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A elegância dos flamingos é uma impressão obtida à distância. De perto, essas aves de pernas finíssimas passam boa parte da vida enterrando o bico na lama, disputando espaço, erguendo ninhos em áreas sujeitas a inundações e vigiando ovos que atraem predadores. “Flamingos: A Vida Depois do Meteorito”, documentário mexicano de Lorenzo Hagerman disponível na Netflix, desfaz a imagem ornamental do animal sem tirar-lhe a beleza. Filmado ao longo de nove anos no norte da Península de Yucatán, o longa acompanha o período mais arriscado da existência de uma colônia de flamingos-do-caribe, da escolha do parceiro ao nascimento dos filhotes.

O meteorito do título remete ao impacto de Chicxulub, ocorrido naquela região há milhões de anos, e funciona como moldura para uma história sobre criaturas que continuaram ocupando a Terra depois de uma extinção colossal. Hagerman não transforma o filme numa aula de geologia. A câmera logo abandona a escala planetária e desce até as lagoas rasas, onde centenas de aves marcham, dobram o pescoço, abrem as asas e repetem movimentos de corte que lembram uma coreografia ensaiada por um mestre particularmente severo.

A narração de Julieta Venegas empresta individualidade aos flamingos, comentando aproximações, recusas e insistências com humor contido. O recurso antropomórfico às vezes adoça em demasia a vida selvagem, sobretudo quando a escolha de parceiros parece aproximar-se de um programa de relacionamentos. Hagerman corrige o excesso ao mostrar o trabalho pouco romântico que começa depois do acasalamento. Macho e fêmea precisam achar um ponto seguro numa planície inundável, transportar lama, construir um pequeno cone e proteger um único ovo da água, do calor e dos animais que rondam a colônia.

O rosa perde sua inocência

As imagens captadas por Hagerman, Gerrit Vyn, Eric Liner e Tim Laman fazem a paisagem mudar de natureza a cada distância. Vista do alto, a concentração de flamingos parece uma mancha rosada espalhada sobre um espelho; junto ao chão, torna-se uma multidão nervosa, cheia de empurrões, bicadas e aves que não encontram lugar. A parceria com especialistas em observação da vida selvagem permite registrar ninhos de lama, filhotes recém-nascidos e a vulnerabilidade de uma reprodução realizada justamente numa zona que pode ser inundada.

Bryce Dessner compõe uma trilha que acompanha o movimento coletivo sem converter cada perigo numa catástrofe musical. O som das asas, dos passos na água e dos chamados da colônia permanece audível, preservando o caráter físico da experiência. Há momentos em que a música e a voz de Venegas cercam as imagens com delicadeza excessiva, como se Hagerman receasse confiar inteiramente no que sua equipe conseguiu filmar. Esse cuidado ornamental combina com os flamingos e também os aprisiona um pouco na expectativa humana de que tudo quanto seja rosa deve ser agradável.

A sobrevivência desfaz essa impressão. O ninho pode ruir, o ovo pode ser abandonado, a água pode avançar e um filhote separado da colônia torna-se presa fácil. O documentário acompanha esses acontecimentos sem recorrer ao sadismo comum em produções de natureza empenhadas em transformar cada animal num gladiador. A violência existe, integrada ao mesmo espaço em que os adultos alimentam os pequenos e os jovens aprendem a mover-se entre milhares de pernas idênticas.

O meteorito permanece como uma ideia maior que o filme, prometendo uma viagem evolutiva que Hagerman só esboça. O que ele entrega é mais modesto e talvez mais valioso, oitenta e poucos minutos diante de aves que escolhem parceiros, constroem casas frágeis e insistem em criar seus filhotes sobre um chão ameaçado pela água. Ao fim, o rosa já perdeu qualquer doçura decorativa. É a cor adquirida por uma espécie que aprendeu a sobreviver no lugar onde o mundo, certa vez, acabou.


Filme: Flamingos: A Vida Depois do Meteorito
Diretor: Lorenzo Hagerman
Ano: 2024
Gênero: Documentário
Avaliação: 4/5 1 1
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