Em julho de 1969, na ilha de Chappaquiddick, em Massachusetts, o senador Ted Kennedy (Jason Clarke) sofre um acidente de carro que mata Mary Jo Kopechne (Kate Mara). A demora em procurar a polícia transforma a tragédia em um escândalo nacional e ameaça tanto a carreira do político quanto o prestígio de uma das famílias mais influentes dos Estados Unidos. Dirigido por John Curran, “O Legado Kennedy” acompanha as horas seguintes ao ocorrido e expõe a operação montada para proteger um sobrenome associado à Casa Branca.
Ted Kennedy é o irmão mais novo do presidente John Kennedy e do senador Robert Kennedy, ambos assassinados. Com os dois mortos, passa a carregar a expectativa de preservar o poder político da família. A comparação é inevitável, sobretudo porque seu pai, Joseph Kennedy (Bruce Dern), ainda espera que o filho restante alcance a Presidência dos Estados Unidos.
O peso dessa herança surge antes mesmo do acidente. Ted é senador por Massachusetts, tem prestígio nacional e pertence a um grupo acostumado a abrir portas. Também vive cercado pela lembrança dos irmãos, homens que ocuparam lugares que ele ainda deseja alcançar. Jason Clarke interpreta o personagem com insegurança e certa rigidez. Seu Ted quer demonstrar autoridade, mas procura aprovação sempre que a situação foge de suas mãos.
Durante um encontro em Chappaquiddick, Ted participa de uma confraternização com amigos e antigas colaboradoras da campanha presidencial de Robert Kennedy. Entre elas está Mary Jo Kopechne, vivida por Kate Mara. Jovem, inteligente e politicamente experiente, ela trabalhou com Robert e ainda convive com o luto provocado pelo assassinato dele.
Ted deixa a festa acompanhado por Mary Jo. Ao dirigir por uma estrada escura, perde o controle do carro na ponte Dike. O veículo cai na água. O senador consegue escapar, mas a passageira permanece presa. É nesse ponto que “O Legado Kennedy” abandona o retrato de uma reunião entre amigos e assume a tensão de um suspense político.
O silêncio piora o acidente
Depois de sair da água, Ted procura o primo Joe Gargan (Ed Helms) e o advogado Paul Markham (Jim Gaffigan). Os dois retornam ao local e tentam resgatar Mary Jo, mas não conseguem retirá-la do automóvel. Gargan pressiona o senador para que avise a polícia. Ted, porém, não comunica o acidente naquela noite.
A demora ocupa o centro da história porque muda a natureza do caso. A queda do carro poderia ser investigada como uma tragédia no trânsito. A ausência de uma comunicação às autoridades abre dúvidas sobre o comportamento do senador, as circunstâncias da viagem e o tratamento reservado a Mary Jo após o acidente. Cada hora acrescenta uma nova pergunta, enquanto Ted parece mais preocupado em procurar orientação do que em oferecer esclarecimentos.
Ed Helms, conhecido por papéis cômicos, surpreende pela sobriedade. Joe Gargan pertence à família e ajuda o primo, mas demonstra desconforto diante das decisões tomadas. Ele tenta convencer Ted a assumir o ocorrido antes que outras pessoas descubram o carro. A lealdade familiar começa a competir com a consciência, e Helms transmite esse conflito sem transformar Gargan em herói.
Na manhã seguinte, moradores localizam o veículo. A polícia identifica o proprietário e recupera o corpo de Mary Jo. Ted perde a chance de apresentar o caso por iniciativa própria. Quando comparece à delegacia, já precisa explicar não apenas o acidente, mas também tudo o que fez durante a madrugada.
A família assume o controle
A crise leva Ted até a residência dos Kennedy em Hyannis Port. Ali, familiares, advogados e antigos integrantes do governo se reúnem para conter os danos. Robert McNamara (Clancy Brown), ex-secretário de Defesa, participa da equipe encarregada de administrar a repercussão. Telefonemas são feitos, declarações são preparadas e os riscos jurídicos entram na pauta.
Joseph Kennedy, interpretado por Bruce Dern, está debilitado por um derrame, mas conserva enorme influência sobre o filho. Mesmo com poucas palavras, deixa evidente sua preocupação com o nome da família. Ted procura acolhimento e recebe cobrança. Para o patriarca, o acidente também ameaça um projeto político construído durante décadas.
Essa parte de “O Legado Kennedy” revela seu aspecto mais perturbador. Enquanto Mary Jo passa a existir nos documentos, no inquérito e nas notícias, os homens reunidos em Hyannis Port discutem a permanência de Ted no Senado. A jovem morta perde espaço dentro das conversas, enquanto o futuro eleitoral do motorista ocupa a mesa.
John Curran acompanha essa movimentação sem transformar os assessores em vilões de desenho animado. São profissionais experientes, habituados ao governo e à imprensa, trabalhando para preservar o senador. O desconforto nasce da eficiência do grupo. Ted tem algo que poucas pessoas teriam naquela situação, uma equipe poderosa pronta para cuidar de cada declaração antes que ela chegue ao público.
Jason Clarke sustenta a ambiguidade
Jason Clarke oferece ao protagonista uma mistura difícil de fragilidade, vaidade e medo. Ted sofre com a morte de Mary Jo, mas também calcula o que pode perder. Busca conselhos, aceita interferências e procura uma saída capaz de manter sua carreira. O ator não pede compaixão pelo personagem, embora permita que o espectador perceba a pressão familiar sob a qual ele vive.
Essa escolha impede que “O Legado Kennedy” vire uma defesa sentimental do senador. Ted não aparece apenas como vítima do pai ou da fama dos irmãos. Ele dirige o carro, demora a procurar a polícia e aceita a proteção oferecida por pessoas influentes. O peso do sobrenome pode explicar parte de seu comportamento, mas não apaga suas decisões.
Kate Mara tem participação menor, consequência inevitável do período retratado, mas concede a Mary Jo uma presença serena e inteligente. A personagem conversa sobre trabalho, política e futuro antes do acidente. Esses instantes importam porque lembram que havia uma mulher com planos próprios dentro daquele carro. Ela não era uma simples acompanhante do senador, embora o escândalo tenha muitas vezes limitado sua identidade a esse papel.
Um suspense feito de espera
“O Legado Kennedy” não depende de perseguições ou grandes cenas de ação. A tensão cresce em delegacias, quartos, corredores e salas onde homens escolhem palavras com enorme cuidado. Um telefonema adiado ganha importância. Uma declaração mal formulada pode custar um mandato. Uma versão incompleta cria dificuldades que nem o prestígio dos Kennedy consegue apagar.
A chegada do homem à Lua, ocorrida no mesmo período, também interfere na circulação das notícias. Enquanto os Estados Unidos acompanham uma conquista histórica, os conselheiros observam o calendário e avaliam o espaço que o acidente receberá nos jornais. O contraste é quase cruel. O país olha para o céu, enquanto uma família poderosa tenta controlar o que aconteceu dentro de um carro submerso.
John Curran adota um ritmo contido, por vezes lento demais, mas coerente com uma história baseada em espera, silêncio e pressão política. O diretor não oferece certezas para todas as perguntas que cercam Chappaquiddick. Prefere acompanhar aquilo que pode ser observado, incluindo a demora, a intervenção dos aliados e o esforço para preservar a carreira de Ted.
“O Legado Kennedy” ganha força ao tratar o poder por meio de ações concretas. Ted Kennedy tem acesso a advogados, antigos membros do governo e uma rede familiar capaz de interferir na divulgação do caso. Mary Jo Kopechne, por outro lado, já não pode contar sua versão. O filme preserva essa desigualdade durante toda a narrativa e termina deixando uma constatação incômoda. O carro saiu da água, mas muitas perguntas permaneceram presas naquela noite.

