Lançado em 2022 e dirigido por Romain Gavras, “Athena” acompanha três irmãos de uma comunidade nos arredores de Paris após a morte de Idir, um adolescente de 13 anos. O garoto teria sido espancado por homens vestidos como policiais, e a falta de esclarecimentos deixa sua família dividida. Enquanto o militar Abdel (Dali Benssalah) pede calma, Karim (Sami Slimane) lidera uma revolta contra a polícia. Moktar (Ouassini Embarek), por sua vez, tenta salvar seus negócios ilegais em meio ao caos.
A história começa diante de uma delegacia, onde Abdel concede uma entrevista e pede que os moradores aguardem a investigação sobre a morte do irmão. Soldado do Exército francês, ele está habituado à disciplina e acredita que ainda pode conversar com as autoridades. Seu apelo dura pouco.
Karim e um grupo de jovens invadem o prédio, roubam armas, coletes, escudos e um veículo policial. A ação foi preparada com antecedência e transforma a delegacia em alvo de uma operação quase militar. Os invasores retornam a Athena, conjunto habitacional onde os irmãos cresceram, e fecham os acessos ao bairro.
O começo resume bem a proposta de Romain Gavras. “Athena” não prepara o espectador com apresentações demoradas. A morte já aconteceu, a família está ferida e a revolta tomou as ruas. Restam poucas horas para impedir que a indignação provoque outras vítimas.
Karim transforma o bairro em uma fortaleza. Os jovens levantam barricadas, ocupam os prédios e usam fogos de artifício contra a tropa de choque. Não são combatentes profissionais, mas conhecem escadas, telhados, corredores e passagens internas. Essa familiaridade lhes dá alguma vantagem diante dos policiais enviados para retomar o conjunto.
Irmãos separados pela mesma dor
Abdel volta a Athena para participar da cerimônia em memória de Idir. Ele procura Karim e tenta convencê-lo a encerrar o levante, mas o rapaz já assumiu o comando do grupo. Karim exige a identificação dos homens acusados de matar o adolescente e não aceita promessas vagas.
A relação entre os dois sustenta a parte mais humana da história. Ambos sofrem pela mesma perda, embora reajam de maneiras incompatíveis. Abdel deseja retirar os moradores da linha de fogo e impedir novas mortes. Karim acredita que o silêncio das autoridades só será quebrado pela força. Um vê a violência como ameaça para o bairro. O outro a considera o único recurso que ainda possui.
Dali Benssalah interpreta Abdel com contenção. O personagem precisa falar com policiais, proteger civis e enfrentar a desconfiança dos próprios vizinhos. Seu uniforme permite alguma aproximação com o comando da operação, mas também o afasta dos jovens de Athena. Ele pertence à família e ao Exército, porém não consegue ser plenamente aceito em nenhum dos lados.
Sami Slimane dá a Karim uma fúria juvenil que mistura coragem, sofrimento e imprudência. O personagem ocupa os pátios como líder, distribui tarefas e mantém a resistência ativa. Sua autoridade depende da revolta coletiva, o que torna qualquer tentativa de conciliação ainda mais difícil.
Moktar quer salvar a mercadoria
Enquanto Abdel procura proteger os moradores e Karim enfrenta a polícia, Moktar tenta retirar seu contrabando de Athena. O traficante descobre que as barricadas também bloqueiam seus negócios e se abriga com seus homens em um salão de narguilé.
Ouassini Embarek oferece ao personagem uma energia mais terrena. Moktar está cercado por uma batalha familiar e social, mas sua principal preocupação são as sacolas que precisa esconder. Há algo quase absurdo nessa prioridade. O bairro está sitiado, a polícia prepara uma invasão e ele ainda pensa no prejuízo comercial.
Essa diferença entre os irmãos torna o enredo mais rico. Abdel procura preservar vidas. Karim exige justiça. Moktar quer proteger a própria sobrevivência e a mercadoria. Cada um tenta obter algo concreto antes que a tropa ocupe o conjunto, embora nenhum deles possua controle suficiente sobre os acontecimentos.
Moktar também mantém contatos entre policiais envolvidos com suas atividades. Essa rede clandestina lhe oferece uma possível saída, mas cobra um preço alto. Em Athena, até a corrupção depende de portas abertas, e quase todas estão bloqueadas.
A noite aperta o cerco
Quando escurece, a tropa de choque avança sobre o conjunto habitacional. Os jovens respondem com fogos de artifício e objetos lançados dos prédios. A arquitetura do lugar ganha importância porque cada corredor pode esconder alguém, cada escada oferece passagem e cada entrada tomada modifica o risco para os moradores.
Durante a operação, Jérôme (Anthony Bajon), um jovem policial, acaba separado de seus companheiros. Assustado e sem apoio, ele deixa de representar apenas a força do Estado e passa a ser um homem vulnerável dentro de um bairro hostil. Karim percebe que o agente pode ser usado para pressionar as autoridades, enquanto Abdel teme que essa escolha provoque uma ofensiva ainda mais violenta.
Anthony Bajon interpreta Jérôme sem transformar o policial em figura grandiosa. O medo do personagem é visível, assim como sua falta de preparo para uma situação que saiu do controle. Sua presença aproxima os irmãos de um ponto perigoso. Karim deseja usar o agente para descobrir os nomes dos envolvidos na morte de Idir. Abdel tenta impedir que outra família receba a mesma notícia que destruiu a sua.
O suspense cresce porque o tempo trabalha contra todos. A polícia envia reforços, os moradores permanecem presos e os jovens precisam manter as barricadas. Abdel procura retirar civis e recuperar alguma autoridade sobre Karim, mas cada novo ataque dificulta sua tarefa.
Uma câmera no centro da revolta
Romain Gavras filma várias sequências em planos extensos, acompanhando personagens por delegacias, veículos, pátios e edifícios. A câmera segue a movimentação sem oferecer muito descanso, o que coloca o público perto da desordem. A técnica tem função narrativa porque revela informações na mesma velocidade em que Abdel, Karim e Jérôme conseguem recebê-las.
O trabalho de encenação impressiona, sobretudo pela quantidade de pessoas circulando simultaneamente. Policiais avançam em formação, moradores procuram abrigo e jovens carregam equipamentos roubados. Tudo precisa ocorrer com precisão para que a confusão pareça espontânea. É uma contradição curiosa. A desordem de Athena depende de uma organização cinematográfica quase obsessiva.
Em alguns trechos, a grandiosidade das cenas ocupa um espaço que poderia pertencer aos personagens. Karim, Abdel e Moktar representam maneiras distintas de reagir à morte de Idir, mas o roteiro oferece pouco silêncio para conhecer melhor esses homens. O filme prefere mantê-los em movimento, pressionados por sirenes, ordens, corredores e ameaças.
Ainda assim, “Athena” preserva a dor familiar como centro da história. A revolta do bairro nasce de uma morte sem esclarecimento e cresce porque a confiança nas autoridades já estava ferida. Abdel tenta impedir que o luto destrua os irmãos restantes. Karim transforma a própria raiva em comando. Moktar procura sobreviver sem abandonar seus interesses.
O drama de ação é tenso, vigoroso e angustiante. Romain Gavras entrega uma experiência intensa, por vezes mais interessada na força das imagens do que na profundidade política do conflito. Mesmo assim, a família mantém a história ligada ao chão. Quando a polícia fecha os acessos de Athena, os três irmãos descobrem que sair do bairro será muito mais difícil do que entrar na guerra.

