Filmes não saem do papel sem o concurso de muita gente. São técnicos de som, de luz, maquiadores, cabeleireiros, camareiros, eletricistas, motoristas, produtores, roteiristas, atores e, por fim, os tão necessários diretores. O que seria da arte cinematográfica sem o gênio deles? No que toca ao realismo no cinema americano, Elia Kazan (1909–2003) foi um poeta. Personagens às voltas com questões que desafiam a lógica do banal sempre tiveram destaque na obra do cineasta, um farol para quem veio depois. A história verídica de um homem que denunciou os malfeitos de uma associação de estivadores virou “Sindicato de Ladrões”, uma das tantas obras-primas de Kazan, hábil em remexer o lodo do mundo e nele achar beleza — mesmo que seu otimismo às vezes acabe por ser maior que a vida como ela é.
Sem peso na consciência
Terry Malloy é uma espécie de consciência crítica da América, e enredos como este dispõem sempre de uma boa dose das convicções do próprio artista, ávido por erguer o tapete e dele tirar a falsidade. Nessa missão, Kazan conta com o roteiro obsessivamente minucioso de Malcolm Johnson (1904-1976), Robert Siodmak (1900-1973) e Budd Schulberg (1914-2009), atentos ao vaivém dos cais de Nova York e de Nova Jersey, onde almocreves reais sabiam bem como encarnar os anseios de uma gente esquecida, à mercê dos conluios dos que se arvoram em seus patronos. O Malloy de Marlon Brando (1924-2004) logo transcende a figura do sonhador, do ex-pugilista que ousa nocautear a bandidagem, para ser um alter ego do diretor. Elia Kazan é certeiro ao aliar bravura e amor à verdade.

