Vinte anos depois de deixar a Runway, Andy Sachs (Anne Hathaway) retorna à revista de moda em Nova York para ajudar Miranda Priestly (Meryl Streep) a superar uma crise editorial e financeira. Dirigido por David Frankel, “O Diabo Veste Prada 2” reencontra suas personagens num mercado dominado pelas redes sociais, pelo enfraquecimento das publicações impressas e pela influência de empresários interessados em controlar informação, prestígio e publicidade.
Andy alcançou a carreira que desejava quando trabalhava como assistente de Miranda. Ela se tornou jornalista investigativa do New York Vanguard, conquistou respeito profissional e passou a produzir reportagens relevantes. A boa fase termina durante uma cerimônia na qual receberia um prêmio. Pouco antes de subir ao palco, Andy descobre que o jornal demitiu toda a sua equipe por mensagem de celular.
Diante da plateia, ela abandona o discurso preparado e fala sobre a precariedade do jornalismo. Sua manifestação circula nas redes sociais e chama a atenção de leitores, profissionais da imprensa e executivos. Andy ganha projeção, mas continua desempregada. A ironia é simples e dolorosa. Seu discurso alcança muita gente, enquanto o jornal que financiava suas reportagens fecha a porta sem sequer reunir os funcionários.
A Runway enfrenta sua maior crise
Miranda também vive um período difícil. A Runway publicou uma reportagem elogiosa sobre a Speed Fash, empresa de moda barata acusada de manter condições de trabalho abusivas. A matéria compromete a credibilidade da revista e afasta anunciantes importantes. Irv Ravitz (Tibor Feldman), presidente do grupo responsável pela publicação, procura uma saída capaz de recuperar a confiança do mercado.
A solução encontrada por Irv é contratar Andy como editora de matérias especiais. Miranda recebe a antiga assistente de volta sem demonstrar qualquer satisfação. Ela considera a contratação uma interferência em seu comando, mas já não possui a autonomia de vinte anos antes. Os problemas financeiros, as reclamações levadas ao departamento de recursos humanos e a cobrança dos superiores diminuíram seu poder dentro da empresa.
Nigel Kipling (Stanley Tucci), colaborador de longa data de Miranda, explica a situação da Runway. A edição impressa perdeu leitores, as verbas publicitárias encolheram e o conteúdo digital passou a sustentar parte das despesas. A revista que antes definia tendências agora disputa atenção com vídeos curtos, listas de celebridades e manchetes produzidas para despertar curiosidade.
Miranda despreza esse tipo de publicação, embora dependa dela para manter a redação aberta. Andy tenta escrever matérias mais profundas, mas recebe pouca audiência. O roteiro extrai graça desse contraste sem transformar a crise da imprensa em palestra. Miranda exige elegância, prestígio e lucro, de preferência na mesma reunião e antes que alguém ouse interrompê-la.
Emily controla uma parte do jogo
A recuperação da Runway depende do retorno dos grandes anunciantes. Uma das empresas mais importantes é a Dior, onde Emily Charlton (Emily Blunt) trabalha como executiva. A antiga assistente de Miranda deixou para trás a profissional insegura que contava os dias para viajar a Paris. Agora possui influência sobre investimentos publicitários que a revista precisa preservar.
Andy recebe a tarefa de preparar uma matéria favorável à Dior. O encontro entre as antigas colegas revela quanto ambas mudaram. Emily domina o ambiente, conhece o valor comercial da marca e não demonstra disposição para agradar Miranda. Andy, por sua vez, questiona o aumento dos preços e o afastamento dos consumidores de classe média.
A conversa entre as duas carrega ressentimentos antigos, mas também revela respeito profissional. Emily conhece a capacidade de Andy e sabe que sua passagem pela Runway abriu caminhos que pareciam inalcançáveis. Andy reconhece a competência da colega, embora desconfie da proximidade entre jornalismo e publicidade. A matéria passa a determinar sua permanência na revista e a relação da Runway com uma de suas principais fontes de receita.
Emily Blunt recupera a acidez da personagem sem repetir a jovem assistente do primeiro longa. Sua Emily cresceu, conquistou dinheiro e passou a falar com Miranda de um lugar muito diferente. A diversão nasce dessa segurança. Pela primeira vez, ela pode encerrar uma conversa sem esperar autorização da antiga chefe.
Uma entrevista pode salvar empregos
Andy tenta fortalecer sua presença na Runway ao buscar uma entrevista com Sasha Barnes (Lucy Liu), mulher rica e disputada pelos meios de comunicação. Conseguir acesso a Sasha pode trazer leitores, melhorar a imagem da revista e provar que Andy ainda possui espaço no jornalismo. A pauta também aproxima a repórter de empresários cujos recursos podem interferir no futuro da publicação.
Essa dependência financeira ocupa boa parte da história. A Runway precisa de publicidade para sobreviver, mas cada acordo compromete parte de sua independência. Andy deseja produzir reportagens relevantes, embora tenha de atender às necessidades comerciais da empresa. Miranda procura preservar o padrão editorial da revista, mas responde a dirigentes interessados em cortar despesas.
Fora do trabalho, Andy inicia um relacionamento com Peter (Patrick Brammall). O romance oferece algum descanso da redação, ainda que a insegurança profissional invada a vida do casal. Andy leva telefonemas, preocupações e prazos para os encontros. Peter tenta participar de sua rotina, mas percebe que a Runway voltou a ocupar um espaço enorme na vida da jornalista.
Anne Hathaway interpreta Andy com mais segurança e menos encantamento pelo mundo da moda. Ela conhece os privilégios oferecidos pela revista, mas também recorda o preço cobrado por Miranda. A personagem voltou porque precisa trabalhar e acredita que pode produzir bom jornalismo ali. Essa escolha, porém, coloca sua reputação nas mãos de uma empresa ainda disposta a agradar anunciantes.
Miranda já não governa sozinha
Meryl Streep apresenta uma Miranda envelhecida, mais vulnerável e ainda muito habilidosa. A editora permanece capaz de dominar uma sala com poucas palavras. Desta vez, contudo, precisa lidar com consultores, cortes de orçamento e regras corporativas. Até seus privilégios de viagem entram na lista de despesas questionadas pela empresa.
David Frankel usa essas perdas para aproximar Miranda do público sem apagar sua crueldade. Ela não se transforma numa chefe afetuosa nem pede desculpas por tudo o que fez. Apenas descobre que sua autoridade depende de pessoas menos interessadas em moda do que em planilhas. Ver Miranda Priestly enfrentar uma passagem de classe econômica oferece uma pequena vingança coletiva a todos que já viajaram com os joelhos espremidos.
Stanley Tucci volta a dar a Nigel uma combinação agradável de elegância, ironia e lealdade. Ele conhece a importância cultural da Runway e sabe que o fechamento da revista destruiria décadas de trabalho. Nigel também funciona como ponte entre Andy e Miranda, duas mulheres que continuam discordando, mas precisam colaborar para impedir que decisões empresariais eliminem seus empregos.
“O Diabo Veste Prada 2” preserva o prazer de rever Andy, Miranda, Emily e Nigel, sem depender apenas das lembranças do longa de 2006. A moda continua importante, porém divide espaço com a crise do jornalismo, a inteligência artificial e o poder dos bilionários sobre empresas de comunicação. O roteiro reúne muitos assuntos e nem todos recebem o mesmo cuidado, mas as relações entre as personagens sustentam a narrativa.
Sem revelar os acontecimentos decisivos, o futuro da Runway passa a depender de alianças pouco confortáveis. Andy precisa defender seu trabalho sem repetir os erros que a afastaram da revista. Emily usa sua influência para proteger os próprios interesses. Miranda tenta conservar o comando de uma publicação que já não sobrevive apenas com seu prestígio. Quando volta à mesa de editora, Andy recupera um emprego, mas também recebe a difícil tarefa de contrariar Miranda Priestly e continuar empregada no dia seguinte.

