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Nas noites de Buenos Aires, “Abutres”, dirigido por Pablo Trapero, acompanha o advogado Sosa (Ricardo Darín) e a médica Luján (Martina Gusmán), dois profissionais que se cruzam durante o atendimento a uma vítima de trânsito. Ela tenta salvar o ferido, enquanto ele deseja transformá-lo em cliente de um escritório dedicado a indenizações. A aproximação nasce dessa diferença moral e ganha força porque os dois carregam o cansaço de trabalhos que já consumiram boa parte de suas escolhas.

O roteiro parte de um cenário conhecido na Argentina, onde milhares de mortes no trânsito alimentam pagamentos de seguros, fraudes e disputas judiciais. Entre hospitais públicos, delegacias e ruas mal iluminadas, há sempre alguém disposto a ganhar dinheiro antes que a família consiga assimilar a tragédia. Trapero acompanha esse comércio pela rotina de seus protagonistas, sem interromper a história para dar aulas sobre corrupção. O que importa está nas ações, nos documentos oferecidos e na pressa para chegar primeiro.

Uma profissão alimentada por acidentes

Sosa ronda pronto-socorros e locais de colisão em busca de pessoas que ainda mal sabem o que aconteceu. Sem licença para exercer a advocacia, ele trabalha para uma firma que promete indenizações elevadas, desconta comissões e mantém contatos com diferentes autoridades. Um rádio instalado no carro informa novos acidentes e permite que ele apareça antes de outros intermediários. Seu emprego depende da dor alheia, mas Ricardo Darín recusa a interpretação mais simples do sujeito sem escrúpulos.

Darín oferece a Sosa uma cordialidade discreta, quase administrativa. Ele fala com vítimas e parentes usando a calma de quem apresenta um serviço comum, embora seu lucro dependa de sangue, medo e confusão. Essa educação torna o personagem mais incômodo, pois revela experiência e certa vergonha pelo papel que desempenha. Sosa conhece os atalhos do negócio e também sabe quanto custa tentar abandoná-los. Quanto mais deseja sair, menor fica sua margem para escolher outro caminho.

A médica no limite do plantão

Luján veio do interior do país e tenta conquistar espaço profissional em Buenos Aires. Seus plantões atravessam a madrugada entre ambulâncias, corredores lotados e hospitais que nem sempre aceitam os pacientes levados por ela. O desgaste físico ocupa todos os cantos de sua rotina. Para suportar as horas acordada, a médica usa anestésicos e passa a depender deles, problema tratado com sobriedade por Martina Gusmán.

Gusmán mantém Luján atenta diante dos feridos, mas deixa o esgotamento aparecer nos silêncios e na dificuldade de descansar. Ela sabe o que precisa fazer durante um resgate, embora tenha pouco domínio sobre a própria vida fora do trabalho. Essa contradição aproxima a médica de Sosa. Ambos passam as noites cercados por vítimas, porém ocupam lados opostos da mesma ocorrência. Ela luta por uma vaga hospitalar, enquanto ele procura uma assinatura.

Um romance cercado por sirenes

Sosa e Luján se conhecem quando chegam ao mesmo acidentado com interesses incompatíveis. Os reencontros em hospitais e ruas aproximam os dois, apesar da desconfiança provocada pelo trabalho do advogado. A relação cresce entre telefonemas, plantões e interrupções, sem transformar o afeto em cura para problemas antigos. Cada tentativa de intimidade precisa disputar espaço com uma ambulância, um novo cliente ou outra madrugada sem descanso.

O romance acrescenta sensibilidade ao suspense porque nasce entre duas pessoas cansadas demais para sustentar qualquer idealização. Sosa vê em Luján a possibilidade de deixar a firma. Ela percebe nele uma atenção ausente em seu cotidiano profissional, mas passa a conviver com os riscos trazidos por esse vínculo. Darín e Gusmán trabalham a aproximação com gestos contidos. Um olhar desconfiado ou uma pausa antes da fala informa mais do que uma declaração apaixonada.

O chefe que impede a saída

El Perro (Carlos Weber) comanda o escritório e não aceita perder um funcionário que conhece seus contatos, valores e procedimentos. Quando Sosa anuncia o desejo de abandonar o trabalho, a firma aumenta a pressão e transforma sua experiência em ameaça. Os mesmos acessos que antes abriam portas em hospitais e delegacias passam a mantê-lo preso ao negócio. Sosa precisa proteger Luján enquanto tenta recuperar algum controle sobre a própria vida.

Carlos Weber interpreta El Perro sem excesso de gestos ou voz. A autoridade do personagem vem da certeza de que todos ao redor dependem de seus recursos. Ele conhece a fragilidade profissional de Sosa e usa essa informação para limitar suas escolhas. Essa disputa empurra a história para o terreno do suspense criminal, no qual abandonar um emprego pode ser mais perigoso do que permanecer nele.

A câmera permanece junto aos feridos

Trapero mantém a câmera perto das vítimas, dos médicos e dos homens que procuram lucrar com cada ocorrência. Os procedimentos hospitalares têm sangue, esforço e demora. A espera por atendimento ocupa tempo suficiente para que o público perceba o cansaço dos profissionais e a vulnerabilidade dos pacientes. Quando Sosa aborda uma família, a montagem preserva o desconforto entre a promessa de indenização e a assinatura dos documentos.

Essa proximidade dá peso ao drama e transforma corredores, ambulâncias e delegacias em partes do mesmo ambiente sufocante. Alguns trechos carregam tantas ameaças que o destino dos personagens fica previsível, mas Trapero preserva a tensão ao manter as escolhas ligadas ao dinheiro, ao trabalho e ao tempo disponível. “Abutres” ganha força ao colocar romance e crime dentro da mesma madrugada. Quando a sirene toca, Luján corre para salvar uma vida e Sosa precisa decidir se ainda correrá atrás do contrato.


Filme: Abutres
Diretor: Pablo Trapero
Ano: 2010
Gênero: Crime/Drama/Romance/Suspense
Avaliação: 4/5 1 1
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