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A televisão descobriu cedo que o colapso de um homem pode render um bom programa, desde que ele desabe diante das câmeras e aguarde o intervalo comercial. Howard Beale, veterano apresentador do telejornal da UBS, recebe a notícia de que será dispensado por causa da audiência em queda e anuncia durante uma transmissão que pretende matar-se ao vivo. A ameaça deveria encerrar sua carreira, contudo os índices sobem, executivos farejam uma oportunidade e Beale retorna ao estúdio na condição de profeta da indignação nacional. Sidney Lumet conduz “Rede de Intrigas”, lançado em 1976 a partir do roteiro de Paddy Chayefsky, com a serenidade de quem sabe que o absurdo dispensa qualquer adorno quando uma empresa encontra uma forma de lucrar com ele. Peter Finch, Faye Dunaway, William Holden e Robert Duvall ocupam o centro dessa sátira que observa a televisão triturar jornalismo, política, revolução e sofrimento pessoal, devolvendo tudo ao público sob a forma de entretenimento.

Beale aparece de pijama e capa de chuva, encharcado, mandando os espectadores abrirem as janelas e gritarem que estão furiosos. A população obedece, não porque tenha compreendido o que o apresentador diz, e sim porque finalmente encontrou um gesto coletivo simples, barulhento e televisionável. Diana Christensen, diretora de programação interpretada por Dunaway, transforma aquela explosão num espetáculo semanal, providencia cenários de culto religioso, iluminação dramática e uma plateia adestrada para responder às invectivas do novo “profeta louco das ondas do ar”. Dunaway conserva o rosto quase imóvel enquanto fala de audiência, contratos e assassinatos como quem escolhe o cardápio do jantar. Sua Diana discute índices durante o sexo com Max Schumacher, o chefe da divisão de notícias vivido por William Holden, e converte até a intimidade numa reunião de pauta.

A loucura convertida em audiência

Lumet cerca os personagens com salas amplas, corredores assépticos e mesas que fazem homens parecerem peças substituíveis. Frank Hackett, o executivo de Robert Duvall, berra porque ainda acredita que mandar significa elevar a voz; Arthur Jensen, presidente do conglomerado vivido por Ned Beatty, prefere receber Beale numa sala de reuniões escura e explicar, sob um foco de luz, que nações, indivíduos e democracias são ficções menores diante do fluxo internacional do dinheiro. Beatty precisa de poucos minutos para transformar uma reprimenda corporativa numa revelação religiosa, e Finch responde diminuindo o corpo, como se percebesse que até sua loucura pertencia à companhia. William Holden serve de contrapeso a essas erupções. Max envelhece diante do espectador, trai a esposa, abandona princípios que repetira durante décadas e descobre que Diana não consegue viver uma experiência sem antes imaginá-la como formato televisivo.

O elenco recebeu três Oscars de interpretação, para Finch, Dunaway e Beatrice Straight, e Chayefsky venceu pelo roteiro original. Finch foi o primeiro ator premiado postumamente pela Academia; Straight conquistou a estatueta com uma participação diminuta, concentrada sobretudo na cena em que Louise Schumacher recebe do marido a notícia da separação e desmonta, palavra por palavra, qualquer romantização de sua aventura. A excelência de “Rede de Intrigas” repousa nessa capacidade de sair da caricatura para atingir pessoas específicas, com casamentos arruinados, empregos ameaçados e uma fúria que os executivos compreendem apenas como percentual.

Lumet e Chayefsky exageram até que o exagero encontre a realidade. A emissora negocia com um grupo revolucionário a produção de uma série sobre ações terroristas, advogados discutem participação nos lucros e Howard perde utilidade quando seus sermões fazem a audiência cair. O mecanismo não tem ideologia, lealdade ou memória; conserva somente a necessidade de continuar funcionando. No momento em que Beale deixa de render, a mesma estrutura que o ungiu como profeta converte sua morte em programação, e Lumet encerra a transmissão sem permitir que o espectador finja estar fora daquela plateia.


Filme: Rede de Intrigas
Diretor: Sidney Lumet
Ano: 1976
Gênero: Drama
Avaliação: 5/5 1 1
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