De todas as ilusões produzidas pela altitude, a mais vulgar é a de superioridade. Visto lá de cima, o homem encolhe, as casas viram pontos, as estradas se reduzem a riscos e uma cidade inteira cabe debaixo da asa. O piloto, em compensação, pode se sentir um deus. Antoine de Saint-Exupéry fez da aviação uma literatura duradoura porque tomou o caminho menos óbvio; quanto mais subia, menos acreditava na autossuficiência de quem comandava a máquina.
É preciso esquecer por um instante os aviões contemporâneos, essas salas de espera voadoras em que o passageiro reclama da comida, fecha a persiana e atravessa um oceano assistindo a três filmes ruins. Quando Saint-Exupéry começou a trabalhar para as linhas Latécoère, em 1926, levar correspondência de Toulouse a Dacar era uma atividade na faixa intermediária entre profissão, aventura militar e tentativa de suicídio. Voava-se com instrumentos precários, mapas imperfeitos e informações meteorológicas rudimentares. Um motor engasgado, uma tempestade súbita ou um erro de orientação podia transformar o piloto em hóspede involuntário das montanhas, do mar ou do deserto. Não era um esporte. Havia sacos de cartas a entregar.
Essa diferença, que parece pequena, contém o núcleo da obra de Saint-Exupéry. Seus pilotos não arriscam a vida apenas para provar que são corajosos, contemplar paisagens magníficas ou alimentar a lenda de homens capazes de enfrentar a natureza de peito aberto; embora, naturalmente, haja um pouco disso. Ninguém escolhe aquela profissão por temperamento burocrático. Eles cumprem uma tarefa. Transportam notícias de amor, doença, nascimento e morte entre pessoas que jamais conhecerão. A grandeza não está em voar, mas em ligar pontos humanos separados por distâncias que até pouco tempo antes pareciam intransponíveis.
Os sacos de cartas não tinham vocação para símbolo
Saint-Exupéry chegou à literatura praticamente junto com a aviação. Em “O Aviador”, texto publicado em 1926, a cabine, o motor, os companheiros e a possibilidade de morrer já apareciam como elementos de um mundo profissional dotado de linguagem e moral próprias. “Correio do Sul”, seu primeiro romance, de 1929, tenta combinar a linha postal africana com a história amorosa do piloto Jacques Bernis. O resultado é desigual. O avião parece real; o amor, nem sempre. A experiência vivida tem peso, enquanto o melodrama amoroso por vezes dá a impressão de ter sido embarcado às pressas, como bagagem de última hora.

Bernis deseja uma mulher e uma casa, mas não consegue deixar de desejar também o movimento, o horizonte seguinte. O abrigo o seduz e o sufoca. Na ficção de Saint-Exupéry, os homens partem em nome do dever, da aventura ou de uma vaga necessidade espiritual, e as mulheres com frequência ficam encarregadas de representar aquilo que eles perderam ao partir. É uma divisão meio cômoda, convenhamos, e envelheceu mal. A vida do autor, com o casamento turbulento com Consuelo e uma vistosa incapacidade de conciliar fidelidade amorosa e fidelidade à própria vocação, não ajuda a disfarçar o problema.
Em Cabo Juby, no litoral do atual sul do Marrocos, Saint-Exupéry passou meses num posto isolado da linha aérea. Precisava manter o serviço em funcionamento, negociar em favor de pilotos acidentados ou capturados e conviver com a sensação de que a Europa terminava logo depois da pista.
No deserto quase tudo o que sustenta a vaidade humana desaparece. Títulos, dinheiro e opiniões políticas valem pouco quando falta água. Um homem pode se imaginar senhor de grandes propriedades ou diretor de uma companhia inteira; sob o sol, com a garganta seca, seu império não compra um gole. A paisagem vazia reduz a existência ao corpo e o corpo, por sua vez, revela aquilo que a vida confortável se esforça para esconder. Ninguém sobrevive sozinho por muito tempo.
O deserto de Saint-Exupéry não estava vazio. As rotas da aviação postal atravessavam territórios submetidos às potências europeias, populações com suas próprias histórias e conflitos, um mundo que a literatura do aviador francês nem sempre conseguia enxergar com a mesma nitidez dedicada a uma luz acesa no meio da noite. Seu humanismo era amplo, mas tinha pontos cegos. Via o homem universal com mais facilidade do que as relações políticas concretas entre certos homens e outros.
Rivière não seria o palestrante mais simpático da firma
Na América do Sul, para onde foi em 1929, Saint-Exupéry encontrou o material de “Voo Noturno”. O romance se passa durante algumas horas de uma operação postal comandada por Rivière, diretor que exige de seus pilotos uma disciplina quase militar. Um deles, Fabien, entra numa tempestade e vai ficando sem combustível, enquanto em terra sua provável morte se transforma em telegramas. O homem desaparece atrás da função, mas o leitor sabe que há uma mulher esperando por ele.
Rivière é um dos personagens mais fortes de Saint-Exupéry porque não cabe confortavelmente na categoria de herói ou tirano. Ele sabe que a aviação noturna só avançará se alguém aceitar riscos que, vistos da sala de jantar, parecem intoleráveis. Também sabe, ou prefere não saber demais, que a obra coletiva de amanhã é construída com corpos de hoje. Sua dureza tem grandeza e alguma monstruosidade.
“Voo Noturno” é um romance mais inteligente do que as lições de liderança empresarial que um leitor apressado poderia extrair dele. Não ensina que o chefe deve ser firme, que a equipe precisa sair da zona de conforto e outras maravilhas próprias de palestra. Expõe uma pergunta desagradável. Quanto da vida de um indivíduo pode ser legitimamente sacrificado em nome de uma realização que o ultrapassa? Saint-Exupéry admira Rivière, mas o livro deixa na pista o cadáver moral dessa admiração.
A ética do autor tem esse lado severo. O homem só se realiza ao servir a algo maior do que ele, mas quem decide o que é esse algo? Uma linha postal? Uma pátria? Uma civilização? A vontade do chefe? Em “Cidadela”, obra póstuma e inacabada, tal inclinação chegaria perto de uma filosofia da autoridade. É um Saint-Exupéry bem menos simpático que o senhor de cabelos revoltos acompanhado por seu principezinho, mas igualmente verdadeiro.
Seu grande livro sobre a aviação é “Terra dos Homens”, de 1939, obra difícil de classificar que mistura memória, reportagem, ensaio e meditação moral. Não é romance, embora use recursos romanescos; não é autobiografia, porque a vida entra apenas quando serve a uma investigação mais ampla.
Ali aparece Henri Guillaumet, piloto que caiu nos Andes e caminhou durante dias em meio à neve, numa região em que todos o julgavam morto. O extraordinário de sua resistência não está no culto esportivo ao corpo que supera os próprios limites. Guillaumet continua porque sabe que há pessoas esperando e porque desistir significaria impor aos companheiros uma busca interminável, além de deixar a família desamparada. A vontade individual é alimentada pelo vínculo. Ele não sobrevive apesar dos outros, mas por causa deles.
É uma ideia simples. Nas mãos erradas, daria uma dessas mensagens acompanhadas por fotografia de pôr do sol que circulam nos grupos familiares. Em Saint-Exupéry funciona porque antes da ideia há um homem enterrando o rosto na neve, levantando outra vez, calculando cada passo e descobrindo no próprio corpo regiões de sofrimento que desconhecia.
O melhor de sua prosa nasce assim. Começa na matéria e só depois se arrisca a subir. Saint-Exupéry tinha ideias nobres, o que nem sempre é uma vantagem para um escritor. Ideias nobres são traiçoeiras porque parecem dispensar prova.
Em dezembro de 1935, durante uma tentativa de bater o recorde de voo entre Paris e Saigon, ele caiu no deserto da Líbia com o navegador André Prévot. Os dois sobreviveram por dias com uma quantidade mínima de líquido, sofreram alucinações e só escaparam porque foram encontrados. O episódio ocupa lugar central em “Terra dos Homens” e seria transformado, anos depois, no ponto de partida de “O Pequeno Príncipe”.
O expediente recebe um menino de cabelo amarelo
É fácil enxergar o menino que pede o desenho de um carneiro como uma aparição mágica destinada a salvar o piloto adulto de sua aridez. Talvez seja isso também. O que a obra anterior de Saint-Exupéry mostra, porém, é que o deserto já estava cheio de gente antes da chegada do pequeno príncipe — pilotos desaparecidos, companheiros em busca uns dos outros, homens com sede. O menino não inventa a fraternidade do autor. Dá a ela um rosto, uma voz e um desconcertante cabelo amarelo.
Também não é por acaso que o adulto mais poupado da sátira em “O Pequeno Príncipe” seja o acendedor de lampiões. Ao contrário do rei, ele cumpre uma tarefa que não diz respeito apenas a si. A ordem se tornou absurda porque o planeta gira depressa demais, mas o gesto de acender e apagar continua carregando uma sombra de dignidade. É um primo modesto dos pilotos da Aéropostale, alguém preso ao dever, talvez de forma tola, mas ainda ligado ao mundo por aquilo que faz.
Vista do avião, a Terra de Saint-Exupéry perde boa parte das divisões que os homens consideram naturais. As fronteiras não aparecem no solo. Uma aldeia no escuro se resume a algumas luzes. Uma casa isolada ganha importância desproporcional porque prova que existe alguém ali, vivendo uma história de que o piloto nada sabe. A altitude reduz o homem fisicamente e o engrandece como presença.
Há uma beleza evidente nessa visão, além de uma dose de ingenuidade. Do alto, fronteiras e conflitos podem parecer pequenos porque seus mortos não são visíveis. A perspectiva planetária aproxima; também apaga detalhes. Saint-Exupéry precisava pousar para que seu humanismo não se dissolvesse em paisagem.
Foi isso que fez em suas melhores páginas. Pousou. Sua literatura não tem a variedade humana dos grandes romancistas nem a ousadia formal dos grandes revolucionários da linguagem. Tem outra coisa, mais rara. A capacidade de pegar uma experiência especializada, vivida por um punhado de homens metidos em jaquetas de couro dentro de máquinas frágeis, e torná-la compreensível a quem jamais pilotou nada além de um carrinho de supermercado.
Saint-Exupéry ficou universal não porque abandonou o mundo concreto em busca de uma sabedoria aérea. Ficou universal quando percebeu que, acima das nuvens, o piloto continuava preso à Terra por fios invisíveis — o rádio, a correspondência, a memória, a mulher que esperava, o companheiro que partiria à sua procura.

