O amor só pode resistir graças à capacidade de se entender as tantas imperfeições do outro. Amar é reconhecer que até a promessa mais bem-intencionada corre o risco de perder-se na bruma corrosiva do tempo, murcha depois de uma sucessão de rotinas extenuantes. Silêncios, mágoas e frustrações cavam precipícios em cujas bordas dançamos, ignorando nossos limites, mas a vida é, inúmeras vezes, as circunstâncias em que simplesmente não conseguimos determinar com a devida exatidão até onde temos de ir. “Por Trás dos Seus Olhos” é a sofisticada tentativa de Marc Forster quanto a refletir acerca das dependências que vão minando uma relação, por mais genuíno que seja o afeto. Forster e o corroteirista Sean Conway iluminam os anseios de uma mulher vulnerável que deixa a escuridão de um sonho interminável e acorda, deparando-se com barreiras mais concretas.
A lente distorcida do amor
Gina mora na Tailândia com o marido, James, mas aos poucos o espectador sente que seu alheamento deve-se ao que o título insinua. Forster vale-se de lentes distorcidas e elaborados movimentos de câmera que simulam o desconforto da protagonista, portadora de uma deficiência visual que a mantém numa estranha sujeição ao marido, também ele meio desconfortável com o grude. Flashbacks dispostos ao longo do filme revelam que ela ficou quase cega depois do acidente de carro no qual os pais morreram, detalhe cuja relevância permanece mesmo depois da cirurgia que devolve-lhe parte da visão. No segundo ato, uma viagem à Espanha guarda mais algumas surpresas para Gina e James, que a essa altura vem tentando ter um filho. Como se estivessem condenados a uma sentença misteriosa, o bebê nunca vem, e esse é o gancho usado pelo diretor para voltar às perversões conjugais, momento em que Blake Lively e Jason Clarke trocam de lugar e compensam a irregularidade do roteiro.

