Discover

O medo perde parte de sua força quando recebe nome, diagnóstico e hora marcada para atacar. Deon Taylor parece ignorar esse princípio em “Medo”, terror de 2023 que reúne um grupo de amigos numa pousada histórica nas montanhas de Tahoe, em plena pandemia, e faz cada personagem declarar sua fobia diante de uma fogueira. Dali em diante, basta esperar que a água procure quem teme se afogar, o sangue encontre quem não suporta vê-lo e as paredes se fechem sobre o claustrofóbico. Filmado sob as restrições da covid-19, o longa de 98 minutos traz Joseph Sikora, Annie Ilonzeh, Andrew Bachelor, Ruby Modine, Iddo Goldberg, Terrence Jenkins, Jessica Allain e Tip “T.I.” Harris.

Rom, o protagonista de Sikora, é um escritor de terror bem-sucedido que também vende ao público fórmulas motivacionais para dominar a ansiedade. Ele leva Bianca, a namorada vivida por Annie Ilonzeh, ao Strawberry Lodge com a intenção de pedi-la em casamento, perde a coragem na hora decisiva e disfarça o recuo ao revelar que convidou os amigos para comemorar o aniversário dela. A chegada do grupo dá ao lugar uma vitalidade passageira. Benny, encarnado pelo comediante Andrew Bachelor, faz graça; Lou observa tudo com a segurança do sujeito que se considera imune a superstições; Michael, Kim, Serena e Meg ocupam os quartos sem atentar para os quadros, os corredores estreitos e a anfitriã que oferece um vinho cercado de maus presságios.

Taylor e o corroteirista John Ferry encontram uma boa ideia na convergência entre o pânico da pandemia e a história maldita da pousada. Notícias sobre uma ameaça transmitida pelo ar chegam pelos celulares, as portas são trancadas e ninguém sabe se deve temer o mundo exterior ou as presenças dentro do prédio. A atmosfera de contágio permite que qualquer tosse adquira gravidade, e a fotografia de Christopher Duskin cobre o hotel com amarelos doentios, verdes escuros e sombras que parecem guardar alguma umidade antiga. Geoff Zanelli reforça a inquietação com uma trilha que pulsa antes das aparições e frequentemente anuncia os sustos com antecedência excessiva.

A fogueira entrega o jogo

O encontro em torno da fogueira liquida boa parte desse trabalho. Rom propõe que todos revelem aquilo que mais temem, numa dinâmica que poderia existir num seminário de autoajuda ou numa reunião de roteiristas sem tempo para desenvolver personagens. Cada confissão funciona como uma etiqueta. A pessoa deixa de ter história, desejo ou comportamento próprio e passa a ser “a que teme sangue”, “o que sofre em espaços fechados”, “a que tem medo de se afogar”. Quando a pousada começa a materializar essas fobias, o espectador já sabe quem será perseguido, por qual imagem e em que tipo de cenário.

Sikora sustenta Rom com a autoridade nervosa de um homem acostumado a orientar os outros e incapaz de aplicar o próprio discurso. Annie Ilonzeh encontra em Bianca um pouco mais de espessura, sobretudo nas crises respiratórias em que a asma e o pavor de perder a fé se confundem. Bachelor oferece algum alívio cômico sem transformar Benny num completo palhaço, façanha considerável diante dos diálogos que recebe. O elenco restante luta contra personagens escritos para morrer de maneira associada a uma informação fornecida poucos minutos antes.

A pousada funciona melhor que os monstros

As melhores sequências recorrem ao espaço físico da pousada. Corredores dobram sobre si mesmos, quartos parecem menores a cada corte, portas conduzem a lugares diferentes e uma pintura traz a inscrição latina “Nolite timere”, “não tenha medo”, provocação que seria mais eficaz se o roteiro não a explicasse. Taylor demonstra talento para compor imagens, especialmente quando a água invade o ambiente ou quando uma personagem vê o sangue espalhar-se onde não deveria existir. O susto perde vigor no momento em que a montagem repete rostos apavorados, ruídos estridentes e criaturas digitais de acabamento irregular.

Na metade final, “Medo” tenta abrigar um filme de contágio, uma história de bruxaria, uma casa assombrada e um sermão sobre os perigos de alimentar pensamentos negativos. Nenhuma dessas linhas recebe espaço suficiente para dominar o enredo. A pousada poderia funcionar como uma entidade capaz de encontrar a rachadura íntima de cada hóspede, ideia já poderosa por si. Taylor insiste em explicar a maldição, introduzir símbolos religiosos e transformar a pandemia numa ameaça paralela, enchendo os quartos até que o ar falte também à história.

O título promete uma emoção que o filme raramente produz. Há atmosfera, um cenário bem escolhido e atores empenhados, especialmente Ilonzeh e Sikora. Falta o que Rom recomenda aos amigos, coragem para encarar o desconhecido sem convertê-lo depressa numa palestra. No Strawberry Lodge, todos declaram seus temores antes da noite cair. Quando a escuridão chega, até os monstros já sabem o que devem fazer.


Filme: Medo
Diretor: Deon Taylor
Ano: 2023
Gênero: Suspense/Terror
Avaliação: 3/5 1 1
Leia Também