Há vozes que um filme preserva como documento, outras ele transforma em personagem. A de Hind Rajab já chega à tela carregando um peso que nenhuma atriz poderia reproduzir. Em 29 de janeiro de 2024, a menina palestina de seis anos permaneceu presa num carro atingido por disparos em Gaza, cercada pelos corpos de familiares, enquanto voluntários do Crescente Vermelho tentavam manter a ligação e conseguir autorização para enviar uma ambulância. Kaouther Ben Hania reconstrói essa espera em “A Voz de Hind Rajab”, produção tunisiano-francesa de noventa minutos que encerra toda a ação dentro do centro de atendimento e conserva o áudio verdadeiro da criança. Saja Kilani, Motaz Malhees, Clara Khoury e Amer Hlehel interpretam os socorristas que estiveram do outro lado da linha.
A diretora de “As Quatro Filhas de Olfa” compreende desde o primeiro plano que qualquer tentativa de ilustrar o horror enfraqueceria aquilo que se ouve. Não há tanques, soldados, cadáveres ou ruas devastadas, somente uma equipe diante de computadores, mapas, telefones e formulários. Rana, a supervisora interpretada por Kilani, procura manter uma serenidade profissional que vai rachando conforme as horas avançam. Omar, vivido por Malhees, deixa a raiva subir até o rosto e torna-se o porta-voz da indignação que a instituição precisa conter para continuar funcionando. Mahdi, o coordenador de Amer Hlehel, recebe a ingrata incumbência de repetir que a ambulância não pode partir sem a autorização exigida pelos protocolos de guerra. Nisreen, de Clara Khoury, tenta impedir que todos se desfaçam antes que Hind seja alcançada.
A burocracia do outro lado da linha
Ben Hania transforma a burocracia em antagonista sem precisar dar-lhe um rosto. O inimigo aparece no telefone que não é atendido, na confirmação que nunca chega, no mapa sobre o qual a distância entre a criança e a ambulância parece pequena demais para justificar a demora. Cada nova ligação renova a esperança e também aumenta a percepção de que os socorristas estão submetidos a uma engrenagem concebida para imobilizá-los. A sala envidraçada, iluminada por lâmpadas frias, vai adquirindo a aparência de uma cela onde gente treinada para salvar vidas assiste a uma vida escorrer pelo alto-falante.
O emprego da gravação real põe o filme numa região ética delicada. Hind não é matéria bruta de ficção, tampouco uma personagem disponível para os caprichos de quem escreve. A diretora reconhece esse limite ao manter a violência fora de quadro e fazer da voz um elemento quase sagrado. Em alguns momentos, os rompantes de Omar e a aflição muito calculada dos colegas parecem explicar ao público uma emoção já contida no áudio, como se o choro da menina precisasse de uma moldura dramática. O excesso dura pouco. Quando Ben Hania deixa os atores apenas escutarem, o artifício desaparece e a sala inteira se curva diante daquela presença invisível.
A fotografia de Juan Sarmiento aproxima-se dos rostos sem buscar beleza no desespero. Rana permanece diante do telefone, os olhos fixos num ponto que ninguém mais vê; Mahdi anda de um lado para outro tentando obter uma liberação; Omar soca paredes porque já entendeu que nenhuma bravura pessoal resolve uma cadeia de comando. O som de Amal Attia e sua equipe faz o resto. Respirações, chiados, pausas e chamadas interrompidas tornam-se mais aterradores que explosões, justamente porque cada ruído confirma que Hind continua ali.
O desfecho é conhecido antes que o filme comece. Hind, cinco familiares e os dois paramédicos enviados para resgatá-la foram encontrados mortos doze dias depois. Essa certeza poderia liquidar a tensão, e ocorre o contrário. Kaouther Ben Hania obriga o espectador a acompanhar a lenta construção de um fracasso anunciado, minuto após minuto, autorização após autorização. “A Voz de Hind Rajab” termina, porém a ligação não se encerra. Fica presa na cabeça de quem ouviu, como se o telefone ainda tocasse numa sala onde ninguém conseguiu chegar a tempo.

