Na Inglaterra do século 15, o príncipe Hal (Timothée Chalamet) precisa abandonar a vida nas tavernas e assumir o trono após a morte do pai, Henrique IV (Ben Mendelsohn). O jovem herda um país dividido, cercado por rebeliões e pressionado a entrar em guerra contra a França. Dirigido por David Michôd, “O Rei” acompanha essa passagem difícil entre a liberdade da juventude e o peso da coroa, enquanto nobres experientes disputam a confiança de um monarca que ainda procura descobrir quem realmente trabalha a seu favor.
Inspirado nas peças históricas de William Shakespeare, o longa mistura figuras reais e personagens fictícios. A produção não pretende oferecer uma aula rigorosa sobre Henrique V. Seu interesse está nas relações de poder, nas manipulações do palácio e no custo humano de decisões tomadas por homens protegidos dentro de gabinetes. O resultado é um drama sóbrio, por vezes lento, que ganha força quando deixa os salões e coloca reis, cavaleiros e soldados na mesma lama.
Um príncipe que rejeita a coroa
Antes de se tornar Henrique V, Hal vive distante do pai e de suas obrigações. Ele bebe, frequenta tavernas e passa boa parte do tempo ao lado de John Falstaff (Joel Edgerton), um cavaleiro alcoólatra, experiente e dono de uma franqueza rara naquele ambiente. Falstaff conhece batalhas, mas também conhece a vaidade dos homens que mandam outros morrerem. Sua aparência descuidada esconde alguém capaz de observar uma guerra com mais sensatez do que muitos nobres bem vestidos.
Hal não abandona a corte apenas por rebeldia juvenil. Ele rejeita a forma autoritária com que Henrique IV governa a Inglaterra. O rei acumulou inimigos, reprimiu revoltas e deixou o país preso a disputas que ameaçam atravessar gerações. Ben Mendelsohn interpreta esse monarca doente e amargo sem transformá-lo numa caricatura. Sua presença é breve, porém suficiente para explicar por que o filho prefere uma caneca de cerveja a uma cadeira no conselho real.
A morte do pai obriga Hal a retornar ao lugar do qual tentou fugir. Coroado Henrique V, ele recebe um reino endividado e politicamente frágil. O novo soberano deseja encerrar antigas rivalidades, perdoar adversários e governar com menos violência. Essa postura encontra resistência entre conselheiros acostumados a enxergar autoridade apenas em ordens severas. Para eles, um rei pacífico pode parecer um rei fraco.
Timothée Chalamet sustenta bem essa transformação. Seu Henrique não entra no palácio com a confiança de um líder pronto. Ele observa, hesita e escolhe as palavras com cuidado, enquanto tenta conservar alguma independência. O famoso corte de cabelo em formato de tigela talvez não ajude na imponência, mas combina com a juventude de alguém cercado por homens mais velhos, mais experientes e muito interessados nas decisões da coroa.
A guerra nasce nos corredores
William Gascoigne (Sean Harris), chefe de Justiça e principal conselheiro do rei, ganha espaço ao apresentar informações sobre ameaças internas e possíveis agressões francesas. Henrique depende desses relatos porque ainda desconhece boa parte das relações formadas durante o reinado do pai. O problema está na origem das informações. Em uma corte onde todos possuem interesses particulares, confiar numa única pessoa pode ser tão perigoso quanto enfrentar um exército.
Uma provocação enviada pela França aumenta a pressão sobre o jovem monarca. Nobres defendem uma resposta militar, enquanto Henrique tenta avaliar se a ofensa merece o preço de uma campanha estrangeira. “O Rei” trabalha bem essa dúvida porque mostra a guerra nascendo longe dos soldados. Primeiro aparecem os cochichos, os documentos e as reuniões. Depois chegam os navios, as armaduras e os homens convocados para lutar por razões que mal conhecem.
Henrique aceita avançar contra a França, mas procura alguém em quem possa confiar durante a campanha. Falstaff retorna à vida do amigo e assume uma função militar. A escolha incomoda membros da corte, pois o velho cavaleiro não possui o comportamento esperado de um comandante real. Ele bebe, fala sem cerimônia e carrega o cansaço de quem já viu muitas batalhas. Ainda assim, conhece o terreno, o peso das armaduras e os limites físicos dos combatentes.
Joel Edgerton oferece ao personagem uma mistura agradável de melancolia e graça. Falstaff não precisa fazer discursos grandiosos para demonstrar afeto por Henrique. A intimidade surge nas conversas, nos silêncios e na liberdade de dizer ao rei aquilo que ninguém mais teria coragem de mencionar. Essa amizade oferece algum calor a uma história dominada por paredes frias, ameaças diplomáticas e homens preocupados com prestígio.
O inimigo do outro lado do canal
Na França, Henrique enfrenta a resistência do Delfim (Robert Pattinson), filho do rei Carlos VI (Thibault de Montalembert). O príncipe francês trata o adversário inglês com arrogância e transforma cada encontro numa provocação. Pattinson abraça o excesso do personagem, com sotaque carregado, gestos elegantes e um prazer quase infantil em irritar Henrique. Sua atuação destoa do tom contido dos demais, mas traz energia para uma narrativa frequentemente austera.
O Delfim representa mais do que uma rivalidade pessoal. Ele possui um exército numeroso, conhece o território e acredita que os ingleses serão derrotados antes mesmo da grande batalha. Henrique, por sua vez, precisa manter os soldados unidos durante uma marcha cansativa. A falta de recursos, o desgaste dos homens e as condições do terreno tornam qualquer erro muito caro.
David Michôd dedica atenção ao desconforto da campanha. As armaduras pesam, a chuva transforma o solo e a proximidade entre os combatentes elimina qualquer beleza associada às guerras medievais. Quando a luta começa, títulos de nobreza pouco ajudam. Reis e soldados respiram com dificuldade, escorregam e tentam permanecer de pé enquanto o campo vira uma massa de metal, lama e corpos.
A encenação apresenta a batalha sob uma perspectiva física. A câmera permanece próxima dos combatentes e restringe a visão do espectador, reproduzindo a confusão enfrentada pelos homens. A técnica tem uma função narrativa precisa. Henrique deixa de ser a figura protegida por uma coroa e passa a dividir os mesmos perigos da infantaria, colocando sua autoridade e sua sobrevivência no mesmo terreno.
Entre Shakespeare e a História
“O Rei” reúne elementos de “Henrique IV” e “Henrique V”, peças de Shakespeare baseadas em acontecimentos da monarquia inglesa. Falstaff, por exemplo, pertence ao universo criado pelo dramaturgo e não deve ser tratado como uma reprodução fiel de uma personalidade histórica. O próprio Henrique V recebeu mudanças significativas para caber na proposta do roteiro escrito por Michôd e Edgerton.
Essa liberdade permite construir um monarca mais relutante diante da guerra. O Henrique apresentado por Chalamet deseja romper com o legado violento do pai, mas acaba cercado por pessoas que usam seu posto para defender projetos próprios. A pergunta mais interessante surge dessa situação. Quanto poder possui um rei quando todas as informações chegam filtradas por conselheiros?
Lily-Rose Depp interpreta Catarina de Valois, princesa francesa cuja participação oferece outro ponto de vista sobre as decisões de Henrique. Catarina fala com firmeza e não se deixa impressionar pela posição do soberano inglês. Mesmo com pouco tempo em cena, ela interfere na maneira como o rei passa a enxergar os fatos apresentados pela corte. Sua presença reforça a ideia de que escutar pode ser mais valioso do que ordenar.
Uma coroa pesada demais
“O Rei” exige paciência. Seus diálogos são contidos, o ritmo desacelera em diversos trechos e a atmosfera permanece sombria durante quase toda a duração. A produção, porém, recompensa quem aceita essa cadência. O roteiro organiza a passagem de Hal por etapas compreensíveis, desde a recusa da vida palaciana até a responsabilidade de comandar homens em território estrangeiro.
Chalamet oferece uma interpretação sensível, apoiada menos em demonstrações grandiosas de força do que na mudança do olhar e da postura. Edgerton traz humanidade ao amigo que conhece o rapaz antes da coroação. Pattinson se diverte com a arrogância do Delfim, enquanto Sean Harris mantém Gascoigne sob uma serenidade que nunca parece inteiramente segura.
Ao acompanhar um jovem que herda guerras planejadas por outros, “O Rei” transforma uma história medieval numa observação atual sobre poder e confiança. Henrique pode ordenar uma invasão, convocar soldados e condenar inimigos, mas ainda depende de pessoas que escolhem quais fatos chegarão aos seus ouvidos. A coroa lhe oferece autoridade sobre um reino inteiro e, em troca, retira a liberdade que ele possuía numa mesa de taverna.

