A classe média goza do estranho privilégio de sobreviver ao apocalipse para quitar boletos. Para esses incansáveis lutadores, o fim do mundo pode ser uma demissão inesperada, que por seu turno leva a pilhas de contas crescendo e pressagiando a decadência. Avanços tecnológicos, globalização, inteligência artificial e aperfeiçoamento da medicina anunciavam um tempo de mudanças que brindariam o cidadão comum com mais oportunidades e vidas mais longevas; entretanto, como sói acontecer, as portas estreitas desse paraíso mantiveram-se cerradas para aqueles que precisam fazer milhões de cálculos para concluir o mês, parte do que Jeff Nichols relata em “O Abrigo”. Tipos estoicos são uma das obsessões do diretor, que vale-se de uma metáfora grandiloquente para iluminar os meandros do espírito de um homem reto, acossado por novos e velhos fantasmas.
O fim do mundo é um estado da alma
Em todo o mundo, há mais de 720 milhões de indivíduos com algum transtorno psiquiátrico, cerca de 10% da população da Terra hoje. Depressão, síndrome do pânico, crises de ansiedade, ideação suicida e outros tantos males do espirituais infernizam gente abastada e supostamente bem-resolvida, a despeito de tudo quanto essas pessoas façam para não soçobrar no lago cinzento da tristeza clínica. Todo o cuidado é pouco para não ser o próximo, e tanto pior se a rotina cobra dedicação integral, exigindo que um pai de família desdobre-se em vários para atender às necessidades dos seus. Essa é a agonia de Curtis LaForche, um faz-tudo da construção civil que parece estar colapsando. Curtis começa a ter visões que levam-no a querer criar o tal refúgio, preocupação doentia cujo fundamento Nichols detalha após o longo estudo de personagem de Michael Shannon, num de seus melhores trabalhos, bom o suficiente para dispensar efeitos especiais e quaisquer outras invencionices do enredo.

