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Há quem transforme a rotina num esconderijo tão bem-arrumado que ninguém percebe a dor guardada ali. Tova Sullivan passa as noites eliminando marcas de dedos dos vidros do aquário de Sowell Bay, alinhando objetos, recolhendo restos e devolvendo alguma ordem ao pequeno mundo marinho diante dela. O marido morreu, o filho Erik desapareceu no mar quando tinha dezoito anos, e a dúvida quanto ao que realmente aconteceu naquela noite envelheceu junto com a mãe. Adaptando o romance de estreia de Shelby Van Pelt, publicado em 2022, Olivia Newman encontra em “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” uma história bastante adequada a Sally Field, atriz capaz de converter um pano de limpeza, um olhar atravessado e uma caminhada cautelosa pelos corredores escuros numa biografia inteira. Newman, que assina o roteiro com John Whittington, evita transformar Tova numa velhinha adorável fabricada para comover; ela é exigente, desconfiada, por vezes intratável, e sua independência já começa a adquirir a rigidez de quem não admite precisar de ninguém.

A única criatura diante da qual Tova abandona um pouco a vigilância é Marcellus, um polvo-gigante do Pacífico que costuma escapar do tanque para caçar petiscos e investigar os ambientes do aquário. Ela o surpreende fora d’água, enredado em fios e objetos, e desse encontro constrangedor nasce uma amizade silenciosa, sustentada pelas confissões da mulher e pelos comentários que o animal dirige apenas ao espectador. Alfred Molina empresta ao polvo uma voz grave, impaciente e discretamente vaidosa, fugindo do tom infantil que arruinaria a delicadeza da premissa. Marcellus observa os homens como uma espécie particularmente desastrada, incapaz de perceber aquilo que deixa exposto diante dos olhos, e sua inteligência serve menos como elemento fantástico que como mecanismo para movimentar uma investigação familiar. A fotografia de Ashley Connor coloca a câmera junto ao vidro e dentro do tanque, deformando rostos e luzes pelo ponto de vista do animal; o resultado preserva a estranheza física do polvo, criado com imagens reais e efeitos visuais, sem reduzi-lo a mascote de computação gráfica.

Cameron chega ao aquário

Cameron Cassmore chega a Sowell Bay dentro de uma van quase em ruínas, procurando informações sobre o pai que nunca conheceu e dinheiro para voltar à estrada. Guitarrista de uma banda punk chamada Moth Sausage, ele já passou dos trinta e continua a representar o jovem rebelde que talvez tenha sido um dia, escondendo o medo de fracassar atrás da barba incompleta, do sarcasmo e de planos que nunca chegam ao segundo movimento. Depois que Tova machuca o pé, Cameron assume parte do trabalho no aquário, limpando os vidros com a displicência exata para irritá-la. Lewis Pullman deixa o personagem tropeçar nas palavras e ocupar os espaços como alguém que sempre espera ser mandado embora, ao passo que Field endurece o maxilar, corrige seus gestos e o submete a uma disciplina doméstica que ele nunca teve. A aproximação dos dois cresce sem discursos solenes. Tova oferece trabalho, comida e censura; Cameron devolve algum movimento à casa parada desde a morte de Erik. A química entre os atores dá verdade a essa amizade desigual, construída por duas pessoas que reconhecem no outro o mesmo hábito de fugir antes que alguém possa abandoná-las.

Newman perde firmeza quando deixa o aquário e tenta povoar a cidade com pequenas histórias paralelas. Ethan Mack, o comerciante apaixonado pelo Grateful Dead vivido por Colm Meaney, acolhe Cameron e corteja Tova com uma paciência quase sacerdotal; Avery, dona de uma loja de pranchas interpretada por Sofia Black-D’Elia, entra como possível romance para o rapaz; Joan Chen, Kathy Baker e Beth Grant formam o grupo de tricô que prefere fofocar, comer bolos e discutir a vida amorosa da amiga. São atores bons demais para figuras tão esquemáticas. As cenas das Knitwits às vezes escorregam para uma comicidade televisiva, enquanto Ethan e Avery desaparecem sempre que a trama precisa voltar ao verdadeiro eixo. O próprio Marcellus fica esquecido durante parte do segundo ato, deficiência curiosa num filme cujo maior achado é justamente permitir que um polvo ranzinza compreenda os personagens antes do roteiro.

O segredo sob as luzes do tanque

O mistério envolvendo Erik e o pai de Cameron avança por fotografias antigas, lembranças interrompidas, nomes de antigos colegas e um anel de formatura cuja inscrição Marcellus percebe como decisiva. A solução é preparada com tamanho zelo que o espectador provavelmente chega a ela muito antes de Tova, e “Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” passa alguns minutos fingindo esconder uma resposta já iluminada pelo aquário inteiro. Ainda assim, a previsibilidade não destrói a emoção. Newman organiza coincidências demais e aperta com alguma força os mecanismos do melodrama, enquanto Field recusa a chantagem mais óbvia, deixando que o choque apareça primeiro no corpo, no modo como Tova perde a postura e tenta acomodar em poucos segundos aquilo que lhe fora negado durante décadas. Pullman também cresce quando Cameron deixa de representar o desajustado espirituoso e encara o ressentimento de um homem que gastou boa parte da vida procurando alguém que talvez nunca o tenha procurado.

“Criaturas Extraordinariamente Brilhantes” é um melodrama confortável, de engrenagem visível e ternura calculada, salvo da doçura excessiva pela aspereza de Tova, pela fragilidade maldisfarçada de Cameron e pelo humor seco de Marcellus. Olivia Newman conduz tudo com dignidade, ainda que raramente se arrisque para além da adaptação respeitosa de um best-seller. Sally Field é quem confere peso ao que poderia acabar como uma fantasia marítima ligeira. Na sequência em que Tova precisa decidir o destino do polvo, a atriz permanece entre o tanque e o mar carregando no rosto a culpa, a gratidão e a relutância de quem sabe que cuidar também pode significar abrir a porta. Nesse instante, sem que Marcellus precise explicar coisa alguma, o filme encontra o brilho que passou quase duas horas procurando.


Filme: Criaturas Extraordinariamente Brilhantes
Diretor: Olivia Newman
Ano: 2026
Gênero: Drama
Avaliação: 4/5 1 1
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