Ao contrário do que dizem, apaixonar-se é uma decisão consciente, que toma proporções cada vez menos racionais, embora o processo tenha a aura metafísica de uma liberdade incomum. Em admitindo-se a realidade por trás dos versos de Pessoa, só existe amor se houver também uma dose generosa de ridículo, de patético, daquilo tudo quanto fazemos sem nos darmos conta e que não raro atenta contra nossa própria natureza. A razão é um luxo a que não podemos nos dar — até sermos fustigados pela vergonha, uma juíza implacável, ideia que permeia “Amantes” com certa força. James Gray traduz em imagens o caótico fluxo de consciência de um homem em busca de validação, jornada que revela-se-lhe traiçoeira.
A dor da escolha
Leonard Kraditor já viveu muitas vidas numa só. Aos trinta e poucos, ele vive com os pais e dá expediente no negócio da família, uma pequena lavanderia em Brighton Beach, no Brooklyn, mas a cena de abertura deixa claro que Leonard não gosta nada, nada dessa estranha tranquilidade. Gray e o corroteirista Ric Menello são judiciosos na composição desse anti-herói sensível e dado à autopiedade, e talvez por essa razão seja capaz de cruzar com as duas mulheres que preenchem seus dias cada qual de um jeito. Como ele, Sandra é filha de comerciantes judeus educada para casar-se dentro da tradição, o que acaba sendo uma saída honrosa para seu fiasco existencial, mas Michelle, uma secretária que mantém um caso duradouro com o chefe e mora no andar de cima, bagunça os seus planos.
O feijão e o sonho
Gray devassa o espírito desse homem acossado por dúvidas e erros pelos quais não é o único responsável, mas ilumina sua fraqueza e seu pendor para a ilusão, traço de sua personalidade que o faz aproximar-se de Michelle e endeusá-la, ao passo que Sandra torna-se uma amiga com benefícios, usada para o prazer nas horas vagas. Joaquin Phoenix, Vinessa Shaw e Gwyneth Paltrow descobrem uma maneira de inspirar no público uma simpatia pelos dilemas de seus personagens, mesmo que a conclusão não tenha nada de tão inaudito. De qualquer forma, essa previsibilidade de “Amantes” cai bem.

