— Odisseu?! Odisseu?! Acorda, Odisseu?!
E outro chacoalhão.
— Odisseu???
Olhos se abrindo lentamente, vozes começando a ficar mais nítidas. Quando os sons ganham forma, a luz incomoda. A cabeça parece ter sido atravessada por uma bateria de escola de samba.
— Ô, Dirceu! Acorda, Dirceu! Quase três da tarde!
— Três horas… Três horas? Que dia é hoje?
— Quarta.
Sábado, 7h30. Dirceu despertou sem a estridência do alarme do celular, abraçou Ana Paula. Ainda havia no corpo dela as marcas do frenesi da noite anterior, quando a paixão, depois de muito tempo adormecida, resolveu visitar novamente o quarto do casal.
— Vou buscar pão para o café — sentenciou, já vestindo a calça jeans largada aos pés da cama.
Partiu Dirceu em busca de três pães franceses. Levava uma nota de cinquenta reais, calçava um par de havaianas puídas. Antes de fechar a porta, ainda ouviu:
— Traz leite também.
Era sábado de carnaval e a padaria ficava a menos de 200 metros do apartamento, na Tijuca.
Era sábado de carnaval e as ruas tinham confetes e pessoas amontoadas, algumas cansadas porque pulavam desde ontem, outras ainda animadas porque pulariam até quarta. Fantasias. Sonhos. Desejos.
O amálgama do bloco que voltava para casa com o bloco que já saía de casa para mais um round.
Antes de dobrar a esquina, Dirceu encontrou cinco sereias. Nem oito da manhã e elas tocavam pagode na calçada. No meio da roda, um balde de gelo cheio de garrafas de cerveja. Ninguém podia passar por ali sem tomar uma, era a regra.
Dirceu olhou para o relógio.
— É carnaval, que mal faz só uma?
Eram persuasivas, quase sedutoras, as moças. No terceiro copo, Dirceu já discutia com elas se Zeca Pagodinho era maior do que Paulinho da Viola, se o Martinho da Vila conhecia mesmo todos os tipos de mulheres que ele cantava e se ainda havia alguém capaz de fazer um bom samba-enredo como antigamente.
Quase meio-dia, retomou a caminhada. Tinha uma vaga lembrança de que precisava fazer algo, comprar alguma coisa. Padaria ou supermercado? Pão? Leite? Talvez açúcar. Ou quem sabe a Ana Paula tinha pedido era mais um fardinho de Brahma.
A memória já se transformava em uma caixa capaz de produzir ecos. Foi quando um obstáculo humano surgiu à frente, em plena Praça Saens Peña. Um sujeito enorme, segurança de camarote improvisado, caolho. Caolho ou fantasia, vai saber. Seu tapa-olho era desses de quem se veste como pirata na folia. Barrou-lhe a passagem.
— Sem pulseirinha, não entra.
Não teve acordo. Dirceu lembrou-se até da Constituição em sua argumentação. O ciclope era irredutível. A única alternativa foi contornar o quarteirão seguinte, uma rota certamente mais perigosa naqueles dias de reinado momesco.
Porque do outro lado haveria a feijoada da Ciça. Ela se chamava Priscila, mas, desde quinta-feira, ninguém mais se lembrava disso. Ciça distribuía doses de cachaça de jambu. Beijava o rosto dos recém-chegados com uma habilidade sobrenatural. Dentro, a melhor feijoada do carnaval do Rio, aquela feita seguindo à risca a receita da música do Chico Buarque.
Na feijoada da Ciça, todos perdiam alguma coisa. Alguns, a noção do tempo. Outros, o celular. Quase todos, a capacidade de formar uma frase completa. Dirceu saiu de lá sem saber se ainda era domingo ou se a semana já avançava para a segunda-feira. Tinha a nota de cinquenta reais no bolso, um número de telefone escrito num papel que ele não reconhecia e uma serpentina ainda intacta. A camisa do Flamengo que ele usava havia desaparecido. No lugar dela, vestia uma camiseta velha de propaganda de loja de material de construção, pelo avesso.
— Cadê meu celular, puta que o pariu…
Nem bem terminou de pronunciar a frase, viu que diante de si vinha uma manada de lestrigões, todos vestidos iguais, enormes e sincronizados. Era um bloco muvucado, denso. O grupo ocupava toda a largura da rua. Não teve jeito. Dirceu foi empurrado, levado longe.
Muito longe. Já havia deixado a Tijuca para trás, atravessado o centro, passado pela Lapa e subido as ladeiras de Santa Teresa. Ali encontrou o verdadeiro labirinto. Eram tentações complicadas de driblar. De um lado, um animado convescote de marchinhas. Do outro, uma convidativa roda de samba. Acabou foi no funk.
Dali em diante, Dirceu não sabia mais se eram oito ou oitenta, outono ou outubro, tudo ou nada. Logo respondia a qualquer apelido, na terça-feira, já sentia que conhecia todo mundo da cidade. Como foi parar nas areias de Ipanema? Ninguém sabe.
Da mesma forma, ninguém entende como foi que a bela Carolina se encantou por aquele fiapo humano que era Dirceu no fim da folia: se via nele beleza ou se nutria mesmo um estranho encantamento por seres errantes com bafo de pinga. Talvez sentisse pena. Talvez apenas tenha reconhecido outro ente perdido naquela grande procissão de desorientados.
Levou Dirceu para seu apartamento. Deu banho. Deu comida. Deu cama. Na manhã seguinte, cansou-se.
Devolveu-o no mesmo ponto da praia de Ipanema.
— Odisseu?! Odisseu?! Acorda, Odisseu?!
E outro chacoalhão.
— Odisseu???
Olhos se abrindo lentamente, vozes começando a ficar mais nítidas. Quando os sons ganham forma, a luz incomoda. A cabeça parece ter sido atravessada por uma bateria de escola de samba.
— Ô, Dirceu! Acorda, Dirceu! Quase três da tarde!
— Três horas… Três horas? Que dia é hoje?
— Quarta.
Na mão esquerda, enroladinha, a mesma nota de cinquenta reais. Os amigos o levaram de volta para casa.
Diante da porta, hesitou. Olhou para a mulher como quem tenta lembrar o nome de uma atriz antiga. Ao fundo, o garotinho Telê observava o pai com uma mistura de medo e curiosidade.
Dirceu franziu a testa.
— Caraca…
Um silêncio.
— Esqueci o leite.
E tomou o elevador de volta ao térreo.

