Discover

Lançado em 2019 e ambientado num futuro próximo, “Bacurau” acompanha uma comunidade do sertão pernambucano ameaçada após desaparecer dos mapas digitais.

Dirigido por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, o filme começa com o retorno de Teresa (Bárbara Colen) ao povoado onde nasceu. Ela leva medicamentos e chega a tempo do enterro da avó Carmelita (Lia de Itamaracá), matriarca que morreu aos 94 anos. A cerimônia reúne parentes, vizinhos e lideranças locais, mas o período de luto logo é interrompido por acontecimentos estranhos.

A água está sendo bloqueada, o sinal de telefone apresenta falhas e caixões vazios surgem na estrada. Cavalos correm soltos pelas ruas e um objeto semelhante a um disco voador observa a região pelo alto. Quando os moradores procuram o povoado em plataformas digitais, descobrem que ele desapareceu dos mapas. Alguém isolou aquela população e pretende impedir qualquer pedido de socorro.

Um funeral cercado por sinais estranhos

Teresa retorna a um lugar pobre em recursos, porém organizado por vínculos comunitários bastante sólidos. Os habitantes mantêm uma escola, um posto de saúde e um museu dedicado à história local. Cada pessoa exerce alguma função, inclusive aquelas que vivem à margem das instituições ou carregam passados complicados.

Entre elas está Pacote, também conhecido como Acácio (Thomás Aquino), homem respeitado pelos moradores e ligado a episódios violentos. Ele tenta abandonar a antiga reputação, mas sua experiência pode ser necessária diante do perigo que se aproxima. Lunga (Silvero Pereira), procurado pelas autoridades, também pertence a esse universo. Escondido longe do centro do povoado, ele desperta admiração, receio e uma curiosidade difícil de conter.

A médica Domingas (Sônia Braga) ocupa outro lugar importante. Temperamental, dedicada e pouco interessada em agradar, ela atende os habitantes e enfrenta quem considera responsável pelos problemas locais. Sua presença ajuda a mostrar que aquela população não depende de um único líder. As decisões circulam entre moradores que conhecem a região, compartilham informações e sabem guardar seus recursos.

A cidade desaparece dos mapas

O desaparecimento digital muda o alcance da ameaça. O povoado continua fisicamente no mesmo lugar, com suas casas, ruas e habitantes, mas deixa de existir para quem procura sua localização pela internet. A tecnologia reconhece o território apenas para quem deseja observá-lo de fora.

Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles revelam as informações aos poucos. Durante boa parte da história, Teresa, Pacote e os outros habitantes sabem tão pouco quanto o público. Essa escolha preserva o mistério e torna qualquer detalhe suspeito. Um veículo parado, um barulho distante ou uma pessoa desconhecida podem indicar algo maior, embora ninguém possua informações suficientes para agir com segurança.

A paisagem aberta do sertão aumenta a vulnerabilidade. Há espaço para enxergar longe, mas também existem muitos pontos de entrada. Os moradores dominam estradas, construções e esconderijos, enquanto os invasores dispõem de equipamentos modernos, armas e acesso à comunicação. A disputa nasce desse desequilíbrio entre dinheiro e conhecimento do território.

Um prefeito falando sozinho

Antes que a ameaça revele sua verdadeira dimensão, o prefeito Tony Júnior (Thardelly Lima) visita o povoado em busca de votos. Ele chega acompanhado por música, promessas, mantimentos e livros despejados sem cuidado. Falta apenas entregar aquilo que a população realmente pede, a água.

Os moradores recebem o político fechando portas e janelas. Tony continua falando para ruas praticamente vazias, tentando sustentar a pose diante de fachadas silenciosas. A cena tem uma graça amarga. Poucas coisas diminuem tanto uma autoridade quanto um discurso de campanha sem ninguém disposto a ouvir.

A rejeição também revela o grau de organização da comunidade. Tony possui cargo, veículo e recursos públicos, mas não controla a reação dos habitantes. Eles conhecem suas promessas e preferem desaparecer de sua vista. O político sai sem conquistar confiança, enquanto o bloqueio da água continua prejudicando as famílias.

Estrangeiros transformam moradores em alvos

A parte inicial de “Bacurau” mistura drama social, ficção científica e suspense. Depois, a história assume características de faroeste e filme de ação. A ameaça envolve estrangeiros armados, liderados por Michael (Udo Kier), que observam a região com superioridade e tratam vidas humanas dentro de uma lógica cruel.

Michael fala pouco e mantém uma postura fria, sustentada pela convicção de que possui controle sobre o lugar. Seus companheiros também acreditam que dinheiro, tecnologia e armamento garantem vantagem. O grupo, entretanto, conhece apenas o território visto por telas e equipamentos. Essa confiança ignora a memória preservada pelos habitantes e o conhecimento acumulado por gerações.

Os invasores enxergam pessoas vulneráveis onde existe uma comunidade preparada para reconhecer ameaças. Esse contraste sustenta a ação sem transformar os moradores em figuras idealizadas. Há medo, divergências e histórias pessoais difíceis, mas ninguém espera a chegada de um salvador vindo de fora.

A comunidade ocupa o centro

Teresa abre a história, porém não domina todos os acontecimentos. Pacote, Lunga, Domingas e os demais habitantes dividem a atenção. “Bacurau” trabalha com um elenco numeroso porque seu personagem central é o próprio povoado. A sobrevivência depende da comunicação entre pessoas diferentes, não do talento extraordinário de uma única figura.

Essa escolha também impede que o sertão seja usado apenas como cenário exótico. O povoado possui vida social, afetos, festas, rivalidades, sexualidade e memória política. Seus moradores não são retratados como vítimas passivas esperando compaixão. Eles observam, compartilham informações e se preparam para proteger suas casas.

A violência ocupa espaço importante e surge de maneira brutal, mas permanece ligada ao risco vivido pelos personagens. Mendonça Filho e Dornelles não suavizam a ameaça nem transformam a reação dos habitantes numa aventura confortável. Quando o perigo cerca as entradas, Teresa, Pacote, Lunga e seus vizinhos precisam decidir quanto estão dispostos a perder para continuar existindo no próprio território.

“Bacurau” combina ação, aventura, drama e ficção científica com uma história compreensível mesmo para quem não procura interpretações políticas. Uma cidade foi apagada do mapa, homens armados se aproximam e os moradores precisam sobreviver. Antes que os invasores assumam o controle, a população fecha as portas, vigia os caminhos e usa a vantagem de conhecer cada pedaço daquele lugar.


Filme: Bacurau
Diretor: Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho
Ano: 2019
Gênero: Ação/Aventura/Drama
Avaliação: 4.5/5 1 1
Leia Também