Frank Costello aparece diante de um garoto numa mercearia de Boston e lhe oferece pão, dinheiro e um destino. A generosidade é apenas a primeira parcela de uma dívida que Colin Sullivan pagará durante toda a vida, infiltrado na Polícia Estadual de Massachusetts e promovido justamente para investigar o homem que o criou. Do outro lado, Billy Costigan aceita desaparecer dentro da quadrilha de Costello, carregando no sobrenome uma história familiar que o torna convincente entre traficantes e assassinos. Martin Scorsese coloca esses dois homens em corredores paralelos, cada qual procurando o inimigo que ocupa sua própria posição. “Os Infiltrados”, lançado em 2006, transpõe para o sul de Boston a estrutura do thriller de Hong Kong “Conflitos Internos”, de Andrew Lau e Alan Mak.
Colin cresce protegido por Costello, entra para a polícia, compra um apartamento com vista para a cúpula dourada da Casa Estadual e aprende a falar como um cidadão acima de qualquer suspeita. Matt Damon imprime ao personagem uma segurança lisa, sem arestas, que começa a falhar nos instantes privados. Billy vem de uma família dividida entre bairros ricos e parentes ligados ao crime, circunstância explorada pelo capitão Queenan e pelo sargento Dignam para convertê-lo em agente clandestino. Leonardo DiCaprio encarna o desgaste desde as primeiras reuniões. Billy rói as unhas, engole comprimidos, dorme mal e perde aos poucos a capacidade de distinguir o trabalho da personalidade inventada para sobreviver.
Scorsese e o roteirista William Monahan organizam a trama por telefones, envelopes, números apagados e encontros em lugares onde ninguém permanece por muito tempo. Uma operação para capturar Costello fracassa porque Colin avisa a quadrilha, enquanto Billy transmite à polícia os movimentos do grupo. A descoberta de que existe um informante nos dois lados transforma cada conversa em interrogatório. A montagem de Thelma Schoonmaker alterna as diligências de modo que o espectador tenha informação suficiente para temer pelos protagonistas, nunca o bastante para prever quem cometerá o próximo erro.
O império vulgar de Costello
Jack Nicholson dá a Costello uma obscenidade quase festiva. Ele surge coberto de sangue, brinca com mãos decepadas, desenha figuras indecentes e testa seus homens com histórias cuja finalidade muda enquanto são contadas. A composição ameaça sair do filme algumas vezes, sobretudo quando o ator parece divertir-se mais que o personagem, embora a vulgaridade tenha função precisa. Costello domina porque transforma qualquer ambiente em extensão de seus apetites. Ray Winstone, como Mr. French, oferece o contraponto seco de quem mata sem precisar fazer espetáculo.
Queenan constitui a rara autoridade cuja decência não soa decorativa. Martin Sheen fala baixo com Billy e tenta conservar algum limite ético numa operação que depende de destruir a vida do subordinado. Dignam faz o contrário. Mark Wahlberg converte cada frase numa agressão e atravessa as reuniões como um cão que desconfia de todos, o único instinto adequado a uma instituição já contaminada. Alec Baldwin, na pele de Ellerby, extrai humor da vaidade policial, discursando sobre casamento, carreira e masculinidade enquanto Colin continua a entregar informações a Costello de dentro da unidade criada para prendê-lo.
Madolyn Madden liga os dois infiltrados sem conhecer a dimensão da coincidência. Ela vive com Colin e atende Billy como psicóloga, percebendo em um a ausência de qualquer vulnerabilidade verdadeira e, no outro, um sofrimento que excede os limites de uma consulta. Vera Farmiga dá espessura a uma personagem que o roteiro usa com frequência como passagem entre os homens. Quando Madolyn encontra as gravações que comprovam a ligação de Colin com Costello, o drama poderia finalmente deslocar-se para ela; Scorsese prefere mantê-la como testemunha da ruína masculina. É uma limitação séria num filme tão atento às máscaras dos outros personagens.
Elevadores, telhados e portas abertas
Billy descobre a identidade de Colin, Colin percebe que Billy esteve dentro da quadrilha e o enredo entra numa sequência de elevadores, telhados e corredores em que a morte chega sem preparação cerimoniosa. Scorsese elimina personagens com uma brusquidão que transforma a investigação num expurgo. Há algo excessivamente calculado na sucessão de tiros, ainda que Schoonmaker preserve a desorientação e faça cada porta aberta parecer uma ameaça.
“Os Infiltrados” venceu os Oscars de Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Montagem. Depois de cinco indicações anteriores como diretor, Scorsese recebeu sua primeira estatueta, entregue por Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas. A consagração tardia poderia reduzir o longa a uma reparação da Academia, interpretação preguiçosa diante da energia, da violência e do controle narrativo que sustentam seus 151 minutos.
No apartamento de Colin, Dignam conclui o serviço que a polícia não conseguiu realizar. Logo depois, um rato atravessa a varanda diante da cúpula dourada, símbolo tão óbvio que quase insulta a sutileza das duas horas anteriores. Ainda assim, o exagero pertence ao filme. Em Boston, policiais servem a criminosos, criminosos colaboram com autoridades e homens passam anos representando papéis que terminam por devorá-los. A cidade permanece à janela, solene e indiferente, depois que todos os infiltrados saem de cena.

