Mulheres podem se expressar da forma como bem entenderem — desde que seja aquela imaginada, e, o principal, aceita pelos homens. Quando rompem essa lógica, elas são difíceis, inconvenientes, histéricas. Espera-se que sejam firmes, mas não autoritárias; delicadas, mas não frágeis; independentes, mas nunca a ponto de ameaçar os tantos poderes masculinos. Esses paradoxos concorrem para os mecanismos de uma autocensura que nunca arrefece e que relativiza a exclusão e os abusos, cenário ideal de uma tirania que logo acha seus patronos. Volker Schlöndorff foi um dos primeiros a ler as entrelinhas de “O Conto da Aia” (1985), distopia sobre o patriarcado em sua natureza mais feroz e deletéria, finalmente incorporado à política. “A História de Uma Serva”, sua adaptação do romance neoapocalíptico da canadense Margaret Atwood, fala de uma sociedade especialmente habilidosa em suprimir os direitos das mulheres, subjugando-as sob o tacão de um regime teocrático. Aquele futuro já é presente.
Medo e delírio em Gilead
Numa pena que mescla lirismo e frieza, Atwood denuncia a violência silenciosa das instituições de uma certa República de Gilead, que poderia ser chamada também de Irã, Coreia do Norte, Cuba ou Brasil. Kate, a angustiada narradora, acaba prisioneira em Gilead, onde encontra outras várias de mulheres na mesma situação, escravizadas e forçadas a gestar a nova descendência da elite, indiferente a tudo quanto não dissesse respeito a seus apanágios. O texto de Harold Pinter (1930-2008) concentra-se na protagonista como catalisadora de uma resistência calculada, perscrutando meios de escapar da dominação até dar-se conta de que seu corpo pode ser sua arma mais poderosa. Metamorfoseada em Offred a contragosto, Kate, a exemplo de Penélope em “A Odisseia”, urde uma revolta sibilina contra seus verdugos, e Natasha Richardson (1963-2009), selvagem e cândida, segura os lances trágicos e eróticos. Com “O Conto da Aia”, Margaret Atwood erigiu um monumento à liberdade em seu conceito mais elementar, partindo dele para elaborações bem mais sofisticadas e herméticas, que até passam batidas em meio à insânia deste tempo. Volker Schlöndorff soube espalhar muito bem a mensagem.

