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Um império de maconha escondido em propriedades aristocráticas e a voz de uma menina de seis anos presa num carro alvejado parecem pertencer a universos incapazes de dividir a mesma tela. Entre esses extremos, há uma companheira robótica que descobre ter sido programada para amar, jovens funcionárias de uma elegante loja de departamentos na Sydney de 1959 e cinco mães adolescentes tentando oferecer aos filhos a estabilidade que quase nunca conheceram. A distância entre esses enredos revela um catálogo menos acomodado do que costuma parecer, capaz de saltar da violência farsesca de Guy Ritchie para o rigor devastador de Kaouther Ben Hania sem reduzir nenhum dos dois a mero passatempo.

Os recém-chegados atravessam épocas, países e gêneros, ora investindo no prazer de uma trama cheia de chantagens, traições e criminosos muito bem-vestidos, ora encerrando o espectador diante de conflitos cuja gravidade continua do lado de fora da ficção. Até a comédia social de Bruce Beresford e o terror tecnológico de Drew Hancock encontram um ponto de contato na rebeldia de personagens que recusam o papel escolhido por outros. E é por Mickey Pearson, o magnata convencido de que pode vender seu reino clandestino sem acordar os lobos, que essa jornada começa.

01

Magnatas do Crime

Ação; comédia; crime Direção de Guy Ritchie

Mickey Pearson, um americano formado em Oxford, ergueu na Inglaterra um império clandestino de maconha protegido por propriedades aristocráticas e uma rede de alianças compradas a peso de ouro. Quando decide vender o negócio e desfrutar a fortuna ao lado da esposa, Rosalind, a notícia desperta a cobiça de rivais, intermediários e oportunistas convencidos de que podem tomar seu lugar. Enquanto o calculista Matthew Berger negocia a aquisição, o mafioso Dry Eye tenta apressar a sucessão à bala, e o investigador particular Fletcher procura transformar chantagem em lucro. Entre invasões, traições e cadáveres inconvenientes, Pearson descobre que abandonar o submundo pode ser mais perigoso que conquistá-lo.

Por que assistir

Guy Ritchie organiza a trama como uma mesa de sinuca cheia de jogadores trapaceiros, diálogos rápidos e colisões calculadas. Matthew McConaughey sustenta a autoridade de Mickey, enquanto Hugh Grant converte Fletcher num chantagista falastrão e irresistível. A montagem mantém as versões dos acontecimentos em movimento sem perder o fio do golpe principal.

02

A Voz de Hind Rajab

Drama Direção de Kaouther Ben Hania

Em 29 de janeiro de 2024, voluntários do Crescente Vermelho Palestino recebem a ligação de uma menina presa dentro de um carro alvejado em Gaza. Hind Rajab, de seis anos, está cercada pelos corpos de familiares e pede que alguém venha buscá-la, enquanto Rana, Omar e os demais atendentes tentam mantê-la calma. Do outro lado da linha, cada ruído pode anunciar a chegada de um tanque, um novo disparo ou o fim da comunicação. A equipe procura autorização para enviar uma ambulância, esbarra numa engrenagem militar e burocrática incapaz de acompanhar a urgência da criança e luta contra as horas. Baseada nas gravações reais do pedido de socorro, a história concentra-se na distância terrível entre ouvir alguém implorar por ajuda e conseguir alcançá-la.

Por que assistir

Kaouther Ben Hania restringe a ação ao centro de emergência e transforma vozes, ruídos e esperas em matéria dramática. O uso das gravações reais impede qualquer distanciamento confortável, enquanto o elenco reage àquilo que escuta com contenção. A tensão nasce da burocracia visível, dos telefones e de uma ambulância que demora quando cada segundo já custa demais.

03

Acompanhante Perfeita

Ficção científica; suspense Direção de Drew Hancock

Iris acredita ter encontrado em Josh um homem atencioso, capaz de transformar um encontro casual num romance perfeito. A viagem do casal para a casa isolada de Sergey, onde passará o fim de semana com amigos, começa sob o verniz do luxo e logo adquire contornos sinistros. Depois de uma morte violenta, Iris descobre que suas lembranças, seus desejos e até a paixão que sente foram cuidadosamente programados, e que ela é uma companheira robótica adquirida para obedecer. Josh tenta retomar o controle alterando suas configurações, enquanto os outros hóspedes revelam interesses próprios na confusão. Perseguida numa propriedade distante de qualquer socorro, Iris passa a usar contra o dono as faculdades que ele julgava possuir, dando início a uma disputa sangrenta por autonomia.

Por que assistir

Drew Hancock cruza ficção científica, suspense e humor perverso sem deixar que a engenhosidade engula Iris. Sophie Thatcher modula delicadeza, confusão e fúria conforme a personagem compreende o próprio corpo. A casa isolada funciona como laboratório de poder, e a violência ganha sentido porque acompanha a conquista gradual de autonomia.

04

Damas de Preto

Comédia; drama Direção de Bruce Beresford

No verão de 1959, Lisa, uma estudante tímida e leitora voraz, consegue emprego temporário na Goode’s, elegante loja de departamentos de Sydney. Entre vestidos caros, clientes exigentes e o ritual das compras de Natal, ela aproxima-se das funcionárias que trabalham de preto e descobre formas de vida muito diferentes da realidade conservadora de sua família. A sofisticada Magda, imigrante europeia responsável pelo setor de alta-costura, percebe o talento da garota e a incentiva a ambicionar a universidade, enquanto Fay e Patty enfrentam seus próprios impasses amorosos. Cercada por mulheres que aprenderam a negociar independência num país em transformação, Lisa começa a questionar o futuro modesto que os pais haviam imaginado para ela e encontra coragem para escolher o próprio caminho.

Por que assistir

Bruce Beresford conduz a passagem de Lisa à vida adulta com leveza, atenção aos figurinos e particular cuidado com o ambiente da loja. Angourie Rice faz a timidez da jovem ceder sem brusquidão, enquanto Julia Ormond dá a Magda elegância, humor e autoridade. O período histórico aparece nos hábitos cotidianos, longe de explicações decorativas.

05

Jovens Mães

Drama Direção de Jean-Pierre e Luc Dardenne

Jessica, Perla, Julie, Ariane e Naïma vivem numa casa de acolhimento para mães adolescentes na região de Liège, onde recebem apoio de educadoras enquanto tentam cuidar dos filhos e reorganizar a própria vida. Cada uma carrega um conflito particular, marcado por abandono familiar, relações violentas, dependência, pobreza e pelo receio de repetir com os bebês as dores que conheceu. Entre mamadeiras, consultas, visitas, discussões e recaídas, as cinco dividem quartos, medos e pequenas vitórias, formando uma comunidade provisória que não elimina a solidão de suas escolhas. Ainda muito jovens para compreender toda a extensão da maternidade, elas procuram oferecer às crianças a estabilidade que quase nenhuma delas teve.

Por que assistir

Jean-Pierre e Luc Dardenne filmam as cinco protagonistas de perto, atentos a gestos, hesitações e decisões que poderiam ser reduzidos a julgamento moral. As atrizes preservam diferenças nítidas entre as jovens, e a câmera acompanha a rotina da casa sem fabricar heroísmo. A força vem da observação concreta e da recusa ao sentimentalismo fácil.

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