A guerra poupa alguns corpos e ocupa-os para sempre. Thomas Shelby voltou das trincheiras francesas em 1919 trazendo debaixo do terno uma coleção de mortos, túneis estreitos, explosões e homens desfeitos na lama, matéria com que Steven Knight ergueu seis temporadas de “Peaky Blinders”. Em “O Homem Imortal”, o calendário já marca 1940 e outra guerra aproxima-se de Birmingham, agora por cima, no ventre dos bombardeiros alemães. Tommy envelheceu, perdeu irmãos, mulheres, filhos, amigos e qualquer ilusão quanto à utilidade do poder. Resta-lhe a autoridade silenciosa de quem entra num recinto e muda a temperatura do lugar, virtude que Cillian Murphy conserva intacta, tornando cada cigarro, cada movimento dos olhos e cada pausa numa ameaça que ainda não decidiu se vai cumprir.
Tom Harper encontra Tommy num casarão frio, afastado da família e da cidade que submetera a sua vontade. O antigo chefe dos Peaky Blinders tenta escrever as próprias memórias, fuma ópio e recebe visitas dos parentes mortos, uma existência de pijama, garrafas e cortinas cerradas que diz muito mais sobre sua derrota que qualquer confissão. Murphy emagrece o personagem por dentro, curva-lhe os ombros e permite que o rosto antes impenetrável se fragmente diante das lembranças de Ruby, Polly e Arthur. A guerra exterior pouco lhe interessa porque a outra, travada em sua cabeça, jamais conheceu armistício. Ada, Johnny Dogs e Kaulo tentam despertá-lo desse purgatório, sem sucesso, até que as ações de Duke, o filho abandonado, obrigam-no a vestir outra vez o colete, o sobretudo e a boina. A roupa funciona como uma velha armadura, e o homem abatido reaparece sob ela com a brutalidade de um animal provocado.
Duke comanda uma nova geração dos Peaky Blinders, rapazes que roubam munição dos escombros, espancam policiais e tratam Birmingham como um território inimigo. Barry Keoghan empresta ao jovem a imprevisibilidade adequada, misturando a ferocidade do chefe a uma carência quase infantil pela aprovação do pai. Seu aliado é John Beckett, agente nazista britânico que pretende distribuir milhões de libras falsificadas e lançar a economia inglesa no caos. Knight aproveita a Operação Bernhard, plano verdadeiro do Terceiro Reich para fabricar dinheiro britânico em campos de concentração, e transforma o conflito histórico numa disputa entre criminosos, fascistas e uma família incapaz de romper com a própria vocação para a ruína. O personagem de Tim Roth carrega o nome de um fascista britânico real, livremente remodelado pelo roteiro como um vilão de cálculo frio, afável na voz e grotesco nas intenções.
Pai e filho no mesmo campo de batalha
Entre Duke e Tommy, Harper encena uma sucessão hereditária às avessas. O filho deseja a coroa, a fama e o medo que o sobrenome Shelby desperta; o pai conhece o peso exato dessas coisas e enxerga no herdeiro uma versão sua ainda sem disciplina. O primeiro encontro dos dois, numa pocilga, dispensa qualquer tentativa de conciliação. Eles rolam na lama, trocam socos e acusações, dois homens irmanados pela raiva e separados por tudo o que não viveram juntos. Keoghan encara Murphy sem se deixar engolir, feito considerável diante de um ator que habita Tommy há mais de uma década. O jovem sabe conferir ao silêncio uma instabilidade perigosa, ao passo que Murphy economiza gestos até o instante em que a violência se torna inevitável. A relação entre os dois sustenta o filme quando o plano nazista ameaça reduzi-lo a uma aventura de espionagem excessivamente convencional.
Rebecca Ferguson surge como Kaulo, irmã gêmea de Zelda, mãe de Duke e antiga amante de Tommy. Cartomante, sedutora e supostamente capaz de receber a consciência dos mortos, ela ocupa o espaço místico antes dominado por Polly Gray, embora a comparação só torne mais visível a ausência de Helen McCrory. Ferguson impõe sua presença, circula pelo casarão com a segurança de quem sabe onde estão escondidos todos os cadáveres e conduz Tommy a revelações que o roteiro havia guardado por anos. A personagem, contudo, entra e sai da história segundo a necessidade de empurrar o protagonista para a próxima etapa. O mesmo desperdício atinge Roth e Stephen Graham, intérpretes grandes demais para figuras reduzidas a peças funcionais. Knight reúne velhos aliados, distribui aparições afetivas e tenta condensar uma temporada inteira em 114 minutos, atropelando personagens que pediam mais espaço e conflitos que se resolvem depressa demais.
Birmingham sob fogo e câmera lenta
Harper conserva a gramática visual da série, com ruas molhadas, chaminés, fogo, fumaça, homens caminhando em câmera lenta e música contemporânea martelando sobre imagens da década de 1940. A fotografia de George Steel dá aos bombardeios de Birmingham uma beleza suja, iluminando tijolos partidos, armazéns e túneis como partes de um imenso mausoléu industrial. Há sequências eficientes, sobretudo a entrada de Tommy no Garrison, onde um soldado comete o erro fatal de não reconhecê-lo, e o ataque ao depósito de dinheiro falso, combinação de minas, barcos, metralhadoras e velhos criminosos mobilizados por uma causa que jamais lhes renderá medalha. A trilha sonora, por vezes, força uma grandiosidade já presente nas imagens, e a câmera lenta torna-se um cacoete quando deveria reservar-se aos momentos decisivos. O filme cresce nos embates físicos e nas conversas atravessadas por mágoas; encolhe quando tenta anunciar cada passo como um acontecimento histórico.
“O Homem Imortal” funciona melhor como despedida que como expansão de universo. Tom Harper não transforma “Peaky Blinders” em outra coisa, nem encontra uma linguagem que justifique plenamente a passagem da televisão para o cinema. Entrega um episódio longo, luxuoso e emocionalmente carregado, conduzido por dois atores que compreendem a natureza animal de seus personagens. A imortalidade do título pertence ao mito de terno escuro, boina e lâmina escondida; o homem que Murphy carrega por Birmingham está cansado, ferido e cercado pelos fantasmas que fabricou. Quando pai e filho enfim se reconhecem entre explosões, dinheiro queimado e corpos espalhados pelo chão, a coroa dos Shelby já perdeu qualquer brilho. Ficou pesada demais para quem a usava e suja demais para quem pretende herdá-la.

