O cenário artístico tem suas deformações. Na esteira dos grandes talentos que visitam a Terra uma vez a cada dez mil anos, surgem figuras cuja irrelevância acintosa revela-se um duro golpe naquela esperança diáfana, gasta de uma possível salvação do gênero humano. Comprando consciências, dilacerando sonhos no moinho dos enganos vãos que gira com a força invejável das perigosas inutilidades, a indústria cultural não se faz de rogada e tira seu naco de tudo quanto pode, até que reste apenas o osso, e uma vez mais, e outra, e de novo. O mundo do espetáculo fabrica seus mitos com o mesmo empenho de que se vale para os destruir, tendo o cuidado de antes dar-lhes a sensação de que, àquela altura, ninguém os poderá arrancar de seu pedestal. Embora quase anônimos, Mike (1951-2006) e Claire Sardina foram um clarão de lúdica inventividade no showbiz americano, e parte dessa jornada é vista em todos os seus tocantes detalhes no lindo “Song Sung Blue”. Craig Brewer compõe uma homenagem metalinguística à arte reverenciando o casal de Milwaukee que amava Neil Diamond ao passo que também esquadrinha os percalços de se ganhar a vida com o que se gosta.
Estrelas desconhecidas
Mike e Claire se conhecem num show de covers, ele de Buddy Holly (1936-1959), ela como Patsy Cline (1932-1963). Claire é cabeleireira e mãe solo de dois filhos, que parece um pouco mais resignada quanto a não conquistar a massa, desde que tenha a chance de provar das delícias do palco e entusiasmar a plateia. Certamente este é o estopim que desencadeia a profunda ligação que os dois passam a manter, até decidirem virar Relâmpago e Trovoada e se apresentar em feiras da vasta América profunda. Brewer conta com Greg Kohs para sublinhar lances curiosos da trajetória de Mike e Claire, ilustrados pelos vídeos caseiros e entrevistas outrora resgatadas por Kohs no documentário que lançara sobre a dupla. A canção levada com tristeza a que se refere o título é um método e o próprio estilo de vida dos dois, enredados em tragédias pessoais que, claro, refletem-se nas performances. Hugh Jackman e, sobretudo, Kate Hudson absorvem essa melancolia ritmada, imprimindo crueza a diálogos às vezes piegas, mas que chegam aonde devem. Números musicais como o que mostra “You Don’t Bring Me Flowers Anymore” (1978) reforçam o tom nostálgico. A balada de Diamond e Alan (1925-2025) e Marilyn Bergman (1928-2022), primeiro lugar na parada dos cem maiores sucessos da “Billboard”, na voz de Diamond e Barbra Streisand, é mais uma ótima surpresa.

