir mudar nada.
Fernanda del Carpio entra nesse universo levando consigo a solenidade de um reino que nunca existiu. Sua rigidez religiosa, o culto às aparências e a obstinação em converter a casa dos Buendía numa corte decadente oferecem à narrativa um humor amargo, que logo se converte em conflito. Fernanda não é apenas a intrusa aristocrática que despreza os hábitos de Macondo; ela é outra modalidade de solidão, talvez a mais cruel, porque se alimenta da certeza de superioridade. Em torno dela, dos gêmeos e de Petra Cotes, a série encontra um ritmo doméstico que não interrompe a tragédia histórica, antes a torna mais palpável. As grandes catástrofes começam em quartos, cozinhas, camas compartilhadas sem amor, cartas escondidas e mesas nas quais ninguém escuta ninguém.
Mora e Moreno são menos felizes quando tentam reproduzir literalmente a estranheza do livro. A ascensão de Remedios, a Bela, é deslumbrante, mas seu acabamento impecável fecha aquilo que, na página, permanecia aberto ao assombro, à dúvida e até ao riso. O mesmo acontece em outras passagens nas quais a voz do narrador precisa explicar a imagem que o espectador já vê. A fidelidade, aqui, torna-se uma prisão luxuosa. A série teme afastar-se de García Márquez e, por isso, não raro comporta-se como uma edição ilustrada de sua prosa. As palavras continuam belas, as imagens são grandiosas, mas a misteriosa fusão entre o banal e o impossível às vezes se desfaz no intervalo entre uma coisa e outra.
É quando a companhia bananeira chega que essa limitação perde importância. O colorido de Macondo vai sendo contaminado por uma ordem industrial, burocrática e estrangeira que transforma moradores em mão de obra e soldados em capatazes. José Arcadio Segundo atravessa essa mudança como alguém que despertou tarde demais, porém ainda a tempo de testemunhar o modo como o poder fabrica uma verdade, elimina quem a contradiz e depois apaga até a lembrança do crime. A sequência da repressão aos trabalhadores abandona a exuberância e encontra no silêncio, nos corpos comprimidos e na espera uma força que nenhum prodígio alcançaria. O fantástico já não precisa entrar em cena. Basta que uma multidão desapareça e, na manhã seguinte, todos sejam obrigados a jurar que ela nunca existiu.
“Cem Anos de Solidão” é mais poderosa quando percebe que Macondo não está condenada por causa de uma profecia, mas porque seus moradores permitem que a História seja reescrita diante deles. Guerras mudam de nome, os mortos somem dos registros, o amor reincide nos mesmos equívocos e os sobreviventes refugiam-se numa chuva que parece não terminar. A adaptação jamais poderia substituir a experiência do romance, e talvez nem devesse ambicionar tanto. Ainda assim, ao transformar a ruína dos Buendía numa crônica da América Latina, a série encontra uma grandeza própria. Macondo não desaparece quando o vento a leva. Desaparece um pouco antes, quando já não resta ninguém disposto a recordar o que aconteceu ali.

