O trainee veio me procurar: “Oiêê!!”
No começo tratou de “amenidades”, e eu respondi com “amenidades”. Do tipo: como você começa o dia? Tem uma rotina matinal? Eu disse a ele que, antes mesmo de fazer meu café, ia pro x-videos. Que minha preferência era por lésbicas milfs trepando com ninfetas. E que daí eu batia minha punhetinha matinal, depois rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria. E, se tudo transcorresse conforme as expectativas, daria uma cagada na sequência. Depois escovaria meus dentinhos e, na hora de tomar café, era Café Seleto.
Ele queria saber como era meu “processo de escrita” e resolveu meter essa: “uma vez que você compilou notas suficientes, é difícil começar?”
Como se não bastasse, acrescentou: “como você se move na pesquisa da escrita?” Respondi que não compilava nem pesquisava porra nenhuma, imobilidade absoluta. Que tinha uma memória que era uma bosta e muito ódio no coração (que nunca foi o suficiente, claro). E que, às vezes, era preciso mais amor, altruísmo e paciência do que ódio para continuar no “ofício” — neste ponto a coisa já tinha azedado pro lado dele.
Aí tentei encerrar a entrevista dizendo que difícil mesmo “é misturar areia com cimento”. Mas o “trainee” não se tocou; ele queria saber qual a minha “ambição como escritor”, quais os meus “projetos”, qual o “lugar” do escritor em 2025 e por que escrevo. Se existe fronteira entre a ficção e a realidade. “O quanto de sua biografia tem no livro?”
Não sei onde arrumei saco, mas respondi a ele que “eu” e minha “biografia” éramos irrelevantes. Porque a realidade é irrelevante. Porque a ficção é irrelevante. E porque a única coisa que conta é a soma das irrelevâncias. O que conta é o livro. E só. O resto é jogo de cena, vaidade, sofisma, troca de interesses, sexo ruim, entrevista de merda, migalhas e mentiras. Ele insistiu:
— Qual é sua ambição?
— Queria ser lido pelo Décio Piccinini e pela audiência do Ratinho. Também quero distância do público e dos curadores da Flip, talvez mais do que eles de mim.
— Quando começou a publicar? E hoje, em 2025, qual o lugar do escritor?
— Desde a epopeia de Gilgamesh, aproximadamente dois mil e cem anos antes de Cristo, até os anos noventa do século passado, quando comecei a publicar, o escritor tinha que ter talento, sintaxe e originalidade, tudo o que os autores que você admira não têm. O que mais?
— Os autores que admiro não estão na pauta.
— Você que pensa, garoto. Eles são muito mais que pauta, são o ar que você respira.
— Não vem ao caso. E o senhor não teria como saber quais são meus preferidos.
— Opa! Sei, sim, e como sei. E outra coisa. Quando comecei, a régua era alta, não tinha moleza. O candidato a escritor que se virasse para encarar Machadão, Proust, Tolstói, Vittorini etc. etc. Muito diferente de hoje, né? Por exemplo, Krenak, que você tanto admira. Você acha que ele superou Bergson?
— Não conheço Bergson.
— Mas conhece Krenak, viu como eu sei?
— Krenak é a voz dos povos originários, mas isso foge à pergunta que fiz.
— Voz dos povos originários, aham. Sei, tô ligado.
— Quanto ao seu processo de escrita?
— Não tenho. Mas, com certeza, o pajé que citaste deve acender incensos e ter um monte de rituais para escrever as bostas que escreve.
— A entrevista é sobre sua obra.
— Minha obra é a antítese do Krenak e dos autores que você lê. Creio que é interessante estabelecer um contraponto. Até mesmo para você entender o que eu faço, já que você veio me entrevistar baseado num release.
O trainee amarrou um coque na cabeleira, consultou o celular, ajeitou-se de cócoras no puff, tudo ao mesmo tempo. E, visivelmente constrangido, tentou não dar um chilique:
— Podemos continuar, então? Poderia me falar sobre sua obra?
— Não escrevo autoajuda para vagalumes, pirilampos e seres elementais. Meus leitores têm senso crítico e não curtem ser tirados de otários, nem eles, nem eu. E meus livros podem até ser meio escrotos, cristãos e pornográficos, mas jamais serviriam de emplastro para aplacar a culpa da bendita classe média, diferentemente do Krenak e das merdas que você paga pau e que são leituras obrigatórias para lobotomizados e para mulheres cujas seivas foram abolidas pela passagem do tempo.
O garoto meio incrédulo e visivelmente constrangido desfez o coque e afundou no puff. Completei:
— Digo, mulheres na menopausa.
— Como???
— Você não sente uma catinga braba de João de Deus no Krenak?
— Acho que estamos perdendo o foco.
— Com certeza, garoto. Além de perder o foco, perdemos o faro. Uma epidemia de cegueira, culpas tiradas do cu do complexo de inferioridade e boiolagem generalizada; também faltam leitura e vergonha na cara. Você me perguntou sobre “o lugar” do escritor ontem e hoje, algo assim?
— Sim, foi o que perguntei.
— Hoje o escritor, se é que ainda sobrou algum, é obrigado a pagar pedágio ou ceder a vez a vulneráveis, analfabetos funcionais, picaretas e fodidos de toda espécie, tipo Krenak, Conceição ‘escrevivência’ Evaristo, dona Jacira, essas merdas.
— Isso não é discriminação?
— É um projeto político para eliminar a capacidade da classe média de reagir.
— O senhor não estaria sendo fascista?
— Sintaxe é fascismo? Não ser passivo é ser fascista? É crime ter sangue correndo nas veias? É permitido discordar, desconfiar e tirar uma onda? A indignação já foi tipificada no seu código penal? Tem alguma lei que obrigue o cidadão a ser feito de trouxa? Instinto de sobrevivência é fascismo? Nabokov e Lewis Carroll eram fascistas? Ou pedófilos?
Nesse momento, ele sacou o celular, abriu o Google e deve ter pesquisado: “sintaxe, Carroll, originalidade”, código penal etc., mas não dei trégua; logo voltei à carga:
— Segundo sua cartilha, garoto, e respondendo ao que você me perguntou, o escritor que enfie a sintaxe e a dicção no rabo e repare o crime histórico de usar o talento em benefício próprio, sob pena de ter seus livros apagados e sua reputação e alminha jogadas na fogueira dos hereges. Foi o que aconteceu comigo. Por que você me procurou? Tá de sacanagem?
Nesse momento, o garoto começou a gaguejar; os olhos marejaram.
— Seu projeto?
— Tá vendo este frasco?
O garoto não entendeu. Expliquei:
— Isso aqui é ácido sulfúrico. Meu projeto consistirá em jogar o conteúdo deste frasco no seu corpinho andrógeno para ver suas tatuagens de merda derreterem e, depois disso, vou dar um tiro na sua cara e explodir todas as piscinas de bolinhas coloridas e áreas kids das praças de alimentação e temakerias afins; também gostaria de voltar trinta e cinco anos no tempo e me livrar do pesadelo de ter que ser tratado como um débil mental por outro débil mental.
Aí ele desabou a chorar. Só faltou perguntar se eu andava armado. Ia responder que sim. De palavras. Infelizmente perdi a oportunidade de exercer um pouco mais da minha canastrice. Mesmo assim, resolvi completar a resposta:
— Uai? Você não queria saber por que escrevo? Já foi na Apae, garoto? Sugiro que vá até o local e pergunte por que as pessoas que lá estão internadas têm síndrome de Down.

