Discover

Criminosos envelhecem de modo particularmente incômodo. As mãos continuam firmes, o revólver permanece ao alcance, os inimigos ainda lembram seus nomes, embora o corpo comece a cobrar juros por cada noite maldormida e cada cadáver deixado numa vala. Charlie Swift conhece essa contabilidade. Há vinte anos, ele atua como faz-tudo e matador de aluguel de Stan Mullen, veterano chefão de uma quadrilha instalada no sul dos Estados Unidos. A rotina sofre um abalo quando Blade, um jovem bandido que parece ter aprendido o ofício assistindo a desenhos animados, coloca uma bomba numa caixa de rosquinhas e explode Rollo Kramer com eficiência tamanha que a cabeça da vítima desaparece. Sem rosto, não há confirmação do serviço; sem confirmação, não há pagamento. Phillip Noyce abre “Charlie em Ação” com esse humor mórbido, usando a carnificina como apresentação de um mundo no qual matar é simples e preencher os requisitos burocráticos do assassinato pode ser uma desdita.

Escrito por Richard Wenk a partir de “Gun Monkeys”, romance policial publicado por Victor Gischler em 2001, o longa corre por noventa minutos e conserva a urgência de uma história que parece recear qualquer pausa. Charlie precisa provar que o homem sem cabeça é Rollo, atravessa ferros-velhos, casas de criminosos e esconderijos improvisados, enquanto um ataque conduzido por Beggar Mercado destroça a velha organização de Stan. Noyce não oferece muita espessura a esse submundo, limitando-se a meia dúzia de gângsteres de ternos baratos, capangas impacientes e mulheres que sabem onde os homens esconderam os documentos comprometedores. Essa economia beneficia o andamento e prejudica o antagonista, vivido por Gbenga Akinnagbe com uma ferocidade que o roteiro anuncia diversas vezes e raramente põe à prova. Beggar deveria ser uma fera; na tela, passa longos trechos esperando que Charlie apareça para resolver o filme.

Morena Baccarin entra no jogo

A solução para o primeiro imbróglio atende pelo nome de Marcie Kramer, ex-mulher de Rollo e taxidermista, atividade que lhe confere uma familiaridade providencial com cadáveres, facas e homens decompostos por dentro. Morena Baccarin impede que Marcie se transforme na mocinha transportada de um tiroteio para outro. Ela observa Charlie com a cautela de quem reconhece um assassino educado e sabe que boas maneiras nunca impediram ninguém de puxar o gatilho. Entre os dois há uma atração conduzida sem pressa, feita de ironias, recusas e pequenos testes de confiança. Pierce Brosnan entende que seu personagem sobreviveria menos pela força física que pela capacidade de entrar num ambiente, avaliar as saídas e convencer o adversário de que já venceu. O antigo charme de James Bond aparece envelhecido, mais seco e ligeiramente melancólico, acompanhado por um sotaque errante que às vezes parece ter atravessado Irlanda, Mississippi e Louisiana na mesma frase. Ainda assim, Brosnan sustenta o filme com aquela elegância interna dos atores que já não precisam levantar a voz para ocupar o quadro.

A despedida de James Caan

James Caan surge como Stan Mullen em sua última atuação para o cinema, e a fragilidade física do ator acrescenta ao personagem o que o texto não conseguiria fabricar. Stan é um velho criminoso cercado por lembranças, comprimidos e homens cada vez menos confiáveis, mantendo junto de si Charlie, talvez o único sujeito naquela casa capaz de distinguir lealdade de submissão. Caan aparece pouco, sentado quase sempre, o rosto já marcado pela doença e pelos anos, conservando no olhar a autoridade de Sonny Corleone e Frank, personagens que fizeram de sua carreira uma longa meditação sobre homens incapazes de escapar da própria natureza. Quando Stan e Charlie conversam, “Charlie em Ação” encontra sua melhor frequência. A violência diminui, as falas ficam menos engraçadinhas e percebe-se que aquela parceria foi construída durante décadas de serviços impublicáveis, refeições silenciosas e favores cuja cobrança nunca precisou ser mencionada.

Noyce não tenta transformar Charlie num filósofo armado, ainda que a narração em primeira pessoa insista em conferir alguma solenidade a seus movimentos. O diretor prefere o filme policial dos anos 1990, com carros destruídos, pistolas discretas, criminosos extravagantes e um protagonista que atravessa o perigo sem amassar demais o paletó. Há lugares-comuns, atalhos e coincidências que chegam antes da polícia, e a ação jamais alcança a brutalidade prometida pelo título. A leveza, a duração enxuta e a parceria entre Brosnan e Baccarin preservam o interesse quando o enredo começa a repetir seus truques. “Charlie em Ação” vale por esse assassino veterano que limpa o sangue dos sapatos, ajeita a camisa e segue em frente, consciente de que no seu ramo ninguém consegue ser rápido o bastante para fugir do passado.


Filme: Charlie em Ação
Diretor: Phillip Noyce
Ano: 2023
Gênero: Ação/Crime/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
Leia Também