Em 1939, o alpinista austríaco Heinrich Harrer parte para o Himalaia em busca de prestígio, mas a Segunda Guerra muda seus planos e o leva ao Tibete, onde a amizade com o jovem Dalai Lama transforma sua relação com a família, a ambição e o poder.
Heinrich Harrer (Brad Pitt) é um alpinista reconhecido, competitivo e pouco disposto a ouvir qualquer pessoa. Quando recebe a oportunidade de escalar o Nanga Parbat, na região da Índia britânica que hoje pertence ao Paquistão, ele deixa a Áustria e embarca na expedição comandada por Peter Aufschnaiter (David Thewlis). Sua esposa, Ingrid Harrer (Ingeborga Dapkunaite), está grávida, mas nem o nascimento próximo do filho o convence a ficar.
Lançado em 1997 e dirigido por Jean-Jacques Annaud, “Sete Anos no Tibet” começa apresentando um protagonista difícil de admirar. Harrer deseja levar prestígio ao seu país, porém sua maior preocupação parece ser o próprio nome. Ele trata os companheiros com impaciência, desafia as orientações de Peter e insiste em continuar a subida mesmo quando o mau tempo torna a missão perigosa.
A montanha logo interrompe seus planos. O grupo precisa abandonar a tentativa de chegar ao cume, e o início da Segunda Guerra Mundial cria um problema ainda maior. Por serem cidadãos de um país inimigo, Harrer, Peter e os demais integrantes da expedição são presos pelas autoridades britânicas e enviados ao campo de detenção de Dehra Dun.
A guerra fecha as fronteiras
Harrer não aceita permanecer preso e tenta fugir várias vezes. Seu talento para escapar é acompanhado por uma impressionante capacidade de estragar os próprios planos. Individualista, ele demora a perceber que atravessar cercas pode ser mais fácil do que sobreviver sozinho entre guardas, montanhas e fronteiras vigiadas.
Depois de sucessivas tentativas, Harrer consegue sair do campo ao lado de Peter. Os dois seguem pelo Himalaia enfrentando frio, fome e desconfiança. Sem documentos válidos e com poucos recursos, procuram uma passagem para o Tibete, território que restringe a entrada de estrangeiros. A liberdade conquistada fora da prisão ainda está longe de significar segurança.
A relação entre os dois austríacos sustenta boa parte desse trecho. Peter é paciente, cordial e disposto a pedir ajuda. Harrer prefere agir com arrogância, mesmo quando depende da boa vontade de desconhecidos para conseguir comida. David Thewlis interpreta Peter com serenidade e oferece um contraponto importante ao exibicionismo do protagonista vivido por Brad Pitt.
Os viajantes chegam a Lhasa disfarçados e debilitados. A cidade sagrada permanece fechada a forasteiros, mas ambos recebem abrigo na casa do diplomata tibetano Kungo Tsarong (Mako). A acolhida garante roupas, alimento e algum prestígio dentro da comunidade. Pela primeira vez desde a fuga, Harrer consegue permanecer em um lugar sem precisar correr de soldados.
Uma nova vida em Lhasa
A adaptação à cidade revela diferenças cada vez maiores entre os amigos. Peter aproxima-se da alfaiate Pema Lhaki (Lhakpa Tsamchoe), apaixona-se e passa a construir uma vida afetiva no Tibete. Harrer mantém distância. Ele trabalha em levantamentos da região e procura preservar a independência que sempre usou para afastar qualquer compromisso mais profundo.
As notícias enviadas pela família, contudo, rompem essa segurança. Ingrid pede o divórcio, e Rolf, o filho que Harrer nunca conheceu, rejeita qualquer tentativa de aproximação. O alpinista que atravessou montanhas e fugiu de uma prisão descobre que não consegue entrar na vida da própria criança. Esse conflito familiar oferece a Brad Pitt suas cenas mais sensíveis, embora o sotaque carregado do ator ocasionalmente dispute atenção com o sofrimento do personagem.
A mudança decisiva acontece quando Harrer conhece o 14º Dalai Lama, interpretado por Jamyang Jamtsho Wangchuk. Ainda menino, o líder tibetano vive cercado por cerimônias, autoridades e responsabilidades incompatíveis com sua idade. Curioso, ele deseja saber mais sobre países distantes, tecnologia, esportes e hábitos ocidentais. Harrer passa a visitá-lo no Palácio de Potala e assume a função de professor.
O vínculo cresce por meio de conversas e tarefas compartilhadas. Harrer fala sobre o mundo fora do Tibete, apresenta conhecimentos de geografia e ajuda a construir uma sala de cinema. O Dalai Lama, por sua vez, oferece ao austríaco uma convivência baseada em paciência e respeito. A amizade aproxima Harrer da paternidade que ele recusou na Áustria, embora nenhum gesto no palácio possa apagar os anos de ausência.
A construção do cinema também rende uma passagem simpática. Quando os trabalhadores descobrem pequenos animais no terreno, a obra precisa parar para que eles sejam retirados com cuidado. Harrer, acostumado a tratar atrasos como afrontas pessoais, aprende que sua pressa não vale mais do que a vida protegida pelos costumes budistas. O cronograma sofre, mas sua presença em Lhasa ganha outro significado.
A política invade o cotidiano
A tranquilidade da cidade começa a desaparecer quando a China comunista manifesta a intenção de ocupar o Tibete. O governo local dispõe de poucos soldados e armamentos limitados. Ngawang Jigme (B.D. Wong), autoridade tibetana encarregada de responsabilidades militares, participa das decisões tomadas diante do avanço chinês.
A guerra, antes distante, chega às reuniões, aos mapas e às conversas dentro do palácio. Harrer acompanha a crescente preocupação dos tibetanos e tenta proteger o Dalai Lama, mas sua influência possui fronteiras. Ele pode ensinar geografia ao menino, construir um cinema e relatar costumes estrangeiros. Não pode decidir o futuro político de um país que o recebeu por tolerância.
Jean-Jacques Annaud alterna a história pessoal de Harrer com a ameaça enfrentada pelo Tibete. As longas travessias pelas montanhas dão lugar a corredores, audiências e preparativos militares. A espera ocupa espaço importante porque os habitantes sabem que o perigo se aproxima, embora tenham poucos meios para impedi-lo.
“Sete Anos no Tibet” retrata essa crise pela perspectiva de um europeu, escolha que torna o protagonista acessível ao público ocidental, mas deixa personagens tibetanos em segundo plano. O Dalai Lama recebe atenção e personalidade, enquanto outras figuras locais aparecem mais ligadas às necessidades de Harrer. Ainda assim, Jamyang Jamtsho Wangchuk transmite inteligência e vivacidade suficientes para que o jovem líder não seja apenas o professor moral de um estrangeiro.
Brad Pitt entre vaidade e culpa
Brad Pitt assume o desafio de interpretar um homem cuja beleza e habilidade não compensam a arrogância. Seu Harrer é irritante durante boa parte da história, e isso favorece a crítica. A mudança do personagem ganha valor porque surge após perdas concretas. Ele perde a expedição, a liberdade, o casamento e o reconhecimento do filho antes de aceitar que não controla todas as pessoas ao redor.
David Thewlis trabalha com menos ostentação e oferece a Peter uma humanidade acolhedora. Seu personagem pede ajuda, cria vínculos e aceita os costumes locais sem transformar cada experiência numa prova pessoal. Lhakpa Tsamchoe dá firmeza a Pema, que enxerga muito bem as diferenças entre os dois estrangeiros e faz suas escolhas sem precisar da aprovação deles.
Baseado no livro de memórias de Heinrich Harrer, “Sete Anos no Tibet” combina drama biográfico, aventura e guerra sem esconder a dimensão íntima de sua história. A escala grandiosa das paisagens contrasta com um problema bastante doméstico. Um homem viaja para conquistar uma montanha, mas passa anos tentando recuperar o lugar que abandonou na vida do filho.
Ao preservar os acontecimentos decisivos da parte derradeira, basta dizer que a aproximação das tropas chinesas obriga Harrer e o Dalai Lama a pensar no tempo que ainda possuem juntos. Um deles carrega responsabilidades com o povo tibetano. O outro precisa decidir se continuará distante da família. As portas do palácio oferecem proteção por algum tempo, mas já não conseguem manter a guerra fora de Lhasa.

