Filmes de guerra gostam de transformar operações suicidas em provas da grandeza humana, como se coragem, disciplina e algum explosivo bastassem para corrigir a insânia dos governos. “Os Canhões de Navarone”, disponível na Netflix, adota essa tradição sem vergonha da própria grandiloquência. J. Lee Thompson reúne seis homens numa missão imaginada por Alistair MacLean e adaptada por Carl Foreman, encarregando-os de destruir duas peças de artilharia alemãs que impedem o resgate de dois mil soldados britânicos presos na ilha fictícia de Kheros, em 1943. O resultado é uma aventura bélica de fôlego, sustentada por atores que tratam a fantasia militar com tamanha seriedade que até os seus excessos parecem plausíveis.
O major Franklin lidera o grupo formado pelo capitão Keith Mallory, alpinista experiente; pelo cabo Miller, especialista em explosivos; pelo coronel grego Andrea Stavros; por Spyros Pappadimos, nascido em Navarone; e por Brown, veterano cujo talento com facas lhe rendeu uma reputação pouco cristã. A primeira etapa consiste em atravessar o mar Egeu num barco pequeno, enfrentar uma tempestade e escalar um paredão considerado inacessível. Thompson oferece ao público o espetáculo esperado, com ondas, rajadas de vento e homens pendurados sobre o abismo, sem perder de vista o desconforto que já se instala entre Mallory e Stavros.
Gregory Peck compõe Mallory como um líder que parece seguro porque não pode permitir-se o contrário. Anthony Quinn introduz em Stavros a cólera de quem traz uma dívida pessoal para dentro da missão, disposto a matar o capitão quando a guerra terminar por julgá-lo responsável pela morte de sua família. Entre ambos está David Niven, extraordinariamente à vontade como Miller, o súdito indisciplinado que despreza ordens mal concebidas e prefere confiar na química. As diferenças entre os três afastam “Os Canhões de Navarone” do desfile de heroísmo automático. Cada decisão custa a alguém uma parte da consciência.
A missão começa a cobrar seu preço
Franklin quebra a perna durante a subida, obrigando Mallory a assumir o comando e arrastar um ferido por território ocupado. O dilema intensifica-se quando o médico improvisado conclui que a gangrena acabará matando-o e Miller acusa o novo líder de esconder a gravidade da situação. Peck e Niven fazem dessa discussão uma das melhores cenas do longa, porque não há alemães por perto, tiros ou bombas a aliviar a tensão. Thompson deixa dois homens exaustos medirem o preço de abandonar um companheiro, sabendo que a demora pode condenar milhares.
Ao chegar ao interior da ilha, os sabotadores recebem a ajuda de Maria, irmã de Spyros, e de Anna, professora supostamente emudecida pela tortura nazista. Irene Papas empresta a Maria uma autoridade que desarranja a camaradagem masculina, enquanto Gia Scala mantém Anna sob um véu de fragilidade até que suspeitas de traição ganhem corpo. A descoberta da informante força o grupo a praticar o tipo de justiça sumária que essas histórias costumam celebrar sem maiores escrúpulos. Thompson não encobre o horror do gesto. O disparo resolve o problema tático e deixa todos moralmente menores.
A reta final leva Mallory e Miller até a fortaleza, onde os canhões estão incrustados na rocha e protegidos por soldados, grades e mecanismos de segurança. A direção trabalha bem a geografia do lugar, deixando claro onde estão os explosivos, quanto tempo resta e por que uma alteração mínima no plano pode frustrar tudo. A trilha de Dimitri Tiomkin infla os acontecimentos aqui e ali, e algumas passagens estendem-se além do necessário, tributárias de uma época em que o épico precisava justificar o tamanho da tela e o preço do ingresso.
Ainda assim, “Os Canhões de Navarone” atravessa suas duas horas e meia sem perder o interesse, graças ao atrito entre Peck, Niven e Quinn. O filme sabe que uma missão impossível depende menos de homens invencíveis que de indivíduos feridos, rancorosos e cansados que continuam andando porque já não há caminho de volta. Quando a montanha explode e as enormes armas desaparecem em meio à pedra e ao fogo, os responsáveis observam de longe, reduzidos a pequenas silhuetas. Thompson devolve a guerra à sua medida correta: máquinas colossais destruídas por homens que talvez nunca consigam recompor-se.

