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Entre Nova York e os ambientes luxuosos de uma família bilionária, “Manual Prático da Vingança Lucrativa” acompanha Becket Redfellow (Glen Powell), um vendedor de ternos que decide eliminar os parentes que o separam de uma herança de US$ 28 bilhões. John Patton Ford dirige essa mistura de comédia sombria, drama e suspense, na qual o ressentimento de um filho rejeitado ganha contornos criminosos. Becket acredita que apenas recupera aquilo que lhe foi roubado antes mesmo de nascer.

A história começa quando Becket aguarda a execução no corredor da morte e recebe a visita do padre Morris (Adrian Lukis). Em vez de procurar perdão, ele relata os acontecimentos que o levaram à prisão. Sua calma indica que o protagonista ainda se vê como vítima, apesar da longa lista de crimes. A conversa com o sacerdote antecipa que o plano fracassou em algum ponto, mas preserva a dúvida sobre qual erro colocou o herdeiro atrás das grades.

Uma infância marcada pela rejeição

Becket foi criado por Mary Redfellow (Nell Williams), mãe solo afastada da família após engravidar na adolescência. Embora tenha crescido distante da fortuna dos Redfellow, ele sempre soube que uma brecha no testamento poderia transformá-lo em herdeiro. Mary alimenta essa expectativa ao dizer que o filho deve lutar pela vida que merece. A frase permanece com ele durante anos e acaba usada como licença moral para atos que a mãe provavelmente jamais aprovaria.

Na infância, Becket também conhece Julia Steinway (Margaret Qualley), garota rica que representa o mundo ao qual ele deseja pertencer. Os dois seguem caminhos diferentes, mas voltam a se encontrar na vida adulta. Julia está casada, enquanto Becket trabalha vendendo ternos caros para homens que possuem o dinheiro que ele apenas observa. Pouco depois, perde espaço na loja para o filho do proprietário, favorecido pelo parentesco. A ironia é cruel. Becket sofre outra derrota provocada pela mesma lógica familiar que sempre o manteve longe dos Redfellow.

É nesse período que ele abandona a resignação e transforma a árvore genealógica numa lista de alvos. Seus parentes vivem protegidos por casas enormes, empregados, empresas e hábitos reservados. Becket possui pouco dinheiro, nenhum acesso formal e uma aparência respeitável, recurso que passa a usar com surpreendente eficiência. Glen Powell aproveita seu conhecido carisma para criar um assassino educado, vaidoso e perigosamente confortável dentro de um bom terno.

Os parentes saem do caminho

Taylor Redfellow (Raff Law) é um dos primeiros parentes observados por Becket. A aproximação ocorre durante uma festa frequentada por jovens ricos, cenário no qual o protagonista circula sem chamar muita atenção. Após a morte suspeita do primo, ele comparece ao funeral e conhece Warren Redfellow (Bill Camp), pai de Taylor. O encontro produz um resultado inesperado. Warren lamenta a maneira como Mary foi tratada e oferece ao sobrinho a vaga que pertencia ao filho.

O emprego coloca Becket dentro da empresa de investimentos da família. Antes rejeitado até nas portas da mansão, ele passa a frequentar escritórios, reuniões e ambientes reservados aos Redfellow. Warren o recebe com uma generosidade que compromete a divisão confortável entre vítimas e culpados. Bill Camp oferece dignidade ao personagem e cria uma relação afetuosa com Powell, tornando o plano mais incômodo quando o criminoso descobre que alguns parentes podem tratá-lo melhor do que esperava.

Outros nomes entram no caminho da herança. Noah Redfellow (Zach Woods) trabalha como fotógrafo e vive com Ruth (Jessica Henwick), mulher que desperta o interesse de Becket. Steven Redfellow (Topher Grace) atua como pastor, enquanto Whitelaw Redfellow (Ed Harris), avô do protagonista, permanece no topo da família. Cada integrante possui hábitos, espaços e fraquezas próprios. Becket estuda essas rotinas e prepara mortes com a dedicação de um funcionário que deseja ser promovido, embora seu departamento de recursos humanos seja o cemitério.

Ruth e Julia cercam Becket

Ruth conhece Becket durante uma visita relacionada a Noah e passa a enxergar nele um homem gentil, trabalhador e distante da arrogância dos Redfellow. A relação cresce enquanto os crimes continuam. Jessica Henwick oferece serenidade à personagem, mas não a transforma em figura ingênua. Ruth observa mudanças, ausências e coincidências que ameaçam a versão cuidadosamente apresentada pelo namorado. Quanto mais Becket se aproxima dela, maior se torna o risco de perder a única vida que não depende da herança.

Julia exerce uma influência diferente. Ela conhece a pobreza da infância de Becket, recorda sua obsessão pelos Redfellow e percebe quanto dinheiro pode circular ao redor daquela sequência de mortes. Margaret Qualley interpreta a personagem com frieza elegante e certa diversão diante do perigo. Julia pede ajuda financeira, interfere nos planos do antigo amigo e preserva informações valiosas. Sua presença sugere que Becket talvez não seja a pessoa mais calculista daquela relação.

O contraste entre as duas mulheres oferece ao protagonista duas possibilidades. Ruth representa uma casa construída fora da família que o rejeitou. Julia mantém aberta a porta para o luxo, o poder e a vingança. Becket deseja os dois caminhos, embora seus crimes tornem essa conciliação cada vez menos provável. Powell trabalha bem essa contradição, sobretudo quando o personagem tenta preservar a aparência cordial enquanto vê sua vida afetiva ser cercada por suspeitas.

A investigação encurta sua liberdade

As mortes chamam a atenção de dois agentes federais, que abordam Becket e perguntam sobre sua ligação com a fortuna. Ele finge desconhecer a própria presença no testamento e responde com o autocontrole aprendido entre clientes ricos. O problema está na repetição. Parentes morrem, Becket cresce dentro da empresa e seu nome se aproxima do dinheiro. A investigação passa a reunir funerais, oportunidades profissionais e relações familiares que já não parecem coincidências isoladas.

Ford sustenta melhor a comédia quando Becket precisa improvisar identidades, entrar em lugares proibidos ou tratar crimes brutais com educação comercial. O riso nasce do contraste entre o plano absurdo e a seriedade do protagonista. Algumas mortes se aproximam da caricatura, enquanto certos parentes recebem pouco tempo para ganhar personalidade. Essa repetição enfraquece parte da surpresa, porém a presença de Powell mantém o personagem atraente mesmo quando sua justificativa perde força.

“Manual Prático da Vingança Lucrativa” avança com leveza suficiente para não afundar na crueldade de sua premissa. O roteiro também sabe que Becket precisa enfrentar algo mais ameaçador do que os agentes federais. Ele passa a conviver com pessoas capazes de usar dinheiro, afeto e informações contra seus planos. Ao se aproximar da mansão que sempre desejou ocupar, o herdeiro carrega uma fortuna ao alcance das mãos e uma quantidade crescente de provas apontadas em sua direção.


Filme: Manual Prático da Vingança Lucrativa
Diretor: John Patton Ford
Ano: 2026
Gênero: Comédia/Drama/Suspense
Avaliação: 3.5/5 1 1
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