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De maneira geral, me dou bem com as crianças. Exceto os bebês. No caso dos bebezinhos, se eu os pego no colo, olham para mim desconfiados, fazem careta e desatam a chorar, requisitando o socorro dos pais. Não os culpo. Eu sou estranho. Pode ser que tenha espinhos no colo também. Sei lá. Deve ser uma questão de jeito, de falta de jeito, no caso. Já com os maiorzinhos, a coisa muda de figura. Na média, a gente se entende bem.

Quando estou estressado, mentalmente esgotado, costumo escutar música para me acalmar e voltar ao prumo. Música é melhor do que Rivotril. Ao menos para mim, que ainda não necessitei de um tarjinha preta. Só que, na correria cotidiana, nem sempre é possível fazer uma pausa no trabalho para me submeter ao lenitivo da boa música. Então, quando bate aquela bad, as opções são respirar fundo, aguentar o tranco e contar com a sorte de um afago impensável.

Acontece. Volta e meia, uma criança me desmonta por meio de um ato inusitado ou de um comentário divertido. Faz poucos dias, eu atendia no meu consultório. Estava com a cabeça a mil, certamente soltando fumacinha pelas orelhas. A secretária fez entrar uma mulher idosa que já seguia sob os meus cuidados fazia uns bons anos. Entrou acompanhada pela filha, também uma paciente longeva, e pelo netinho, um menininho carismático que vestia a camisa do mesmo time pelo qual eu torcia.

A família estava bem-humorada, noutra vibe, e a sua entrada quebrou um bocado do ranço que me afetava. Primeiramente, conversei com o guri, quis saber a sua idade — seis anos —, o nome da escola, das professoras, se era um bom aluno, se já estava em férias, se o nosso time subiria ou não para a primeira divisão do Campeonato Brasileiro de Futebol. Tivemos uma conexão positiva imediata, o que tornou o atendimento mais suave para mim. A cabeça parou de latejar.

Atendi a senhorinha. Anamnese. Exame físico. Tudo conforme manda o figurino. Solicitei alguns poucos exames complementares. Aliás, fica aqui um conselho: fujam de médicos que não lhes encostam as mãos ou que pedem exames em demasia. Prescrevi placebos, sempre úteis para despistar a melancolia e outras sofridas condições psicossomáticas do ser humano. Ao final da consulta, a mulher virou-se para o netinho e perguntou o que ele tinha achado do doutor. O guri fez uma ligeira pausa e disse: “Bonito.” A gargalhada foi generalizada. “Bonito”, naquele contexto, foi um adjetivo arranjado às pressas pelo garoto e, obviamente, nada tinha a ver com a minha aparência física. Ele tinha gostado da resenha. Simples assim.

Despedimo-nos. Abracei o pequeno acompanhante. Agradeci pelo elogio que, ocultamente, salvara o meu dia. Não foi música. Não foi Rivotril. Foi a palavra afável, sincera, espontaneamente verbalizada, que tinha aplacado o sofrimento de um dia difícil.

Eberth Vêncio

Eberth Franco Vêncio, médico e escritor, 60 anos. Escreve para a “Revista Bula” há 15 anos. Tem vários livros publicados, sendo o mais recente “Bipolar”, uma antologia de contos e crônicas.

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