O ciúme costuma nascer menos da traição consumada que da imagem fabricada por quem se julga traído. Basta uma frase, um nome ou a descrição de um rosto avistado de passagem para que a imaginação faça o serviço sujo, levantando quartos, corpos e gemidos que talvez nunca tenham existido. Stanley Kubrick explora essa enfermidade íntima em “De Olhos Bem Fechados”, seu último filme, agora na Netflix, no qual um casamento aparentemente sólido começa a ranger depois que uma mulher confessa ao marido ter desejado outro homem. Adaptado por Kubrick e Frederic Raphael da novela “Traumnovelle”, publicada por Arthur Schnitzler em 1926, o longa transfere a Viena do escritor para uma Manhattan natalina, iluminada por lâmpadas coloridas que deixam cada ambiente com a aparência de um sonho indecoroso.
Bill e Alice Harford pertencem à burguesia confortável que aprendeu a revestir o tédio com roupas caras, bons modos e festas nas quais todos parecem disponíveis, desde que ninguém admita. Na recepção oferecida pelo milionário Victor Ziegler, Alice deixa-se cortejar por Sandor Szavost, um húngaro que tenta levá-la para um andar mais reservado, enquanto Bill é cercado por duas modelos antes de ser chamado ao banheiro, onde uma jovem nua agoniza depois de consumir cocaína. Kubrick apresenta os dois cônjuges em movimentos paralelos, tão perto da infidelidade quanto da repulsa por ela, e coloca Tom Cruise e Nicole Kidman numa disputa subterrânea que o espectador só percebe quando voltam para casa.
A confissão que abre o abismo
A discussão que se segue, temperada por maconha e pela arrogância do médico convencido de que conhece a esposa, é o verdadeiro acontecimento do filme. Alice conta que, durante uma viagem, desejou com tal intensidade um oficial da Marinha que teria abandonado Bill e a filha por uma única noite com o desconhecido. Kidman ri, inclina o corpo e deixa as palavras saírem com uma crueldade quase voluptuosa, demolindo a presunção masculina do marido sem levantar a voz. Cruise reage com uma imobilidade que durante anos foi tomada por deficiência dramática. Sua rigidez encontra aqui o personagem perfeito, um homem treinado para diagnosticar o corpo alheio e incapaz de reconhecer a febre que o consome.
Chamado para constatar a morte de um paciente, Bill entra numa peregrinação noturna em que cada encontro lhe oferece uma possibilidade de desforra. Marion, filha do morto, declara-se a ele ao lado do cadáver do pai; Domino, uma prostituta, leva-o para o apartamento; Nick Nightingale, colega dos tempos de faculdade, menciona uma festa clandestina onde toca vendado; e o dono de uma loja de fantasias aluga-lhe capa, máscara e traje de gala enquanto surpreende a filha adolescente com dois homens. Kubrick filma essas passagens como estações de um labirinto moral. Bill acredita avançar em direção ao prazer, embora continue apenas circulando em torno da humilhação que Alice lhe impôs.
A senha “Fidelio” abre os portões de Somerton, mansão onde homens mascarados assistem a um ritual conduzido por uma figura de vermelho, cercada por mulheres nuas que depois se distribuem pelos salões. A sequência ganhou fama pelo erotismo, embora quase nada ali seja sensual. Os corpos obedecem a uma coreografia hierárquica; as máscaras apagam o desejo particular; o dinheiro assegura que a devassidão permaneça protegida dos curiosos. A música de Jocelyn Pook, com vozes litúrgicas tratadas de modo a soar invertidas e profanas, dá ao convescote a solenidade de uma missa administrada por quem já comprou a absolvição.
Uma máscara no leito conjugal
Bill é descoberto, interrogado e poupado graças à intervenção de uma mulher que se oferece em seu lugar. No dia seguinte, tenta reconstruir os fatos e encontra portas fechadas, ameaças discretas, um antigo amigo desaparecido e o cadáver de uma mulher no necrotério. Sydney Pollack confere a Ziegler uma cordialidade aterradora na conversa diante da mesa de bilhar, durante a qual o anfitrião reduz a aventura de Bill a uma encenação montada para assustá-lo. Kubrick não confirma inteiramente essa versão. O poder dos homens reunidos em Somerton reside também na capacidade de determinar o que os outros chamarão de realidade.
Ao voltar para casa, Bill encontra a máscara sobre o travesseiro, ao lado de Alice adormecida. Nenhuma orgia, prostituta ou ameaça produz nele o estrago daquela imagem doméstica. Na loja de brinquedos onde o casal tenta prosseguir a vida, Kidman encerra a longa noite com uma proposta de reconciliação tão concreta quanto despida de romantismo. “De Olhos Bem Fechados” preserva o casamento dos Harford sem purificá-lo, deixando entre os dois a máscara que já não aparece em cena. Kubrick sabia que certos objetos desaparecem dos olhos e continuam ocupando a cama.

