“RocknRolla: A Grande Roubada”, filme de ação criminal lançado em 2008, acompanha ladrões, mafiosos e empresários que disputam dinheiro e influência numa Londres tomada pela especulação imobiliária. Dirigida por Guy Ritchie, a produção reúne Gerard Butler, Tom Wilkinson, Mark Strong, Idris Elba e Thandiwe Newton em uma trama na qual um acordo milionário sai do controle após o desaparecimento de uma pintura. O motivo de tanta confusão é simples. Todos querem lucrar, mas ninguém pretende pagar a conta.
Lenny Cole (Tom Wilkinson) é um mafioso veterano que domina boa parte dos negócios imobiliários da cidade. Ele conhece autoridades, interfere em licenças de construção e cobra caro de quem precisa retirar obstáculos burocráticos do caminho. Seu principal auxiliar é Archie (Mark Strong), homem discreto, eficiente e responsável por transformar as ordens do chefe em cobranças bastante convincentes.
O poder de Lenny entra em cena quando Uri Omovich (Karel Roden), empresário russo interessado em erguer um grande empreendimento, procura sua ajuda. Para liberar o projeto, o mafioso exige uma soma milionária. Uri aceita o acordo e empresta ao inglês uma pintura de enorme valor sentimental. O gesto deveria selar a parceria, mas a tela desaparece da parede de Lenny antes da conclusão do negócio.
Perder o quadro já seria um problema grave. Perder um objeto pertencente a um bilionário cercado por homens armados é uma modalidade bem mais delicada de azar. Lenny ordena que Archie encontre a pintura, enquanto tenta preservar diante de Uri a imagem de homem capaz de controlar cada porta, documento e autoridade de Londres.
Uma dívida reúne os pequenos ladrões
One-Two (Gerard Butler), Mumbles (Idris Elba) e Handsome Bob (Tom Hardy) formam o Wild Bunch, grupo de criminosos que vive de golpes e roubos. Eles possuem ambição, alguma habilidade e uma confiança muito maior do que os recursos disponíveis. Ao tentarem investir em um terreno, descobrem que a autorização necessária depende da influência de Lenny.
O negócio fracassa, mas a dívida permanece. One-Two e Mumbles precisam levantar dinheiro para pagar o mafioso antes que Archie apareça com métodos menos administrativos. A oportunidade surge por meio de Stella (Thandiwe Newton), contadora de Uri e dona de uma capacidade impressionante para trabalhar dos dois lados sem abandonar o salto alto.
Stella conhece os horários das transferências feitas pelo russo e oferece ao Wild Bunch informações sobre uma remessa. O grupo aceita o serviço porque precisa quitar a dívida. O assalto dá aos ladrões algum fôlego, porém também coloca Uri em alerta. O dinheiro destinado a Lenny sumiu, e o empresário começa a desconfiar das pessoas envolvidas no acordo imobiliário.
A partir desse ponto, a história acompanha várias buscas paralelas. Lenny quer recuperar a pintura e receber seu pagamento. Uri procura o dinheiro roubado e exige a devolução do quadro. Stella tenta preservar sua participação nos golpes. One-Two e seus companheiros precisam escapar dos russos sem cair novamente nas mãos de Archie.
Johnny Quid ainda dá trabalho
Outra peça importante é Johnny Quid (Toby Kebbell), roqueiro talentoso, dependente de drogas e enteado de Lenny. Ele foi dado como morto após um suposto afogamento, embora seu corpo nunca tenha aparecido. A notícia aumenta o interesse por sua música, mas deixa seus empresários, Roman (Jeremy Piven) e Mickey (Chris Bridges), diante de um problema perigoso.
Lenny acredita que os dois saibam onde Johnny está e manda Archie pressioná-los. Roman e Mickey precisam localizar o músico antes que o mafioso perca a paciência. Johnny, por sua vez, permanece escondido e guarda uma ligação decisiva com o desaparecimento da pintura.
Toby Kebbell dá ao personagem uma mistura de fragilidade, inteligência e autodestruição. Johnny parece perdido, mas conhece muito bem os homens ao redor e sabe onde ferir o padrasto. Sua presença também oferece uma camada mais amarga à história. Sob as piadas, os golpes e as ameaças, existe um jovem arruinado por drogas e por uma relação familiar marcada pelo domínio de Lenny.
O roteiro mantém essa parte da trama ligada ao restante sem revelar cedo demais todas as conexões. A pintura passa por diferentes mãos, enquanto o dinheiro de Uri vira motivo de perseguição. Cada personagem conhece apenas uma parte dos acontecimentos. Essa limitação sustenta o suspense e permite que o público acompanhe erros cometidos por pessoas que acreditam possuir mais informações do que realmente têm.
Criminosos também ficam constrangidos
Guy Ritchie combina violência e comédia por meio das relações entre os membros do Wild Bunch. One-Two tenta preservar a imagem de sujeito confiante, embora frequentemente pareça o último homem da sala a perceber o que está acontecendo. Mumbles é mais atento e costuma enxergar os riscos escondidos nos planos. Handsome Bob enfrenta uma possível prisão e decide revelar ao amigo um sentimento guardado há bastante tempo.
A conversa entre Bob e One-Two rende uma das passagens mais divertidas do filme. Acostumados a roubos, perseguições e ameaças, os dois ficam desarmados diante de uma conversa pessoal. Tom Hardy interpreta Bob com delicadeza, enquanto Gerard Butler transforma o desconforto de One-Two em graça sem ridicularizar o companheiro.
Essas cenas deixam os personagens mais humanos e impedem que o Wild Bunch vire apenas uma coleção de tipos violentos. Eles erram, sentem medo, escondem afetos e tentam manter alguma lealdade num ambiente onde quase todas as relações dependem de dinheiro. A amizade entre os três também ajuda o espectador a atravessar uma história cheia de nomes, dívidas e interesses cruzados.
Guy Ritchie retorna ao crime londrino
“RocknRolla: A Grande Roubada” retoma o universo que tornou Guy Ritchie conhecido em “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” e “Snatch: Porcos e Diamantes”. Londres aparece dividida entre velhos mafiosos e novos investidores estrangeiros. Lenny representa uma criminalidade baseada em contatos políticos, ameaças e favores. Uri chega com mais dinheiro, outros métodos e homens preparados para cobrar resultados.
A montagem alterna os diferentes grupos e revela informações aos poucos. Essa escolha mantém a curiosidade, embora o excesso de personagens exija atenção. Em alguns trechos, o roteiro parece mais interessado em exibir sua esperteza do que em facilitar a compreensão. Ainda assim, as ligações entre o roubo, a pintura, Johnny e o projeto imobiliário ficam compreensíveis à medida que cada personagem revela seus interesses.
Mark Strong oferece equilíbrio ao conjunto com um Archie contido e observador. Tom Wilkinson transforma Lenny num homem cordial apenas enquanto recebe obediência. Gerard Butler entrega a One-Two uma valentia atrapalhada que combina bem com o ritmo da história. Idris Elba e Tom Hardy aproveitam personagens menores, mas marcantes, enquanto Thandiwe Newton faz de Stella uma figura elegante e perigosa.
“RocknRolla: A Grande Roubada” proporciona uma diversão ágil, maliciosa e cheia de figuras memoráveis. O enredo exige alguma concentração, sobretudo quando a pintura e o dinheiro seguem caminhos diferentes. A recompensa está no encontro dessas linhas e na constatação de que, naquela Londres, comprar um terreno pode ser muito mais perigoso do que assaltar um carro-forte.

