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O horror filipino não precisa importar demônios. Séculos de colonização, devoção católica, superstição popular e criaturas como os aswangs oferecem matéria suficiente para que o medo adquira rosto próprio, garras e uma fome transmitida de geração em geração. “Shake, Rattle & Roll: As Origens do Mal”, agora na Netflix, é o 17º volume de uma franquia iniciada em 1984 e conserva sua estrutura de antologia, embora Shugo Praico, Joey de Guzman e Ian Loreños tentem algo diferente ao ligar os três episódios por uma mesma entidade. Passado, presente e futuro tornam-se compartimentos de uma história sobre o mal que muda de roupa sem abandonar seus velhos apetites.

“1775” abre o filme num beaterio isolado durante o período colonial espanhol. Freiras que vivem sob disciplina rígida deparam-se com uma criatura libertada dentro do convento, e logo percebem que Malum não se limita a atacar os corpos. A entidade serve-se dos desejos reprimidos, das culpas e dos segredos de cada religiosa, convertendo o lugar de oração numa câmara de punições. Shugo Praico investe em corredores escuros, velas, hábitos arrastando-se pelo chão e mortes de violência seca, dispondo de Carla Abellana como Madre Clara, mulher atormentada por visões que ninguém deseja levar a sério.

A atmosfera funciona melhor que os personagens. Loisa Andalio, Janice de Belen, Ysabel Ortega e Ashley Ortega recebem figuras delineadas por traços rápidos, e as mortes chegam antes que se estabeleça qualquer ligação mais funda com aquelas mulheres. Abellana sustenta o segmento graças ao modo como administra o medo, primeiro contendo-o diante das outras freiras, depois permitindo que ele lhe desfigure o rosto. O convento é belo, trevoso e cheio de possibilidades; a história sai dele cedo demais, como se a produção receasse permanecer em silêncio.

Da clausura à pista de dança

“2025” desloca a ação para um clube subterrâneo onde jovens participam de um baile de Halloween. Máscaras, luzes pulsantes e música alta ocultam uma seita empenhada em transformar a festa num matadouro, obrigando personagens que mal se suportam a procurar juntos uma saída. Joey de Guzman encontra aqui o ritmo que faltava ao prólogo, lançando Francine Diaz, Seth Fedelin, Fyang Smith e JM Ibarra num slasher dinâmico em que a violência conversa com a euforia do ambiente. O cenário amplo, a montagem célere e a trilha que não dá descanso fazem deste o trecho mais eficaz da antologia.

Sassa Gurl acerta o tempo das intervenções cômicas sem dissolver a ameaça, e Karina Bautista aproveita uma personagem cujo arco guarda uma das viradas mais proveitosas do episódio. Há fan service, romances esboçados e tipos concebidos para plateias já familiarizadas com o elenco, expediente que poderia transformar o segmento numa longa peça promocional. De Guzman evita a armadilha mantendo os jovens em movimento e usando o clube como um organismo que fecha passagens, engole vítimas e devolve sangue à pista.

Manila depois do fim

“2050” encontra Manila devastada e dominada por aswangs. Rosdan lidera um grupo de sobreviventes que atravessa pontes arruinadas, trens decompostos e bairros vazios, tentando conter a criatura cuja libertação remonta ao convento. Richard Gutierrez oferece ao personagem a presença física de um herói cansado, muito mais convincente quando protege os seus que quando se põe a explicar a mitologia. Ivana Alawi, Dustin Yu e Matt Lozano acompanham-no nas sequências de combate, e Ian Loreños explora a cidade desabitada com uma escala incomum para esse tipo de produção. O prêmio recebido pelos efeitos visuais encontra justificativa nos monstros, no desenho da metrópole em ruínas e numa ação que se aproxima da ficção científica sem abandonar o folclore filipino.

As quase duas horas e meia cobram seu preço, sobretudo quando “2050” começa a repetir confrontos e explicações para amarrar os episódios. A ligação entre as épocas é engenhosa, ainda que a continuidade reduza a liberdade que sempre fez das antologias um terreno fértil para experiências destoantes. O filme cresce quando aceita sua natureza popular, espalhafatosa e sanguinolenta, sem pretender conferir gravidade filosófica a toda aparição de Malum.

“Shake, Rattle & Roll: As Origens do Mal” tem falhas de proporção, personagens interrompidos e uma mitologia que por vezes fala demais. Também exibe imaginação, domínio de atmosfera e saudável confiança no repertório cultural do país que o produziu. A criatura atravessa o convento, a boate e a Manila apocalíptica porque encontra em todas essas épocas alguém disposto a abrir a caixa. Depois de dezessete filmes, a franquia compreendeu que tradição também precisa de dentes novos.


Filme: Shake, Rattle & Roll: As Origens do Mal
Diretor: Shugo Praico, Joey de Guzman e Ian Loreños
Ano: 2025
Gênero: Suspense/Terror
Avaliação: 4/5 1 1
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