O que a História reserva para o jornalismo? Num cenário marcado pelos frenéticos avanços da tecnologia, a imprensa tradicional enfrenta o desafio de manter sua credibilidade enquanto percebe que tem de reinventar-se diante das muitas novas maneiras de como a informação é produzida e chega ao público. A velocidade das redes sociais faz pouco de fundamentos primários do bom jornalismo como a boa e velha apuração, e há quem caia na besteira de querer competir com a insânia dos algoritmos. “O jornalismo importa, p.!”, diz Andrea Sachs, a protagonista de “O Diabo Veste Prada 2”, como parte do discurso de agradecimento pelo prêmio de melhor reportagem de uma associação corporativa. Segundos antes, nossa heroína ficara sabendo por mensagem de texto que ela e os colegas de redação haviam sido sumariamente defenestrados de seus postos num jornal cujo diretor recebera milhões de dólares, o que a leva de volta à… “Runway”. Essa decerto é a grande sacada para explicar o reencontro de Andy e Miranda Priestly num dos filmes mais tediosos da história do cinema. David Frankel bem que tenta repetir o sucesso de 2006, mas vinte anos não são vinte dias.
Aclamação antes, forçação agora
Mais uma vez, a adaptação do best-seller de Lauren Weisberger coube a Aline Brosh McKenna, que conhece os atalhos para alcançar o coração dos fãs. Mais uma vez, nostalgia é a alma do negócio, e Frankel trata de logo reunir os personagens centrais de andamento irregular, ora lento demais, ora frenético como o anterior (o que deveria ter prevalecido). Antes de aceitar a oferta de recolocação profissional na galeria de Lily, a melhor amiga vivida por Tracie Thoms, Andy parecia já ter claro que seu destino era mesmo regressar ao purgatório da Avenida das Américas, não na Barra da Tijuca, mas entre as ruas 48 e 49 de Manhattan. Na sede do escritório da “Runway”, a ex-segunda assistente da bruxa platinada recebe uma sala oprimente e cheia de entulho e aos poucos as duas começam a se cruzar, definindo o plano para salvar a revista. Uma lambança da editora-chefe pode ser a pá de cal que faltava para enterrar a publicação de uma vez por todas, e Andy está lá só para isso. Ninguém se assusta ao saber que a “Runway” há algum tempo já não é propriamente uma revista e continua só na internet, mas quem poderia dizer que Miranda seria obrigada a pendurar ela mesma o casaco e abandonar o execrável costume de jogar a bolsa na mesa de suas Emilies?
A maldição das franquias
Anne Hathaway e Meryl Streep são motivos o bastante para entusiasmar-se por um filme — e tanto mais se juntas —, mas se “O Diabo Veste Prada 2” desperta em quem assiste qualquer coisa de épico, a sensação de obsolescência não é menos vistosa. A propósito, por que Andy continua tão submissa a Miranda? Prefiro “Avenida Brasil”.

